Relatos Peregrinos

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Sandra Azevedo

12ª etapa - BELORADO - SAN JUAN DE ORTEGA (PARTE 1)

"Cuando el camino me canse,
no te pido que me hables,
sino que me dés la mano"

No albergue de Belorado as camas ficavam no andar superior e ao descermos encontramos vários peregrinos tomando um saboroso café da manhã e resolvemos nos juntar a eles, assim, já sairíamos de barriga cheia.
O mais engraçado é que o Nicholas (hospitaleiro) havia colocado uma bola de vidro enorme, que descia do teto até a mesa, onde estava escrito num pedaço de papel:
"Desayuno- euros: 3,50".

Para ter direito ao "desayuno" cada peregrino deveria depositar ali a quantia estabelecida.
Já havíamos calçado as botas e recolhido nossos cajados que tinham sido deixados num espaço para eles reservado, entre a recepção e a cozinha.
O Nicholas, muito simpático, estava nos esperando na saída para nos dar a despedida e nos desejar um "Buen Camino".


Esta etapa é dedicada ao discípulo de Santo Domingo, San Juan de Ortega.
Podemos dividir esta etapa em duas partes: a primeira que vai de Belorado até Villafranca Montes de Oca, é um caminho fácil e perfeito para desfrutar tranquilidade (mais ou menos uns 12 km).
A segunda, bem difícil, vem marcada pela passagem do Alto de La Pedraja.

Há poucos kilômetros da saída de Belorado notamos ao longe, uma grande pedra cheia de covas parecidas com as casas dos trogloditas, onde se encontra encravada a capela da Virgem de la Peña. Estávamos em Tosantos. A igreja paroquial deste pequeno "pueblo" perto de Belorado está dedicada a San Esteban.



Seguíamos usufruindo as lindíssimas paisagens...


No céu, marcas da civilização: aviões que passam deixando seus rastros...

Chegamos a Villafranca Montes de Oca, situada aos pés de "La Pedraja".
Sua origem remonta da romana cidade de Auca, de onde os visigodos fizeram logo sua sede episcopal ao menos entre os séculos IV e VI. Destruída pela invasão serracena e nunca reconstruída, Alfonso I em pouco tempo a recuperou do poder dos mulçumano. Seu primeiro bispo foi San Indalecio que, segundo um texto mozárabe do século IX escrito no sul da Espanha, foi um dos sete homens apostólicos que, consagrados por São Pedro e São Paulo em Roma, receberam como missão evangelizar a Espanha. Em 1075, Alfonso VI decide transferir para Burgos a antiga sede episcopal de Oca. Talvez para compensar efetuou a reconstrução da cidade em um lugar perto do antigo, com um nome novo: Villafranca.  
Aos fins do século IX, outra vez em mãos cristãs, queria o rei Sancho II que se alojasse aí novamente a sede diocesana, ainda que de modo efêmero, pois, em 1075, foi transferida para Gamonal e em seguida para a  cidade de Burgos, tendo sido proposto por Alfonso VI.
Esta ação, junto com as campanhas do aragonês Alfonso I, o Batalhador, contra sua esposa, a rainha leonesa D. Urraca, marcaram a decadência do velho lugar como centro de decisão. Mas a vitalidade do Caminho de Santiago já havia germinado, desenvolvendo-se junto a ele este importante povoado, Villafranca, marca jacobéa de onde a rainha Violante, esposa de Alfonso X, estabeleceu em 1283 um hospital para peregrinos.
Do rico passado de igrejas e capelas, hoje o povoado só conserva três:

  • Pouco antes de entrarmos em Villafranca Montes de Oca aparecem, paralelas ao Caminho, as ruínas do monastério mozárabe ( parte do cristianismo que viveu entre os mulçumanos na Espanha) de San Félix de Oca. 

Monastério de San Felices de Oca.


Interior do Monastério de San Felices de Oca.

  • A antiga paróquia de Santiago, situada junto ao castelo e provavelmente de origem românica desaparecida no final do século XVIII, cujas pedras foram reutilizadas para a construção da atual. Aí encontra-se a concha de maior dimensão em todo o Caminho que é utilizada como pia batismal, trazida das Filipinas. Não pude fotografá-la porque a Paróquia encontrava-se fechada no horário que passamos.

