Relatos Peregrinos

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Nessa
NessaHá três anos atrás, minha tia-avó me convidou para fazer uma viagem, com ela, até a Espanha. Eu, como tinha minhas idéias fashion da vida, dei pulos de alegria com o convite. Mas quando ela me disse que o buraco era mais embaixo e que na verdade o thriller do filme era de setecentos e coquinhos quilometros by feet... Não rola, tia.
Só que eu já estava no Caminho e não sabia. Tiago, como bom santo que é, sempre me colocava diante de suas setas amarelas e quando eu dei por mim, lá estava eu buscando informações sobre este caminho.
Foram três anos me preparando para fazer esta viagem que, para mim, já era a mais importante da minha vida.
Dia 1 de setembro de 1999. Que frio na espinha! Eram os primeiros passos que eu estava dando em direção ao meu sonho.
Gente, vocês não imaginam a emoção que eu sentia!
Cada um tem um motivo que o leva a fazer essa misteriosa trilha pela Espanha. E eles são de acordo com o ponto-de-vista e crença de cada um e, agora eu sei, são tão louváveis quanto o meu. Chegar a esta conclusão não foi nada fácil.
A idéia que eu tinha do Caminho se distanciava a cada contato com os outros peregrinos. Eram tantos os loucos que, como eu, estavam dispostos a chegar até a Catedral do apóstolo à pé; mas, diferentes de mim, não se comportavam como um verdadeiro peregrino deveria. Eu acreditava nisso.
Os quilometros foram passando e a confusão só aumentava na minha cabeça. Era péssimo chegar por último nos albergues e ter que cruzar com a galera repetindo a mesma ladainha: - Corre porque senão você não encontra cama!
Essa maldita frase já estava me dando nos nervos e eu tinha que entrar na onda do povo ou tava perdida. Mas eu não concordava com aquela situação. A Dani, em uma das suas inúmeras frases sábias, traduziu o que estava se passando. As pesoas não estão caminhando, dizia ela, estão é competindo. Era uma maratona e estava enlouquecendo.
Resolvi chutar o balde e fazer meu próprio tempo. Eu, Dani e mais três amigos do caminho tivemos uma tarde maravilhosa em Logroño e depois de 5 horas de pura alegria e vagabundagem no parque da cidade, seguimos até Navarrete.
Ao chegar, a mesma ladainha de sempre. Desta vez tivemos que dormir no teatro da cidade e foi lá que eu tive minha briga com o Caminho. Eu via as pessoas preparando as coisas antes de dormir, programando horário de descanso, uns já roncando a nona sinfonia, outros soltando gases, música dance, cachorro latindo,......
Que loucura! Foi a gota d'água. Levantei aos prantos e a Dani foi saber o que se passava comigo.
- Eu odeio esse Caminho! É tudo uma grande palhaçada! Somos um bando de irresponsáveis e lunáticos que juram que há alguma magia nesta baboseira de peregrinação. Eu não aguento mais dormir com esse povo porco que fica soltando pum e roncando o tempo todo. E essa coisa de ser peregrino, quem foi que inventou essa palhaçada! Você, Dani, é outra psicopáta de acreditar nesta loucura. E o povo da lista, um bando de lunático que acredita que o mundo pode ser melhor! Que dó dessa gente, quando eles acordarem...
E foi assim que terminei o meu caminho. Navarrete foi o fim do sonho para mim. Eu estava revoltadíssima e decidida a voltar para o Brasil no outro dia. A Dani tentou me acalmar, mas ela viu que eu estava categórica: ACABOU!
No outro dia, mal falavamos. Ela ia seguir até Azofra e eu me despedi dela em Najera.
Peguei a carretra N-120 disposta a tomar um táxi e dar uma banana para aquele sonho de tele-tubies.
Não sei bem o que me fez seguir 40 km até Santo Domingo de la Calzada. Talvez as intermináveis buzinas dos caminhoneiros me incentivando, talvez as músicas, o Red Bull, não sei. Mas foi chegando em Santo Domingo, no albergue das freirinhas, onde uma fada, que me aguardava, me encheu de beijos, abraços( eu tava numa catinga!) e carregando a minha mochila até o meu quarto me disse: Essa cama é sua. Só tem ela e eu estava te esperando. Agora vai duchar que a missa começa às 8:00.
Lá eu comecei o caminho. Estava "de volta pro meu aconchego" e ninguém mais me incomodava dali por diante. Eu fiz as pazes com o caminho e com os peregrinos.

 
Enviado por Nessa
 
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