Relatos Peregrinos

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Paulo Hummel

Fortalecendo a Auto-estima (um capítulo inteiro do livro Memórias de um Peregrino)

A dura experiência da primeira semana no Caminho põe à prova a condição física, a determinação, a humildade e a resignação do peregrino. Principalmente aqueles que, como eu, não dispunham de um preparo exemplar, problema que aflige a maioria dos que se aventuram pelas trilhas.

Apesar das dificuldades nas jornadas anteriores, foi na descida do Alto del Perdón a primeira vez que enfrentei uma forte onda de desesperança, provocada pela repetição das dores no joelho. Só não sucumbi à dor e ao desespero fortalecendo a crença na minha capacidade. Buscando força e coragem no íntimo do meu ser.

Habituados a um cotidiano competitivo, dói-nos muito não poder acompanhar os demais, como se estivéssemos disputando uma competição. Esquecemos que os resultados devem ser medidos conforme as circunstâncias de cada um. É comum, também, não nos lembrarmos dos que ficaram pelo caminho, muitos em condições superiores às nossas. E aqueles que agora desciam ligeiros e destemidos poderiam cometendo o mesmo equívoco que cometi na chegada a Zubiri.

O sucesso dos demais, não raro, evidencia a nossa sensação de fracasso, acionando processos psicológicos de autodepreciação que aniquilam a auto-estima. Ao ver os demais peregrinos passarem rapidamente, enquanto eu quase me arrastava, senti uma sensação de fraqueza e incapacidade, tão dolorida como a própria dor no joelho. Por algum momento o desânimo apossou-se de mim e a palavra desistência rondou a minha mente.

Mas, numa reação que talvez tenha definido o êxito da caminhada, não me deixei levar pelo desespero. Fragilizado pela dor, sustentei a minha confiança no grande feito daquela jornada: a conquista do Alto do Perdón, pois as subidas das montanhas sempre eram as etapas que eu mais temia. Os problemas, pensei, decorriam da falta de condicionamento. Os joelhos melhorariam com o antiinflamatório.

Essa simples reflexão repôs um pouco de lucidez aos meus pensamentos e fez-me perceber que boa parte daquele caos era criado pela minha própria mente. Um antigo inimigo, adormecido no íntimo do meu ser, que, no cotidiano, em surdina, já vinha minando a minha vontade diante dos desafios da vida. Era a minha baixa auto-estima, processo psicológico de autodesvalorização, tendência que, segundo os psicólogos, decorre de fatos negativos verificados na infância.

Sem ser chamada, a baixa auto-estima faz o papel de advogada do diabo, desdenhando o nosso potencial, depreciando a nossa criatividade, cerceando a nossa vontade, minando a nossa crença, menosprezando a nossa iniciativa, duvidando da nossa ação, impedindo os nossos atos, minimizando a nossa capacidade de luta, estreitando os nossos limites, intimidando os nossos vôos, adiando, enfim, a realização dos nossos sonhos.

Quantos sonhos não realizados... Quantas oportunidades perdidas... E quantas derrotas evitadas, claro, pois também podemos fracassar em nossas empreitadas. Mas, o inadmissível, o que jamais podemos fazer, é perder por antecipação.

Aquelas reflexões conscientizaram-me para o fato de que a maior parte dos nossos problemas de auto-estima decorre da ausência do autoperdão. Se não somos perfeitos - essa, sim, uma condição efetivamente insuperável - os erros e as limitações são inevitáveis e até podem ser úteis, pois oferecem-nos uma oportunidade para crescer.

Ao contrário do que se pensa, também padecem de baixa auto-estima as pessoas que não aceitam as derrotas. Viciadas em vencer, estão sempre carentes de aplauso para reforçar sua baixa auto-imagem. Os verdadeiros vencedores preparam-se rigorosamente para a batalha e vão à luta pensando somente em vencer. As derrotas, quando ocorrem, oferecem-lhes subsídios para a reavaliação de seus programas de treinamento.

Até mesmo os aspectos físicos, com os quais podemos não estar totalmente satisfeitos, não devem, unicamente, balizar a nossa auto-imagem. Viver já é um privilégio extraordinário. Quem sustenta sua auto-estima na beleza e no vigor da juventude está, fatalmente, programando sérios problemas para o futuro.

O sistema humano de auto-avaliação é influenciado por complexas variáveis, algumas delas aleatórias. Realizar os nossos sonhos é uma das poucas reais oportunidades que nos resta para fortalecer a nossa auto-estima. Portanto, é fundamental acreditar que podemos realizá-los, pois, sem essa crença, é remota a possibilidade de que ajamos decididamente para que eles se concretizem.

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