Relatos Peregrinos

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Luiz Fernando Leone Vianna

Peregrino soy, a Santiago voy

Agosto de 2005, deixamos Puente la Reina no terceiro dia de pedalada. O pueblo é realmente lindo, a famosa ponte com seus arcos que, refletida na água, recria o símbolo do infinito, da harmonia, da afirmação e da negação, é sua marca registrada.

Em casa, tenho uma linda e fiel pintura a óleo da ponte, obra da minha amiga peregrina Telma, de São Paulo. Essa é uma das formas de ter "el Camino" no meu dia-a-dia, pois a pintura me remete diariamente à província Navarra, no início do Caminho de Santiago. Outra forma de ter o CS por perto na minha casa é um pequeno altar, com incenso, vela, duas imagens de Santiago, o peregrino São Francisco, a madre Paulina (Catarina), a Cruz de Santiago, Nossa Senhora Aparecida, um terço, orações etc. A vela de 7 dias está sempre acesa e o incenso arde constantemente quando estou em casa, deixando no ar um suave odor que me remete à Catedral de Santiago, com sua missa do peregrino e o botafumero. Aliás, para completar o quadro, trouxe de Santiago uma pequena réplica do botafumero, que veio a se somar com os demais símbolos do altar.

Depois de pedalar cerca de 14 km, num pequeno pueblo chamado Lorca nos deparamos com o Bar do Julio, que segundo as orientações da Jô, peregrina de fé e grande amiga, era o local mais adequado para abandonarmos a carretera N-111 e pegarmos a trilha. Não sei o que ocorreu, mas acabei me perdendo dos meus sensacionais companheiros do Caminho, o casal Alex e Vivi. A Jô tinha me escrito "fique atento aos sinais, coincidências não existem".

Essa questão de "se perder" dos companheiros é interessante. Assim como na primeira vez que fiz o CS, com uma galera fantástica (Lizo, Eliseu, Niso e Renato, mas isso é outra história), embora pedalando com outras pessoas, fiz o meu caminho normalmente pedalando sozinho, com o conforto de ter por perto pessoas amigas. Tínhamos um ponto de encontro que era o albergue do pueblo de destino naquele dia. Isso me permitiu viver sensações fantásticas, como a descrita a seguir.

A chegada em Estella foi marcante. Entrei pela trilha, desci escadas carregando a bike, passei dificuldades, mas cheguei. Estella, onde em maio de 2000 encontrei a Dra. Julia, peregrina de São Paulo, onde jantei com Walter Jorge, lenda viva do Caminho, onde o hospitaleiro bigodudo do albergue aprontava das suas, e onde em 2000 o Eliseu surtou pela primeira vez passando a noite andando como um zumbi pelas calles da cidade.

Achei um taller de bike e a deixei por lá para centrar a roda traseira e instalar uma bolsa de guidão. Enquanto o serviço era feito, fui a pé até Praça Mayor, para tomar uma coca e comer um bocadillo. Não demorei, porém tive tempo de contemplar a praça e mais uma vez rememorar nossa passagem por Estella, pois Lizo, Niso, Eliseu, Dra. Julia e eu, após o jantar, fomos à praça e ficamos por algum tempo contemplando sua beleza e, como sempre, filosofando sobre a vida e sobre o CS. Após o pequeno lanche, eu estava zerado, pronto para ir ao taller buscar a bike e prosseguir.

Sempre pela trilha, a cerca de 4 km de Estella cheguei em Irache, sob um sol forte, tanto que encontrei um peregrino alemão que tinha uma sombrinha acoplada à mochila. Em Irache, fui até a famosa Fonte de Vinho, oferta de uma vinícola aos peregrinos que por ali passam, para tomar um trago e me fortalecer. Ali está escrito "Se quieres llegar a Santiago / con fuerza y vitalidad / de este gran vino echa un trago / y brinda por la Felicidad". Logo depois o alemão bem equipado chegou, tirou um banquinho desmontável da mochila (pode???) e ficou por ali. Carimbei a credencial num museu próximo à fonte e pus a bike na trilha, sem imaginar o que ainda estava por vir.

Pedalando tranqüilamente pelo Caminho, me sentia bem, considerava-me sozinho, dono do mundo, no norte da Espanha, após ter percorrido cerca de 115 km desde o início da jornada em Saint Jean de Pied Port, na França, subido os Pirineus, de ter assistido à famosa e emocionante missa com a benção dos peregrinos — em diversos idiomas, inclusive português — em Roncesvalles (já na Espanha), de ter literalmente atravessado a grande Pamplona, de ter subido (por duas vezes, pois errei o caminho) o monte del Perdon, e de ter passado por Puente da la Reina e Estella, conforme já relatado, aproximava-me agora de Azqueta, pueblo onde reside Pablilto, célebre personagem do CS que presenteia os peregrinos que por ali passam.

O tempo estava maravilhoso, quente, o visual estava incrível, tinha subido bastante e ao largo podia avistar um grande vale, com uma cordilheira de montanhas ao fundo. A trilha era incrível, somente um caminho de terra com grama nas laterais, realmente bem aberto. Naquele momento, senti que não estava sozinho, que não era o dono do mundo, mas me sentia totalmente integrado a ele. Não resisti, parei a bicicleta e fiquei curtindo aquele momento, na verdade não entendia exatamente o que estava acontecendo, sabia que era uma sensação muito boa, a montanha na qual pedalava estava próxima às poucas nuvens brancas de algodão. Foi aí que, num gesto involuntário, levantei as mãos e senti que poderia tocar as nuvens e o céu com as pontas dos dedos. Minha vontade era de ficar por ali, lembrei da passagem bíblica da transfiguração: Jesus se encontrava em um monte alto, num lugar apartado (coincidências? coisas do el Camino?) com os apóstolos Pedro, Tiago e João, e transfigurou-se diante deles, suas vestes se tornaram resplandecentes e extremamente brancas, como a neve. Apareceram também os profetas Elias e Moisés, que conversavam com Jesus. Pedro, extasiado e afoito, disse a Jesus: "Mestre, que bom que estamos aqui, façamos três tendas, para ti, Moises e Elias". Evidentemente Pedro estava com o franco intuito de perpetuar aquela situação. Nesse momento, ouviu-se uma voz de uma nuvem que disse "Esse é o meu filho diletíssimo. Ouvi-o!" Logo após, os apóstolos olharam ao redor e ninguém mais, além de Jesus, com as suas vestes habituais, estava com eles naquele local. Era hora de partir.

Hora de partir, afinal, logo adiante estava Azqueta e restavam pouco mais de 30 km para chegar no destino final daquele dia, devendo, para tal, passar em Los Arcos, Sansol, Torres Del Rio, Viana — onde subi suas ladeiras para conhecer um pouco mais do pueblo que leva o sobrenome da minha família — e finalmente Logroño, ansioso para encontrar-me com Alex e Vivi no Colégio das Monjas. Este, um albergue alternativo ao público — muito bom e com quarto individual — e poder contar-lhes minha fantástica experiência, de poder tocar o céu com as pontas dos dedos, num jantar regado a um bom vinho Rioja.

Ainda restavam 700 km, muito ainda estava por acontecer, mas como sempre acontece no Caminho de Santiago, existe um "momento mágico". Desta vez, o meu foi poder tocar o céu com as pontas dos dedos, nas proximidades de Azqueta.

Luiz Fernando Leone Vianna (Peregrino biker)
outubro de 2006
 

Enviado por Luiz Fernando Leone Vianna
 
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