Relatos Peregrinos

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Paulo Roberto

Relato de um Peregrino

Percorrer o Caminho de Santiago de Compostela a pé desde a França tem um significado bem maior do que possamos imaginar. É mais do que um encontro interior. É antes de tudo uma grande lição de vida, uma prática de todas as nossas teorias que em algum dia sonhamos. Confesso que naquele momento jamais experimentei o sentimento de pertencer completamente a qualquer lugar.

Minha jornada começou em meados de abril/2001 subindo os Pirineus, numa temperatura de aproximadamente zero grau. Num frio tão intenso não é possível se dar conta da exuberante paisagem local, o pensamento predominante é andar para que o corpo fique aquecido. Foi nesse primeiro é inesquecível dia que Deus me revelara o propósito de minha vida. Eu estava muito cansado, já tinha feito mais de dois terço de um percurso de aproximadamente 30 Km com muitas subidas. Sentia dor na clavícula direita devido ao peso da mochila. Havia um componente desanimador em mim. Conversei várias vezes com Deus em alto e bom som; - Meu Deus, o quê é que estou fazendo aqui? A resposta foi imediata: alguns metros adiante encontrei uma peregrina da Finlândia, Sra Miavardis, recostada numa árvore do bosque com os olhos embotados de lágrimas. Sua tristeza vinha das forte dores no joelho esquerdo que ela havia torcido quando passava por uma lamaçal. No entanto, acho eu, que sua dor maior era ter terminado a jornada ali. Joseph e Bertrand, dois peregrinos franceses, ajudaram-me a carregá-la até o pueblo mais próximo, Roncesvalles.

Esse foi o propósito que encontrei e que me movimenta. Ajudar as pessoas sem esperar nada em troca. Sinto-me feliz assim. Poderia ter falado de coisas belíssimas como a benção, em Latim, dos peregrinos em Roncesvalles. Nas construções romanas, pois construir é colaborar com a terra; é contribuir para a lenta transformação que constitui a vida das cidades.

Também não teria palavras para descrever a bondade dos hospitaleiros Fernando (Urtega), Laura (Logronhos) e Maria (Burgos) ou tentar escrever o que senti quando estive no Cebreiro e nas Catedrais de Burgos, Astorga e Santiago de Compostela.

Anteontem recebi uma chamada Turku, Finlândia. Era Mia, dizendo que em setembro estará de volta ao Caminho. Amém !

Paulo Roberto, 29 de maio de 2001



Enviado por Paulo Roberto Campos Matos
 
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