  • Ao sul do casario se encontra a ermita de  Nuestra Señora de Oca, de origem pré-românica e com reformas de épocas gótica e posterior. Aí se venera uma imagem do século XII que também não pude fotografar pelo mesmo motivo citado anteriormente.


No ano de 884 por mandato de Alfonso III foi construído um hospital de Santiago do qual nada resta. Posteriormente em 1380 a rainha doña Juana Manuel, esposa de Enrique II de Castilla, funda o hospital de la Reina ou de San Antonio Abad, que era o melhor dos existentes neste local. Laffi, sacerdote bolonês que peregrinou em 1670, o recomenda pela 'grande caridade' e pela 'boa alimentação'. Juan I, filho da fundadora, lhe concedeu em 1383 todos os privilégios.
Nada restou das antigas construções, já que Juan de Ortega, religioso de Villafranca e depois bispo de Almería, reformou em 1476 toda a sua arquitetura. Desde esta época se mantém em bom estado a fachada, de arco, cuja pedra aparece decorada com um escudo dos Reis Católicos protegido por uma águia bicéfala coroada. Também se conserva o pátio interior, em torno do qual se distribuem as dependências, algumas delas reformadas no século XVIII, como a sala de refeição e a cozinha. Esta última, por certo, contava com um local central rodeado de asentos para que os peregrinos pudessem esquentar-se e secar suas roupas tranquilamente, sem necessidade de desnudarse, e disfrutar de uma comida que era bem conhecida por sua qualidade e quantidade.
No século XVIII, o hospital tinha capacidade para quatorze camas para homens, quatro para mulheres, outras quatro para sacerdotes e  pessoas ilustres, nove para doentes e cinco, em uma sala à parte, para mulheres enfermas.
Hospital de San Antón Abad.


Antigamente este pequeno povoado, Villafranca, era um lugar de reunião de peregrinos para juntos subirem aos Montes de Oca e atravessarem seus bosques, conhecidos como esconderijo de foragidos e ladrões.

 


Durante 13 km não haveria lugar para refugiar-nos. O mais próximo era San Juan de Ortega, onde havíamos combinado pernoitar. 
Não observamos direito e passamos direto pelo último bar. Começamos a contabilizar nossos suprimentos, pois ainda teríamos esses quilômetros de muita subida sem nenhum estabelecimento comercial. Era se manter com o que tinha ou apostar na solidariedade peregrina. Conversando, concluímos que além da pouca água, tínhamos barrinhas de cereais e uvas passas. Nada mais. Ou, como falamos, "temos tudo isso ainda".

Os montes de Oca eram a fronteira oriental de Castilla. Aymeric disse: 'Es una tierra llena de tesoros, de oro, abundante en pan y vino'.
A subida começa a partir de Villafranca Montes de Oca, por um caminho muito empinado. Os 100 primeiros metros são mais suaves e outros 600 metros com uma subida muito forte até a fonte de Mojapán. A partir deste primeiro quilômetro duro, a subida torna-se um pouco aliviada e mais cômoda para o peregrino. A ausência de marcas ou flechas amarelas dificultava o caminho a tomar. Algumas vezes notava uma pincelada de pintura amarela em umas das pedras no chão.
Seguimos subindo um aclive de quase 400 metros por caminhos esburacados e pontes estreitas. Neste trajeto, vimos vários ciclistas descerem das bicicletas e as levarem nas mãos, pois a dificuldade de pedalar neste trecho era grande. Foi uma manhã de poucas palavras, um tempo de silêncio. A Keka e a Núbia iam mais à frente e eu mais atrás, às vezes nos aproximávamos. Foi numa destas aproximações que quebrei o silêncio para dizer: "Que caminho bonito!". É que passávamos por um túnel de árvores e nos dois lados flores das mais variadas e de diversos tamanhos. Somava-se a isso o som das asas das abelhas, além do cheiro adocicado oferecido por elas.

