Relatos Peregrinos

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Naide Nóbrega
Naide Nóbrega
Encontro Internacional de Peregrinos de Maceió - 2002

Noite de sexta-feira, 26 de abril. Eu e a minha amiga Fatinha saíamos do Recife rumo à Maceió, capital alagoana.
Não sei se dormimos e assim sonhamos, ou se fomos entorpecidas pela felicidade que já nos contagiava ao principio da viagem, mas a verdade é que acabamos em terras ibéricas.

Ibéricas? Isso mesmo! Alagoas confundia-se com Roncesvalles ou, ainda, com Sean Jean Pied Port, cidades consideradas portões de entrada para o Caminho de Santiago de Compostela.

Na rodoviária, um querido peregrino logo apareceu com um largo sorriso no rosto e nos levou, ao som de musicas celtas (tinha que ser!) até o balneário de Ipioca, a 25 quilômetros de Maceió (ou seria de Sean Jean?).

Enfim, deixemos a confusão geográfica de lado e vamos ao Caminho (Ops!) ao Encontro Internacional de Peregrinos propriamente dito, que aconteceu de 27 de abril a 01 de maio.

Chegando ao balneário, fomos direcionadas ao nosso albergue, carinhosamente denominado de Pamplona, pois cada casinha (que abrigava entre dois e dez peregrinos) estava marcada com uma vieira na fachada, devidamente batizada com o nome de umas das muitas cidades espanholas pelas quais passa o Caminho de Santiago. E, como nos indicaram os amigos, deveríamos as duas ficar em Pamplona! Não é possível... lá estava eu, outra vez, de volta ao meu caminho. No ano 2000, Pamplona foi a primeira cidade que me acolheu, antes mesmo de eu ir para Sean Jean.

Acordar no sábado, naquele clube, foi algo de especial. Dar bom dia pela janela, ver nos olhos das pessoas um brilho bem conhecido, sentir aquela vontade de chegar mais perto, de compartilhar... Ave, Maria! Eu estava de volta! Até tento evitar comparações, mas simplesmente não dá! Então peço a sua licença, porque eu vou continuar o meu textinho bem relaxada, comparando e comentando o que foram aqueles dias, nos quais eu sinto, realmente, que voltei ao Caminho de Santiago de Compostela.

Logo no primeiro dia: palestras sobre o Caminho, troca de experiências, vivências, novas rotas (como a maravilhosa palestra sobre o caminho português, by Celina Fioravanti) e, claro, a terapeuta Anna Sharp, para dar um nó nas cabecinhas dos peregrinos e sacudir a poeira velha na cabeça da gente, como um espanador desvairado, indomável. Dá-lhe, Anna Sharp!

Raiva, medo, culpa, rejeição! Onde moram todos eles? Verdadeiros bebês que se perguntam: quem sou? De onde venho? Para onde vou? Resistências, algumas tímidas lágrimas perdidas (iniciáticas, como diria Marcos Braga), identificação!

A primeira tarde foi fechada com aquele sorriso de quem já achou tudo maravilhoso, mesmo sem saber que "o tudo" ainda viria pela frente... Noite de forró e confraternização. Albergue cheio, misturado, eclético, colorido.

Oi, hola, hi, sa va! Uma misturada de idiomas dava as boas vindas à galera e a noite caía sem que fosse preciso apagar as luzes às dez horas. Isso porque o forró prolongou-se até a meia noite. Aliás, como tinha de ser, pois sabe-se que a esse horário o carro da Cinderela vira abóbora e de abobrinhas (como ficou conhecida a turma da coordenação, pela cor da sua camisa) o clube já estava muito bem representado!

Saímos para a Fazenda São Pedro, no município de Pilar, na manhã do domingo. Fomos recebidos por Francisco (ou seria Antonio? Upssss!) que, junto a sua linda família, nos apresentou a um pedaço de paraíso, a sua fazenda mergulhada num trecho de mata atlântica nativa, preservada por algo que vai além do senso ecológico ou ambiental... preservada com amor, muito amor! A caminhada reoxigenou os nossos pulmões urbanos e nos levou de volta às florestas, ao barro, às botas sujas, ao banho de riacho.

Digamos que nos tenha levado a um tramo do Caminho de Santiago, acrescido de uma mata bem brasileira, sucos de frutas bem brasileiras (ai, aquele suco de pitanga!) e um calor humano brasileiríssimo, esquentando os corações andarilhos franceses, alemãs, argentinos e, claro, tupiniquins!

Pulando o fantástico almoço na fazenda, preparado com produtos cultivados ali mesmo, sem agrotóxicos e outros venenos a que estamos acostumados, o domingo foi fechado com chave de ouro: descanso aos que precisavam e muito forró aos que toparam uma noite quente num barzinho de Maceió.

