Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo

12ª etapa - BELORADO - SAN JUAN DE ORTEGA (PARTE 2)

SAN JUAN DE ORTEGA
DIA: 24/05/2005 

Esta etapa, até San Juan de Ortega, é muito cansativa e transcorre entre grandes bosques de robles com total ausência de ruídos... Fazia muito calor e tinha os pés com muitas dores das feridas ocasionadas pelas bolhas...
Pegamos uma descida rápida que nos fez chegar à Vila.

Aí não encontramos uma cidade e sim, uma ÙNICA rua. Aí estava o ÚNICO bar da cidade, que era ao lado do ÚNICO albergue da cidade, que era ao lado da ÚNICA igreja da cidade, que eram as ÚNICAS coisas da cidade...
San Juan de Ortega é meio quarteirão, e é mágica!

Foi favorecido por reis, nobres e eclesiásticos, que procuraram converter um lugar inóspito e perigoso num refúgio seguro.

Este foi o lugar de retiro de Juan Velázquez e San Juan de Ortega, quando retornaram da Palestina. Era um ponto especial, onde os peregrinos passavam penalidades porcausa dos ladrões. Aí foi construída uma igreja e uma casa de acolhida, que até os dias de hoje conserva um ambiente religioso e espiritual. Apesar da ação dos bandidos, que destruiam os muros todas as vezes em que eram levantados, o eremita terminou sua obra, protegido por Doña Urraca e Alfonso VII.

Aí o santo exibiu as relíquias trazidas da Terra Santa, correspondentes a San Esteban, San Donato, San Nicolás, San Ambrosio, Santa Bárbara e Santiago.

O projeto original da igreja do monastério de San Juan de Ortega se atribue ao próprio San Juan no século XII. O conjunto urbano é absolutamente evocador. Por sua localização afastada, é propício a um ambiente de peregrinação. Este lugar, onde foi enterrado o santo construtor, continua sendo um lugar de oração. Ainda que a planta do edifício seja românica, no alto podemos observar a mudança de estilo ao encontrarmos um cruzeiro  coberto com abóbadas de nervuras. Além disso nas naves já está claramente definido o estilo gótico do século XV. Dentro da arquitetura da Igreja de San Juan de Ortega destacam-se dois capitéis românicos e os sepulcros: San Juan de Ortega teve quatro sepulcros que por uma parte enobreciam o lugar e por outra serviam para confundir os possíveis saqueadores de relíquias. Este lugar, onde foi enterrado o santo construtor, continua sendo um lugar de oração.

Um ilustre visitante do lugar foi o papa Adriano VI que esteve em Burgos e antes de voltar para Roma visitou este santuário, e deixou seu peitoral guardado em um relicário com dos espinhos da coroa do Salvador, em troca de um braço do crucifixo de marfim que o Rei Alfonso VII havia doado ao santo.

San Juan nasceu (como Juan Velázquez) em 1080 na pequena aldeia de Quintanaortuño, nesta mesma província. Tendo realizado a peregrinação a Jerusalém, ao retornar, decidiu dedicar-se a proteger os peregrinos que iam a Compostela na difícil etapa dos montes de Oca. Retirou-se para este local denominado Ortega, onde construiu uma capela consagrada a San Nicola de Bari e o Hospital de peregrinos. Na sua juventude foi seguidor de Santo Domingo de la Calzada, colaborando na construção de hospitais, igrejas e pontes. Depois da morte do velho mestre em 1109, e desaparecido o território na nociva guerra civil entre D. Urraca e Alfonso I, o Batalhador, que terminou com boa parte das construções realizadas na Rioja pelos santos construtores, San Juan decidiu peregrinar a Terra Santa. Nesta viagem salvou sua vida milagrosamente e depois de ter solicitado a intercessão de San Nicolás de Bari, prometeu dedicar uma capela a este santo. No seu retorno consertou algumas pontes construídas por seu mestre e destruídas pela guerra. Concentrou seus esforços nos Montes de Oca, onde construiu um hospital e uma capela dedicada a San Nicolás de Bari, como tinha prometido.  Dedicou o resto de sua vida à manutenção, reconstrução e aprimoramento do Caminho de Santiago. Foi ele quem construiu todo o trecho que leva a Atapuerca, além de pontes em Nájera, Logroño e Santo Domingo de la Calzada. Entre as virtudes a ele atribuídas era famosa a de seu poder de intercessão contra a esterilidade. Com este fim, em 1477, a rainha Isabel recorreu ao seu sepulcro. No ano seguinte teve um herdeiro ao qual pôs o nome de Juan, e pouco tempo depois teve uma menina, batizada como Juana. Agradecida pelos favores, mandou ampliar a igreja românica até completar o grupo de edificações que hoje vemos, pois, achou pobre o templo construído por San Juan de Ortega. Morreu em Nájera em 1163, e foi enterrado nesta mesma capela românica que construiu em Ortega. Apesar de reformada e ampliada, a velha capela existe até hoje.

