Relatos Peregrinos

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Lobo

Concussus Surgo

Concussus Surgo, afrontar a demanda, confrontar a sua alma e querer com passos dados, seguros, aleatórios, indefíniveis, rumar somente em direcção à vontade.

Assim tem sido, assim me encontrei, em situações inesperadas, sonhos de estranha consistência, coincidências inusitadas, viagens para além de milhas, portas entreabertas diante dos mil picos secretos do Thabor.

Posso soletrar agora à minha demanda: existe o mundo para além deste, coexistindo com ele, no mesmo espaço físico, no mesmo espaço temporal, mas em espaços de alma distintos. Descobri a nação dos perdidos, percorri essa faixa de terra em forma de pátria de danados e nela residi, laborando, tornando-me cidadão do Bem Querer.

Páginas como o diário da jornada, como a rota do sensível e a confirmação de que o novo tempo avança, inexorável, um ponteiro é lança o outro, bordão.

Caminhando para a génese, criando a multidão de crentes, como um colono do sol que, agora, sabe como a temperatura é decreto que a alma revoga.

Descubro que sou o Caminho, a totalidade da Rota, envolta em cheiros de milagres. Eu próprio sou um milagre, descoberto, renascido.

Eu próprio sou a distância.


Saint Jean de Pied de Port – Roncesvalles
In Te Omnis Dominat Recumbit

Grita bem alto cor à entrada no mundo,
nos montes, no solo, nos cordeiros dilacerados.

Grita bem alto cor, distorce o teu corpo,

crisálida em fúria, desperta lenta e em silêncio

camuflada pela bruma.

Descendo, elevas-te à rota dos verdes vivos, da pedra.

Grita bem alto cor aos milhares de ninguém que passam,

aos enganos deste tangível éden.

Que o som sob a árvore já és tu.

O corpo em ventre pulsa,

homilia dos sentidos nesta gestação

de renomeadas criaturas da floresta,

onde irrompe o chanceler sol,

cedendo-me o escalar da montanha.

Renego o asfalto, o torpor,

sou o odor dos cães açaimados,

sou o que tropeça nas pedras

e nelas deposita o cenário da dispersão.

A lama a que sucumbo

é o trono em que decreto

esta faixa de terra como reino,

como porto franco do ideário humano.

Como se dilatam os olhos!

Vede como a boca forma a perfeita palavra,

a que contém todos os vocábulos de todos os deuses…

Os lábios refrescam-se

com o coração da terra,

revolvido, emergindo,

trazendo consigo o baptismo.

Trago a voz hospitaleira

devoro o caminho que ruge,

devoto da multidão que ressurge…

O pó que se levanta do leito

o vulto que se banha nas minhas águas

o domínio da fábula e a confessora águia,

sou eu mais o mundo,

enleados num sono profundo.

Lá fora? Chovem deuses…

Como se murmurassem os prados

e os carvalhos ungidos pelo agreste,

como se escutassem o meu destino.

Homens e deuses,

cavalgando um só ser,

com as brancas vestes como estandarte

dilaceramos as luas

para delas fazermos a festa do mundo.

E, desde então, imaculados constantes,

escutando a excepção,

nunca permitiremos a nomeação

como pastores ou pais de almas congregados.

Já! A jornada da independência…

Libertárias as achas da fogueira

que exultam o acasalamento

entre os comuns perfeitos em honra do Artesão.

Enuncia apenas a flores

residindo na floresta harmónica,

calúnia histórica.

Eu canto o recheio das viagens

envolto em fartas contagens

incessante fumego em estranha convulsão,

em esquinas ocultas, vedadas ao vislumbre

sou agora um agora lago de jade.

Com frases me disperso

contando o pó aos rostos,

insinuando-lhes a moldagem,

o resto de mundo

um mero fantástico decomposto e rugoso.


 
Enviado por Lobo
 
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