Sabe-se lá quanto se dançou aquela noite, mas o fato é que tem peregrino sentindo as cadeiras baqueadas até agora. Como ali não estive, pois entreguei-me aos braços de Morfeu, os peregrinos bailarinos livraram-se da boa fofoca que certamente eu faria agora, com conhecimento de causa. Mas essa fica para a próxima!

A parte diurna da segunda-feira foi marcada pela interação e troca de informações entre representantes dos vários estados brasileiros e países presentes, que falaram um pouco da divulgação do Caminho onde moram. À tarde, venda de livros. Uma verdadeira tentação! Um melhor que o outro! E o bolso choraaaaaaando...

Meditação ao cair do sol, massagem no espírito, carinho na alma.

À noite, o carinho para o corpo. Lá vem o profano, vestido de abobrinha e de alma peregrina! Luau! E, como sempre, os abobrinhas botaram para ferver! Comida e bebidas maravilhosas, música maravilhosa, cenário de filme havaiano, sorteios, danças... 10! Sempre 10! O luau era de São Tiago, mas São Pedro, mui convidado, se fez presente, abençoando a todos com uma linda noite estrelada, ainda mais iluminada pelas tochas espalhadas, velinhas sob a tenda armada, enfim, tudo preparado com um carinho ímpar. Cada detalhe, cada toque, pura harmonia.

Na terça-feira, passeio de saveiro pelas lagoas de Maceió. Ah, lagoasssss.... lindas, lindas, lindas! O pagode era tão quente que nem deixou a chuvinha fina, teimosa, esfriar aquele povo. Que cantava animado, sorria, trocava endereços, conhecia mais uma bela parte desse imenso Brasil, "...que não tem medo de fumaça, ai, ai.... e não se entrega não!".

Mas, infelizmente, como diria aquela antiga canção de carnaval, a danada da quarta-feira ingrata, último dia do Encontro, chegou tão depressa, só para contrariar!

Naquela manhã, o salão de reuniões ficou impregnado de uma atmosfera superior. TODOS numa só energia, na mesma emoção, num só sentimento. Como definir aquela manhã com palavras? Sinceramente, e agora pedindo perdão pelo texto brincalhão e pelo formato informal, eu não consigo definir com palavras o que representou, em minha vida, aquela manhã de quarta-feira.

O que senti em meu peito tomou conta de todo o meu corpo. A cada momento, quando cada peregrino fazia a sua avaliação pessoal do Encontro, botando para fora a emoção de ter compartilhado daquela experiência maravilhosa, o meu coração pulsava mais forte, gritava, tentava saltar da caixa do peito como se dissesse: Naide, chegamos à Catedral mais uma vez!

Chorei. Choramos todos. Emocionados, alegres, plenos, sinceros, puros, infantis, maduros...

Choramos GRATOS. A Deus, a Tiago, aos nossos pais. Choramos gratos à rejeição da vida, que nos fez estar ali e viver tudo o que vivemos.

Choramos gratos aos abobrinhas, que pensaram em cada momento e que suaram para que essas lágrimas pudessem existir.

Como se não bastasse tanta emoção, seguimos para um churrasco de primeira categoria, para gauchada nenhuma botar defeito, seguido de um frevo rasgado, que tomou conta das ruas antigas de Marechal Deodoro, (para pernambucano nenhum botar defeito) e ainda boi bumbá, reizado, bandeiras dos países ali representados. Olhos marejados, homenagens mil! Esse povo alagoano é mesmo impossível!

Benção na Catedral de Marechal Deodoro. Todos reunidos, irmanados, peregrinos da vida real, seguindo rumo aos seus próprios caminhos!

Obrigada a todos vocês, de Maceió. Por terem proporcionado a mim e, seguramente, aos nossos amigos, uma das melhores semanas de nossas vidas. Alguns dos melhores abraços.

Obrigada Vera Lúcia, por ter me levado de volta à Catedral, em seus braços.

COMO ESQUECER?
A alegria do gaúcho Fernando;
Os sorrisos de Chanteille e Hubert;
As vieiras, nas fachadas dos nossos albergues;
O brasileirismo da argentina Andréa;
A oração pelos peregrinos que, fisicamente, ali não estavam;
O mar maravilhoso de Ipioca;
O abraço de Nathalie;
Os animados traslados de ônibus;
A florzinha que nos deixaram na cama;
O café expresso, sempre a postos;
A Ave Maria cantada por Alain;
Os quadros de Celina;
A lição de vida de Ana, do Recife;
As batidas de frutas do abobrinha Marcelo;
O forró cosmopolita, no salão de eventos;
A sangria feita por Sarah;
O bolinho de milho de Renilde;
Os encontros e as despedidas;
O amor-abóbora dos nossos hospitaleiros;
As saudades...
A iniciativa de Vera Lucia, que fez surgir o sonho, para essa realidade!

Enviado por Naide Nóbrega
 
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