O caminho pelo monte se suaviza mas continua subindo e chega um momento onde atravessamos o Puerto de la Pedraja. Entramos por um bosque de pinos e robles; passamos por um caminho florestal e nos encontramos a uma altitude de mais ou menos uns 1.163 metros. Passamos ao lado de um Monumento "A los caídos" em homenagem aos fuzilados na guerra civil de 1936.  
Aproveito para dar uma parada e fazer uma oração.

Os Montes de Oca se elevam pelo extremo ocidental da Serra de la Demanda, como um prolongamento, ou talvez, como uma culminação. Aí somos surpreendidas com uma das mais belas vistas que a natureza pode nos oferecer.

Cada dia me sentia mais feliz porque descobri que o simples ato de caminhar ao acaso, dia após dia, sem nenhuma preocupação a não ser a de admirar o mundo que me rodeava, respirando o ar puro do céu e sustentando-me sobre meus pés na terra, era o que mais podia almejar em minha vida:
o dom da liberdade, aquele que simplesmente é o "deixar-se SER".

Já tinha a minha rotina diária estabelecida: levantar cedo, fazer os curativos nos pés, colocar a mochila nas costas, enfrentar, no geral, um sol de 35º C. Caminhar por seis, sete ou até mais horas, parar, tomar banho, lavar roupa, comer, comprar mantimentos para levar no outro dia, escrever, passar "Betadine" (remédio para secar as bolhas e endurecer a pele) nas feridas dos pés, rezar e dormir... Embora meu sofrimento fosse totalmente visível, em nenhum momento, cheguei a questionar o que exatamente estava fazendo ali, muito pelo contrário, eu tinha certeza absoluta de que estava realizando o meu sonho e estar fazendo o Caminho de Santiago era realmente o que mais desejava.

Numa das nossas paradas para comer, enquanto conversávamos na mesa, a Keka disse que admirava a minha força porque com todas as dores, não me queixava e seguia firme no meu propósito. Aí então respondi para ela: "Keka, se você alguma vez na vida tivesse sentido a dor da perda de um amor, com certeza haveria de ver que, esta dor que agora sinto, é café pequeno em relação àquela outra". 

Estes montes de Oca durante muitos anos foram uma ameaça pela quantidade de salteadores. Segundo a tradição por aí morreu um peregrino sendo ressuscitado depois pelo Apóstolo em resposta às súplicas de seus pais.


 

O Caminho das Ocas e sua relação com o Caminho de Santiago.

As culturas celtas e pré-celtas, mantinham um símbolo sagrado, para suas confrarias e irmandades: a oca ou o ganso, representadas pela simbologia da pata da oca , que ao caminhar, deixa impressa uma marca muito semelhante ao tridente de Poseidón, que foi predominante em todas aquelas culturas atlantes. O Caminho das Estrelas coincide com o Camino da Oca e da Concha.

  PATAS DA OCA

Quando os primeiros cristãos começaram a peregrinar à Santiago, se encontram com os fundadores do Caminho que possuem profundas tradições e falam de um Caminho "das Ocas" ou "das Estrelas" e de um "Campo das Estrelas", ao qual se chega por um labirinto que é necessário recorrer para renovarse por dentro. Estas vivências são impossíveis de arrancar; e o que fazem é torná-las cristãs. As "Ordens", que vai se encarregar de torná-las cristãs, são principalmente: Cluny, Cister e a do Temple, que a partir do século X, se encarrega das construções, que são dotadas de uma simbologia em consonância com o cristianismo.
É assim, como esses antigos símbolos: a estrela, a concha, a pata de oca, o corvo, o lobo, o cachorro, se adotam como símbolos cristãos e se incorporam à peregrinação cristã.
Se colocamos duas patas de Oca, uma acima e outra abaixo, obteremos o
" X " e a barra que a corta verticalmente, obtendo-se o "X" e com o "P" (Ji e Ro: iniciais do nome de Cristo).


      

As Ocas: Transmissoras da sabedoria sagrada?