Sete anos após sua morte, o local passou a abrigar um mosteiro da ordem de Santo Agostinho, que a partir do século XV (1432) passou à ordem de São Jerônimo. Hoje em dia o conjunto abriga um dos mais amplos albergues de todo o Caminho, com capacidade para receber centenas de peregrinos.


Às 17 horas, nos dias 21 de março e 22 de setembro, dias dos equinócios (momento em que se verifica igual duração do dia e da noite) acontece o que foi denominado como o "Milagro de la Luz": através de uma das janelas da igreja a luz do sol incide sobre um dos capitéis mais belos da arte românica e é iluminado pelo sol nas profundidades da Igreja de San Juan de Ortega. É o capitel da Anunciação que representa a mensagem da gestação de Maria por obra do Espírito Santo, através do arcanjo Gabriel.

É como se alguém tivesse tido um interesse especial para que nos fixássemos naquela escultura, na qual associaríamos com os dias em que a luz equilibra suas forças, com os ciclos anuais da vida, morte e regeneração que marcam o mistério da existência.

Mais uma vez, como por todas as partes nos Montes de Oca, como culminação da Serra de la Demanda, se apresenta ante os nossos olhos o mistério da materialização da Vida e da Regeneração em um receptáculo sagrado.

É um início do mistério da Ressureição que nos espera ao final do Caminho, exposto ante nossos olhos de uma forma tão misteriosa como sublime: a profunda sensibilidade do artista que esculpiu as figuras, unidas aos precisos cálculos do mestre construtor que fez a Igreja...a nobreza da pedra, filha da Terra, iluminada pelo Sol, doador da Luz, desde a cúpula celeste...uma mensagem que quizeram que permanecesse através dos séculos.

Faz muito tempo que o Pároco José Maria é um personagem famoso no Caminho de Santiago. Como sacerdote e encarregado do santuário de San Juan de Ortega, José Maria acaba por adquirir algumas das características do santo que construiu aquele lugar. Dizem que ele é rude com os que tentam enganar ou roubar os peregrinos e super bondoso e serviçal com estes.

Cheguei a San Juan de Ortega embaixo de muito calor e com os pés totalmente esfarrapados. José Maria colocou sobre mim toda sua capacidade de entrega ao dedicar um bom período da tarde sentado ao meu lado, junto à salinha da recepção, aonde eu aproveitava para colocar os pés no sol. Sua atenção foi maravilhosa para mim não só dando consolo às minhas necessidades físicas como espirituais.

Conversava sobre diversos temas, de problemas sociais, do Caminho, dos peregrinos, das crenças. Em alguns aspectos minhas opiniões divergiam das dele, mas estava tão agradecida tanto pela sua companhia como pela sua boa vontade, que nem me passou pela cabeça discutir as diferenças. Só em situações assim é quando se chega a conhecer o sentido mais profundo do que se pode entender como agradecimento.

