Relatos Peregrinos

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
Paulo Césare
SAUDADES DE ORREAGA

Quando parti de Roncesvalles, da última vez, dei as costas para a Colegiata e não virei-me para a tradicional última olhada antes de entrar na curva da estrada.

Esse gesto marcou-me profundamente.

Lembro-me de ter sido o penúltimo peregrino a sair do refúgio, ainda temendo a chuva fria que iria me aborrecer pelo resto da jornada. Não tenho vergonha de admitir que a minha vontade era a de voltar para o refúgio, ir dormir e acordar somente quando o sol aparecesse, o que seria totalmente inviável. E foi assim que parti de Roncesvalles naquela chuvosa manhã de domingo. Mal sabia eu que, a poucos quilômetros dali abandonaria o Caminho de Santiago e voltaria para casa.

Ainda posso visualizar-me em frente àquela placa de estrada, me sentindo enfeitiçado pelo nome do povoado ali escrito: Garralda. Eu estive lá três anos antes, com dois amigos. Foi de Garralda que pegamos um táxi para San Jean, e foi essa a primeira vez que eu fiz a travessia dos Pirineus, chegando em Roncesvalles a tempo para assistir à tradicional missa de peregrinos.

Ao lado da placa indicando o povoado, uma seta amarela. E nunca aquela seta amarela me pareceu tão acusadora. Pois o que eu mais queria naquele momento era que aquela seta, tão amiga em outras viagens, estivesse apontando para o lado oposto, na direção de Garralda.

Pode parecer absurdo, mas naquele instante eu descobri que o Caminho de Santiago terminava ali, naquela encruzilhada, a menos de cinco quilômetros de Roncesvalles. Continuar na trilha seria negar tudo o que eu já havia aprendido como peregrino nas outras viagens.

A experiência das outras peregrinações que fiz a Compostela me ensinou que não há um início nem tampouco um final no Caminho de Santiago; nós é que decidimos onde o Caminho começa e onde ele termina. Naquela viagem eu descobri que estava fazendo o Caminho em função do passado, em busca de pessoas que estavam comigo, que me ajudaram, que fizeram parte da minha vida, mas que não mais me pertenciam.

Depois daquela placa, essas pessoas, os momentos felizes, não estariam me esperando. E o mais sensato, pelo menos naquele instante de indecisão, era voltar para casa.

Fiz a caminhada para Garralda em pouco mais de duas horas. Sentia-me totalmente desamparado e não me recordo de ter ficado tão triste em toda a minha vida. Na verdade, essa tristeza já me acompanhava desde o dia em que cheguei a San Jean, mas pensava que fosse apenas o cansaço da viagem. No dia seguinte, chegando em Roncesvalles senti que havia algo de errado comigo, uma sensação de perda muito estranha.Vaguei pela pequena cidade, subi até o Ibañeta, entrei e saí da igreja diversas vezes achando que iria encontrar alguma coisa que me acalmasse, que me desse paz de espírito.

Recordei que no ano anterior eu estivera lá, no Caminho, fazendo a rota aragonesa. O abuso e a falta de respeito com meu próprio corpo deixaram seqüelas tão fortes que em Puente la Reina fui obrigado a desistir do Caminho. Minhas pernas já não podiam mais acompanhar o ritmo da caminhada e pegar um ônibus para compensar o atraso estava totalmente fora de cogitação para mim. Nesse ponto sou radical- só faço a peregrinação usando meus próprios pés.

Em Puente la Reina cheguei a sentir o que senti em Roncesvalles na última viagem. Foi um momento extremamente doloroso quando, sobre a ponte que dá o nome à cidade, atirei meu cajado no Rio Arga e pedi para que, simbolicamente, ele chegasse a Compostela por mim.

O Caminho, como qualquer peregrino há de afirmar, é algo único. É transformador à medida que a pessoa se permite transformar. Acho tão insólito quando algumas pessoas, entre as quais também me incluo, se referem ao Caminho como se ele fosse algo palpável; como se você pudesse pegá-Lo em suas próprias mãos e manipulá-lo de acordo com as suas necessidades e interesses...

Apesar de todos os momentos difíceis pelos quais passei pelo Caminho, são as alegrias e as boas surpresas que alimentam meu espírito quando me recordo dessas viagens. As lembranças tristes servem como referência para me fortalecer nos momentos de dificuldade e obstáculos em meu cotidiano pois, se consegui superá-los no Caminho, vou conseguir superá-los aqui.

Confesso que já planejo a próxima peregrinação, que talvez ocorra em breve. O fato de eu não ter dado aquela última olhada para Roncesvalles me deixou com uma sensação de sonho...às vezes imagino que logo vou acordar, me virar para trás e ver a cidadezinha logo ali, como que a me esperar para a derradeira despedida.

E tão logo visualizo a cena, uma bruma encobre Orreaga e ela então some de minha vista e permanece lá, absoluta, em seu passado intocável e silencioso.
 
Enviado por Paulo Césare
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright © Todos os direitos reservados
 


;