Relatos Peregrinos

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Patrícia Garcez

Minha definição peregrina

Ser peregrino é superar limites!

É pedalar entre bosques, montanha e colinas, na lama, pedra ou asfalto, sob neve, granizo, sol ou chuva e sentir-se feliz por poder estar ali.

É vencer o cansaço físico e ir dormir, longe do aconchego do lar, embebido em alguns copos de vinho, contente por cumprir mais uma etapa.

É sentir o rosto latejar, a endorfina circular, se olhar no espelho, embora ele tenha sido deixado para trás num ato de desapego, e ver, com orgulho, a pele queimada pelo frio (que raro!).

É aceitar, humildemente, as lições del Camino e deixá-las entrar...

É nunca mais subestimar os "mais mayores", que passam por você numa velocidade "levanta poeira", desejam "bom Camino" e se perdem pelas curvas sagradas, te deixando, aos 30 anos, sem fôlego, para trás!

É respeitar, acima de tudo, "El Camino" e todas as surpresas e mistérios que ele reservou para você.

É ficar perplexo por acordar inteiro, sem dores musculares, gripes, pneumonias naquele frio de rachar!

É aprender que as subidas que te assustavam são as mesmas que aquecem seu corpo, pouco preparado para as adversas condições climáticas, e agradecer pelo caminho montanhoso. Aprender que as, tão esperadas, descidas podem congelar suas mandíbulas, maltratar suas mãos ciclistas, fazer tremer todos seus músculos, muito embora proporcionem indiscutível prazer...

É aprender a interagir com sua bike, formar, não apenas um conjunto, mas o mais harmônico dos conjuntos, entender todos seus caprichos e curtir cada pedalada, cada marcha, cada curva, cada paisagem...sem nunca pensar em invejar "a turma do carro de apoio".

É escutar o estalar peregrino do granizo em seu "casco", olhar ao redor e realizar que não existe nenhum abrigo por perto, mas ficar feliz por ter um par de óculos escuros que protegerá seus belos olhos das gélidas pedras.....e seguir mais feliz ainda, por ter, um dia, vivido o inverno, sentido a neve em plena primavera!

Chegar àquele pueblo, tão recomendado em seu guia, descobrir que suas forças se exauriram, ainda ter que procurar o albergue, que parece se esconder de você, e descobrir que "no hay sitio"...respirar muito fundo, burlar as roupas molhadas, a temperatura negativa, tremer mais uma vez e, de repente, sentir ali, bem perto, dentro de você, a força que julgava ter acabado. Seguir, mais uma vez, até o pôr do sol, pedalando bravamente, como nunca e rindo (MUITO) de tudo aquilo! Fazer versos lindos, versos bobos, versos engraçados, bem humorados, sarcásticos, fazer piadas, muitas piadas...sentar no chão de pedras e soltar aquela gargalhada presa, reprimida há tanto tempo!

Ser peregrino é molhar a boca ressecada pela sede, pelo vento, pelo frio, pela emoção de ser peregrino, de pedalar sob a via láctea. Pensar com certo ar de desprezo na Coca-cola light de PTA$ 250,00 e agradecer a Deus pela água das fontes!

É dormir um sono profundo, em meio à sinfonia e aroma peregrinos e, mais uma vez, agradecer por aquele teto sem luxo, por aquela cama, pela calefação, pela acolhida e pelo vinho (sim, pelo vinho, pelo vinho e pelo vinho que embalou seus sonhos!!!). Sonhar com aqueles que ainda não foram lembrados nas suas orações diárias e, ao acordar, mesmo após descobrir que suas roupas não secaram, vesti-las com prazer e dedicar-lhes a próxima etapa do Caminho! Seguir, seguir e seguir, sentir na alma a grandeza da FÉ que ainda existe em você e ver que tudo na vida ainda é possível!

Peregrinar também é se dar o direto de invejar a desenvoltura com que os peregrinOs resolvem aquelas, inadiáveis, necessidades fisiológicas, mas se orgulhar de ser uma peregrinA determinada, correr para o telefone e ouvir dois "mamãe!" de arrepiar e pedalar, subir, virar, se achar e descer o tão esperado Monte do Gozo, falando a língua universal del Camino, expressando-se em todos os "ês", com uma inexplicável fluência: a fluência del Camino, a fluência de Tiago!