Ali nada era cobrado ao peregrino, este dava o que queria ou podia. O refúgio, muito sujo, estava cheio e tivemos de ficar num salão na parte inferior onde não parava de chegar peregrinos tentando se acomodar. Um casal que estava descansando começou a reclamar com o barulho que, sem querer, faziam os que estavam chegando. Aí uma peregrina que não gostou de ser repreendida pelo ilustre casal, começou a dizer que se eles estavam incomodados que mudassem de lugar. Depois de um período de confusão, os incomodados se retiraram.

Não havia água quente, por sinal a água era gelada, e foi o banho mais frio que tomei em todo o percurso. O banheiro ficava na parte superior o que para mim, era um martírio, já que teria que subir as escadas com os pés pegando fogo de tanta dor.

Mas como dizia uma placa colocada acima de uma porta no refúgio de Hospital de Órbigo:

Estava agradecida por tudo, inclusive até mesmo pelo banho gelado e a sujeira do chão aonde logo mais iríamos deitar.

À tarde na rotina de lavar a roupa eu pensava no resgate à delícia de usar roupas energizadas pelo sol.

No Caminho nos vestíamos com peças energizadas pela pureza das águas e secadas com a força do sol e o poder do vento.

Às 19:00h ouvimos o badalar dos sinos. Era um convite para participarmos da Santa Missa, uma celebração especial para nós, peregrinos. No final da missa o Padre José Maria pediu para nos aproximarmos uns dos outros formando um círculo ao redor dele. Abrindo os braços na nossa direção, ele pergunta:

"-quantas pessoas vocês acham que gostariam de fazer o Caminho de Santiago?". Sem esperar resposta, foi dizendo: "- muitas, muito mais do que realmente o fazem".

Com seus olhinhos brilhantes penetrando no fundo das nossas almas, continuou perguntando se tínhamos noção de "quantas pessoas conseguem fazê-lo". Ele mesmo responde: "-Poucas".

E aí conseguiu nos atingir em cheio quando questionou "o porque de estarmos ali. Destino?". Não, não era simplesmente por ser nosso destino mas, que se alí estávamos, era porque "nós fomos escolhidos".

Emocionada, meus olhos encheram-se de lágrimas. Disse ainda que Jesus tinha nos chamado para fazer o Caminho e que podíamos nos considerar uns privilegiados por estarmos alí. Que fomos escolhidos para continuar dando vida ao trabalho de Jesus e que através da mão de Tiago, o apóstolo, devíamos expandir o conhecimento a outras pessoas.

Não preciso dizer que a emoção tomou conta de todos, sem excessão.

Ao mesmo tempo que nos fez sentir responsáveis por suas palavras, nos fez sentir "especiais".

No final uma espanhola que falava muito bem o inglês traduziu a benção para todos. Foi realmente uma missa inesquecível e mais um "instante santo" na minha peregrinação.

Após a missa o Pe. José Maria nos acompanhou num "tour" para mostrar a Igreja, o clautro, a hospedaria e a capela de San Nicolás de Bari (S. XII) que é um belo exemplo românico e tem planta de cruz grega. Fiquei encantada com o mausoleo do santo, talhado por Gil de Siloe, em delicado estilo isabelino cujas pedras acima dos arcos ostentam os escudos de Isabel e Fernando.

Em seguida nos levou ao refeitório situado ao lado do albergue, onde fez questão de nos servir a tão famosa e esperada sopa de alho, que por sinal, estava uma delícia. Olha que eu sou "super, hiper enjoada" para comer, porém, ali naquele lugar mágico não deixaria de forma alguma de tomar aquela sopa preparada e oferecida com tanto amor pelo Padre José Maria. 

Depois começou a cantar a música "AMIGOS PARA SIEMPRE" sendo acompanhado por todos alí presentes, cada qual cantando no seu idioma. Muito lindo. Realmente um dia de muitas emoções. Depois da sopa alguns ficaram para ajudar na limpeza, enquanto outros ainda famintos, dirigiram-se para jantar uma especial tortilla no único bar existente.