Antigamente, as Ocas eram as guardiãs das casas, alertando sobre a presença de intrusos, com o escandaloso ruído que produziam.
As Ocas, foram consideradas o paradigma da Sabedoria Sagrada. Se baseava na crença de que as Ocas, Gansos ou Ansares, eram as guías sagradas, enviadas para aconselhar os Humanos.
O cisne é uma ave simbólica do esoterismo e tem sido utilizada sempre pelos escritores espiritualistas do Oriente e Ocidente. Os orientais, chamavam o cisne sagrado "Hamsa", que está relacionado diretamente com o Deus criador Brahma, sendo este "Hamsa-Vâhana" o "Veículo do Cisne".
Para aqueles que desejam libertar-se, o caminho de iniciado-cisne, é um atalho seguro de evolução até a luz. O Preceptor, Pedagogo ou Mestre era conhecido como el Ganso. O Mestro Jars significa: "el ansar que enseña" que significa: "o mais sábio".

O Caminho de Santiago, seguindo o percurso das Ocas. Selvagens.

As Ocas Selvagens, tem uma migração estável e definiram os chamados Caminos de la Ocas.  Estes percursos, coincidem com o Caminho de Santiago ou o Caminho das Estrelas.
Cabe preguntar-nos se as migracões das Ocas, marcaram um caminho que seguia a Vía Láctea ou Caminho das Estrelas e os Peregrinos o usaram como guia para chegar a Santiago?
Parece lógico pensar, que os peregrinos, seguian as indicações naturais para guiar-se até Santiago, seguindo de dia o Caminho  das Ocas e de noite o Caminho das Estrelas.
Os antigos peregrinos, não dispunham de Mapas nem Guias e se moviam em um mundo hostíl, marcado pela existência de múltiplos reinos, senhores feudais, diferentes idiomas, religiões e costumes, baseando sua peregrinação no auxilio de Igrejas, Monastérios e Refúgios. A informação oral, transmitida se baseava em pontos de referência, que tinham que ser localizados e no percurso através de umas sendas sinalizadas por elementos astronômicos, geográficos ou migratórios : Caminho das Ocas, Caminho das Estrelas....
Ao longo do Caminho, é frequente, encontrar o símbolo da Pata de Oca. Se supõe, que era um dos símbolos usados pelos mestres construtores das Igrejas e Catedrais.

Áreas geográficas do Caminho das Ocas com grande influência no Caminho de Santiago.

No percurso do Caminho de Santiago duas zonas  possuem em que existem povoados com nomes de : Oca, Ganso, Ansar, Jar ...

  • A zona riojana de Villafranca Montes de Oca.
  • A zona Berciana desde El Ganso até Vega de Valcarce.

Que relação guarda o Jogo da Oca com o Caminho a Santiago.

O Jogo da Oca, se baseia em uma Espiral ou Caracol, dividido em 63 casas. 
A Pata da Oca e o Caracol eram os símbolos dos "Compañeros Constructores", que levantavam as igrejas de estilo Românico, sendo as mais belas e esotéricas, aos cuidados dos Templários. Cada uma destas Casas no qual está dividido o Jogo da Oca, guarda uma relação com as Etapas do Caminho de Santiago.
O jogo da Oca, era memorizado e exercitado, de forma que não fosse esquecido, convertendo-se no Guia do Caminho para os iniciantes, de forma que cada casa marcava uma etapa e seu início e final eram reconhecidos pelos Rótulos que deixavam os Mestres Construtores como marcas.
No Caminho à Santiago, podemos ter em conta esta relação, para o mapa das Etapas.
El Camino de las Ocas. Fonte: A. Fuentes, elcaminoasantiago.com
Começamos agora uma descida bastante inclinada até o arroyo Peroja onde existe uma pequena ponte construída pelos Amigos del Camino de Santiago. Começa uma nova subida, desta vez bem pior para nossos joelhos e pés já estourados pelo esforço empreendido. Vamos seguindo sempre por uma altura maior do que a rodovia N-120, mas descemos e nos encontramos em Valdefuentes, um daqueles lugares para descansar e adquirir novas forças: "lugar cobdiciadero para home cansado" como diz a placa colocada na ermita. Seis quilômetros adiante se encontra nosso destino: San Juan de Ortega 



 

Enviado por Sandra Azevedo
 
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