Enfim (???) chegar a Santiago de Compostela, ficar extasiado diante da Catedral, largado na energética Praça do Obradoiro por duas "anchas" horas, sentindo-se uma milionária, proprietária de um pedaço da história del Camino, protegida por Tiago Apóstolo, filha de Deus Pai...Entrar na catedral , ajoelhar-se diante de Tiago e seu lindo altar e realizar que todos aqueles pedidos, programados e ensaiados para este tão esperado momento, transformaram-se em apenas duas palavras: - MUITO OBRIGADA!

E rezar, rezar e rezar... manifestar toda gratidão pela FÉ que borbulha, como nunca, em minhas mãos, por ter o melhor marido, companheiro de tantas peregrinações, verdadeiro orgulho, a Winner! Por meu Gabriel e minha Camila, que recém começaram seus lindos caminhos, por minha família, amigos, por todos os peregrinos (seres especiais, "pero muy raros") e por um mundo infinitamente melhor!

Sou peregrina há muitos anos. Desde criança, por viver na casa de minhas amigas, minha irmã cantava uma música para mim que falava de peregrino ("A pobre peregrina anda de porta em porta, pedindo uma esmola, pelo amor de Deus..."). A minha adolescência foi marcada por inúmeras viagens com um forte sabor de aventura (canyons, cavernas, escaladas, praias desertas e muito mais)! Aos 21 anos fui morar sozinha em plena Big Apple (cidade do mundo, cidade eclética...) e desfrutei cada momento, cada lugar...Viajei por quase todos os Parques Nacionais brasileiros, americanos e alguns canadenses. Sempre com um invejável espírito desbravador! Com o tempo esta chama foi se apagando, vieram os filhos e, consequentemente, uma vida focada em conceitos precocemente envelhecidos, inaugurando uma nova fase de supervalorização da matéria e do conforto em detrimento dos valores da alma!

Peregrinei com meu marido pelo Caminho de Santiago de Compostela em fins de abril e maio de 2001, resgatando, não apenas o estilo perdido ao longo do tempo, mas, principalmente, nossa Fé e "algo maior". Fizemos o Caminho Francês, saindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, em bicicleta, e chegando a Fisterra. Foram 1050 Km pedalados com muito amor. Um Caminho de muita luz!

Trilhar o Caminho de Santiago é fácil quando se tem determinação e uma meta clara a ser cumprida. Basta ter vontade! As barreiras ficam e você segue, muito mais feliz, rumo aos braços do apóstolo...

Saímos determinados a pernoitar em Hostais ao longo do Caminho, preservar nossa individualidade de casal. Mudamos, radicalmente, de opinião frente à acolhida do meio peregrino e nos rendemos ao calor humano dos refúgios !

A princípio, nos assustamos com o intenso frio, atípico para uma primavera. Pedalamos com neve, muita chuva, temporais freqüentes de granizo, muito vento, frio e pouca roupa para tal adversidade climática!

Fomos, gradativamente, avançando no Caminho, pedalando com mais técnica, com um bom humor incrível, sem horários radicais ( saíamos muito tarde dos albergues e pedalávamos até o frio nos expulsar para dentro do próximo albergue. Nos raros dias de sol, pedalávamos até o último raio! Todos os dias, sem exceções, entravamos nos "quartos" já com as luzes apagadas e os roncos ligados. Esta foi uma característica muito marcante no nosso Caminho e, pelo que pude observar, da maioria dos ciclistas). Além disso, fomos uma espécie de peregrinos hitech! Acreditem ou não, carregamos nas costas um notebook para podermos caprichar nas fotos, uma grande paixão!

Em Burgos, conhecemos dois ciclistas de Barcelona (Los Antônios del Camino -donos de uma interessante história e relação com el Camino) que, mais tarde, tornaram-se parte do nosso Caminho. Pedalamos, então, muito tempo e quilômetros juntos, com grande afinidade e harmonia!

Nossa chegada à Santiago de Compostela de nossos sonhos foi triunfal e inesquecível, como tudo ao longo do precioso Camino.

Confesso que o mais difícil da peregrinação é a volta à vida, ou melhor, ao Caminho Real. É uma difícil readaptação, desde o simples se vestir até saber ser Eternamente Peregrino!

Utreya!!!

 

Vejam também: Patrícia e Ênio - Álbum Peregrino 1
  Patrícia e Ênio - Álbum Peregrino 2
Patrícia e Ênio - Videos Peregrinos

 
Enviado por Patrícia Garcez Garbin
 
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