Estava muito cansada e quando me deitei peguei logo no sono. No dia seguinte, quando acordei, a Keka e a Núbia me contaram que assim que eu dormi, os italianos que estavam com seus colchões ao lado do meu, morreram de rir ao escutarem o meu ronco "cantado e sinfônico". A partir daí passei a perguntar sempre para elas se eu roncava, mas elas diziam que não, que foi só naquele dia...Será que foi mesmo????

Lugares como San Juan de Ortega justificam todos os sacrifícios do Caminho e pessoas como o Pároco José Maria nos fazem acreditar no sentido da própria existência humana.

A maioria das vezes, quando o tema é o Caminho de Santiago, sou questionada se voltaria a fazer novamente o Caminho. Na verdade, não sinto necessidade de repetir o Caminho pois acho que não teria o mesmo sabor, o sabor da novidade, do desconhecido. Além do mais não deixei de ver ou fazer nada que justificasse um retorno. Tenho vontade sim, de viver uma nova experiência: "servir" como hospitaleira. Dá um pouco de mim em retribuição ao tanto que recebi do Caminho de Santiago, usufruindo também, da energia e companhia de algumas pessoas que fizeram a "diferença": Tomás (Manjarin), o Nicholas (Belorado), Pároco José Maria (San Juan de Ortega), a Carmen (Frómista), o Sr. Lobo e a Laura (Mansilla de las Mulas), os Monges (Rabanal del Camino), o Jesus Jato (Villafranca del Bierzo), o Acácio e a Orietta (na época que eu fui, maio de 2005, eles estavam em Vega de Valcarce).

O caminho criado por mim em 2005 tem uma identidade única. Lá ficaram gravadas as minhas pisadas fortes, quando tive certeza para onde ia; as pisadas quase apagadas, quando estava tão feliz que "flutuava"; as pegadas em círculos, quando caminhava em volta de mim tentando aliviar as dores dos pés; as pegadas retilíneas, quando caminhava na certeza de que este era o melhor caminho. Lá também deixei marcadas as pegadas múltiplas quando caminhei acompanhada com minhas amigas brasileiras (a Keka, a Núbia, a Lu e a Érica), com o francês (Jacques), o português (Antônio), os espanhóis (Juan Jose e Pedro), os japoneses (Kuni e Katsuko).

Não peguei pegadas alheias marcadas por experiências que, com certeza, não caberiam com exatidão nos meus pés. Fiz eu mesma as minhas pegadas, tortas, retilíneas, muitas vezes com muitas dores, não importa, são minhas pegadas, minha história que foi escrita e eternizada. Aproveitei para observar as pegadas alheias como aprendizado, analizando-as, mas nunca copiando pois tive as minhas próprias experiências para vivenciar e meu próprio esforço do qual me orgulhar. Também não permiti que ninguém me carregasse no colo, nem carreguei ninguém. Por diversas vezes recebi e dei minhas mãos para caminhar junto.

Fui abençoada todos os momentos: quando as flores perfumaram meu caminho, os frutos (huuuum, as cerejas!!!) alimentaram meu corpo. Quando pude descansar merecidamente embaixo de alguma árvore usufruindo da sua sombra e, matando a minha sede, na maioria das vezes, nas águas cristalinas das fontes. O vento no rosto, os pássaros alegrando minhas manhãs e tardes. O sol me aquecendo, a lua me trazendo sonhos, as estrelas iluminando as minhas noites... Tudo isto é recompensa que recebi por ter construído o meu caminho.

E agora, através de pequenos relatos vou construindo o meu castelo enquanto compartilho as minhas experiências com vocês, deixando escritas as memórias da minha peregrinação à Compostela. Não esqueçam que quem escreve, constrói um castelo, e quem lê, passa a habitá-lo.

No dia seguinte, antes de sairmos, na sua pequena e aconchegante cozinha, o Padre José Maria nos serviu café com leite e, mais uma vez, nos deu a sua preciosa benção.
 

Enviado por Sandra Azevedo
 
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