Relatos Peregrinos

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Norberto
Acredito que uma das frases que mais ficou marcado da minha análise pós Santiago de Compostela é "a peregrinação implica frustração".
Não me levem a mal, não me considerem um mal agracecido por ter tido a oportunidade e a coragem de fazer algo único neste mundo e não dar o valor necessário. Só que nem tudo acontece como deveria, e, para manter o padrão do discurso que se vê em todos os artigos das pessoas que foram a Santiago, acredito que estas decepções são maneiras que o Santo tem para moldar nossa interpretação / percepção do mundo em que vivemos, e nos preparar para as próximas etapas da nossas vidas.
Fui no início do outono europeu para passar 20 dias em cima de uma montain bike. Passei frio todos os dias, por ter acreditado que as temperaturas estariam mais altas. Peguei muito vento e um pouco de chuva, sem contar que na minha análise de leigo digo que 60% do caminho é composto por subidas.
Amenas, "saradas", esburacadas, intermináveis, mas quase sempre subidas. Fui só. Eu, Deus e o caminho. Vários figurantes entrando e saindo do meu caminho. Conheci várias pessoas, vários ciclistas, vários peregrinos a pé, vários peregrinos que estavam utilizando suportes motorizados para poder dizer que haviam feito o Caminho de Santiago. A viagem inteira é muito simbólica, e estrapolando um pouco, se torna interminável. As vezes estes figurantes se distanciaram de mim. As vezes quiz me distanciar deles. Todo peregrino passa por isso e quase sempre pelas mesmas razões. Se você chegou até este texto, você provavelmente já leu a respeito disto.
Destinado a gastar pouco dinheiro, obstinado a praticar o desapego. Em nenhum momento pensei em abandoná-lo (como a Vanessa desta página - pequeno aparte, este relato, saindo dos lábios dela, em Rabanal del Caminho, apresentasse 1.000 vezes mais catastrófico e desesperador), porém fiquei desgostoso com vários detalhes que acabavam por aborrecer nossos dias.
Alcancei minha meta. Fiz o caminho em 13 dias, gastei US$ 350 (sem ter feito economias) e pratiquei o desapego. Não comprei nada além de comida neste período (nem um postal), com um gosto de faltou algo, faltou mais uma busca espiritual que todos os "pedestres" diziam estar vivendo e eu "ciclista" estava precisando. Aí um grande peregrino filosofou: "O caminho demanda mais fisicamente dos ciclistas, enquanto mais emocionalmente dos que o fazem a pé". Por alguma razão isto me confortou imensamente.
Digo que a viagem se torna interminável por que podemos ler que "não existe um inicio do caminho. O caminho começa no momento que saímos de casa rumo a catedral e termina quando retornamos a casa". Só que nosso lar consiste de onde vive nosso coração. Meu coração já buscou várias coisas em vários lugares, e apesar de ter encontrado milhares de coisas preciosas nos lugares e nas situações mais inusitadas, ele continua, dia a dia, a buscar conhecimento, na forma que ele me seja apresentado. Então ainda busco por sinais, por interpretações de diversos momentos em minha vida, para continuar crescendo dentro deste caminho que eu escolhi traçar desde muito jovem, e que durante um período passou pelas terras do norte da Espanha.

 
Enviado por Norberto
 
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