Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo

Fisterre

O Caminho chegou à tumba. Agora trata-se de ressuscitar. O Caminho nos levou a uma morte simbólica. O peregrino, depois de várias semanas de vida nômade, morreu para uma visão da vida, da realidade. Morreu porque, a partir daí, sua vida vai mudar em muitos aspectos. Agora tem que ressuscitar -<porque senão nossa fé é uma fé morta>-, tem que nascer para uma nova vida, mais plena de significados, mais consciente, mais real. Tem que despertar definitivamente do sonho em que havia vivido antes de se por a caminhar, quer dizer, tem que assentar a nova visão das coisas alcançadas durante a peregrinação.
FISTERRE - 16/06/2005

Um povoado que fica a 120 Km de Santiago. É um
lugar muito especial, também chamado "O Fim da Terra", o ponto do continente mais avançado ao mar em toda a Europa e onde os peregrinos que chegam à Santiago, costumam cumprir o último ritual: queimar as roupas que foram usadas na caminhada, simbolizando queimar o que se quer deixar para trás, o que não se quer levar para uma vida nova.
Tomamos um ônibus em Santiago juntamente com outros peregrinos.

O amplíssimo horizonte que se divisava, me sugeria
a nova vida que me esperava a partir de então: uma vida onde todo sonho se transforma em realidade, não havendo nenhum limite imposto pelo homem. O único limite reside em nossa percepção e capacidade para alcançá-lo.



Ante esta imensidão me senti muito pequena.
A peregrina reconhece a sua insignificância mas encontrou a força motora que lhe impulsiona a viver. Agora, já realizado o Caminho a pé, já foi provada pelos quatros elementos: terra, água, ar e fogo.
Pisando dia-a-dia a terra com seus pés, vivendo em seu contato; suportando a chuva sem pensar em desistir do seu propósito e passou por momentos de sede. Quando o vento soprava forte seguia caminhando, tanto fazia se soprava a favor ou contra. Nem os dias de calor abrasador conseguiram deter sua marcha.
Talvez igual como a Venus de Boticcelli nasce pura e bela de uma concha marinha. Impulsionada pelo sopro de Zéfiro a peregrina nasce da sua vieira fortalecida pelos ventos marinhos, empurrada pelo leve encrespar das ondas, enriquecida com a fragância salgada do mar, confortada com o calor do astro rei.
Agora, com certeza, conseguirá levar melhor sua caminhada pela terra.
Subimos o morro até chegar ao Faro (Farol).

RITUAL DE QUEIMAR AS ROUPAS
A primeira peça foi logo a minha camisa do Brasil, companheira até o último dia da caminhada. (as outras fui perdendo pelos albergues do caminho.

Este poema escrito pelo Pároco Eugenio Garibay na parede de um muro de uma casa de farinha, antes de chegar em Nájera retrata o verdadeiro sentido da peregrinação.

Agora me acho em condições de responder a pergunta do poema de Eugenio Garibay:
"Peregrino quien te chama? Que fuerza oculta te atrae...?
Agora tudo se encaixa na minha mente e me parece compreender melhor que o homem é um ser inacabado, e que a força oculta que o atrae ao Caminho é a alma que deseja manifestar-se de maneira impetuosa e irremediável ao mesmo tempo. O homem é tão irracional que só pensa no TER, mas o Caminho, que é generoso com todos os peregrinos por igual, como o sol, que brilha para todos quer seja pecador, rico. pobre ou virtuoso, esportista, curioso, ocioso ou trabalhador, constantemente o está chamando sem que possa descansar em paz, para que não possa fugir de si mesmo. Em realidade, por meio da ferramenta que supõe o Caminho, a alma utiliza o homem para se revelar.
A BOTA
Dizem que neste local havia um par de botas de ferro, porém, uma delas foi roubada. Mas restou esta que deu para tirar uma foto de recordação.

CONSOLO...
" As pessoas se esquecerão do que você disse... as pessoas se esquecerão do que você fez... mas as pessoas nunca se esquecerão de como você as fez sentir.
Os bons amigos são como estrelas... que você nem sempre as vê, mas você sabe que sempre estão lá.


Enviado por Sandra Azevedo
 
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