Relatos Peregrinos

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Luiz Fernando Vianna
DESTINO: SANTIAGO DE COMPOSTELA

Há cerca de quatro anos, quando li O diário de um mago, de Paulo Coelho, nem imaginava que estava prestes a iniciar uma aventura que seria realizada a milhares de quilômetros de Curitiba, e que, na verdade, teria pouquíssimo relacionamento com o livro. Confesso que no início me empolguei com o Caminho de Santiago de Compostela, que cruza a Espanha ao norte, devido à magia do livro, com seus demônios, espadas, embates com cães possuídos etc.

Ao me aprofundar no tema, com a leitura de literaturas a respeito, pesquisas na Internet e contatos com pessoas que já o haviam percorrido (os chamados peregrinos), descobri outro caminho que, posteriormente, constatei muito próximo ao que realmente percorri. Na verdade, para mim, Santiago de Compostela foi um mix de desafio físico, mergulho cultural, misticismo e espiritualismo.

Costuma-se dizer que o Caminho de Santiago se inicia quando se opta por ele, ou quando se recebe o "chamamento", o que é pura verdade, pois, já no início do planejamento da viagem, tinha plena convicção de que era algo irreversível.

A primeira decisão a ser tomada girava em torno do meio de transporte. Na verdade, para obter a Compostelana*, há três opções: a pé, de bicicleta ou a cavalo. Não tive dúvidas e escolhi a bicicleta, pois há muitos anos este é o meu esporte, tendo se convertido numa paixão, consubstanciada em várias aventuras locais, com incursões a Morretes, Antonina, Paranaguá e Marujá (via-Superagüi).

O planejamento foi importante, envolvendo:
  • o que levar? - ao mesmo tempo em que, por um lado, havia preocupação quanto às necessidades de roupa, ferramentas, peças de reservas etc., por outro havia o fantasma do peso;
  • como levar? - tive que optar entre alforje ou mochila, sendo que a escolha, que se confirmou posteriormente mais adequada, recaiu no alforje;
  • como transportar a bicicleta? - a opção foi na própria caixa da bike (de papelão);
  • melhor época para viagem - escolhemos maio/2000;
  • poupança para viagem ($$$).
Além do planejamento, houve também necessidade de aprimorar o preparo físico, o que envolveu madrugadas pedalando pelas ruas e parques de Curitiba, além de descidas ao litoral paranaense.

No desenrolar desse longo preparo, meus grandes amigos de vida e de bike, Lizo e Eliseu, incorporaram-se ao projeto. Juntos, conhecemos a Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago, onde obtivemos a Credencial do Peregrino** e, enfim, estávamos prontos para iniciar a aventura, em 01.05.2000, a partir de Saint Jean Pied Port, na França (divisa com Espanha).

E exatamente na manhã de 01.05.2000 estávamos lá, Liso, Eliseu e eu, Renato (um carioca que encontramos em Saint Jean) e Niso (um garoto de São Paulo, de 14 anos, que procurou um adulto pela Internet para ser seu responsável na viagem - o destino fez com que esse adulto fosse eu).

Essa primeira etapa, de Saint Jean (França) a Roncesvalles (Espanha) foi dificílima, pois compreendia aproximadamente 31 quilômetros de subida íngreme nos Pirineus. Estávamos pedalando duro, exaustos, com o corpo dolorido e, acima de tudo, felizes.

Assim, percorremos, dia após dia, exatos 817 quilômetros, com sol, chuva, subidas terríveis, descidas alucinantes, até chegar, 15 dias depois, a Monte de Gozo, distante apenas seis quilômetros de Santiago de Compostela (na seqüência explico por que não fomos a Santiago, visto que faltava tão pouco!).

Ao longo do caminho tivemos a oportunidade de encontrar peregrinos do mundo inteiro, místicos, malucos, pessoas ligadas a pajelanças, bruxas, religiosos (encontramos duas freiras alemãs de hábito, percorrendo o caminho de bicicleta) e pessoas normais como nós (há, há, há!)... Todos conviviam no caminho, nos bares e restaurantes e nos refúgios para peregrinos (alojamentos, em sua maioria gratuitos, exclusivos para quem está percorrendo o caminho a pé, de bicicleta ou a cavalo). Foram dias de aprendizado, introspecção, espiritualidade e "desestress" mental. É incrível como o stress físico facilita essas coisas.

O aprendizado a que me referi compreendeu humildade, desapego, tolerância, vida em grupo, vida solitária, enfim, uma rotina bastante diferente à do dia-a-dia aqui no Brasil.

Enfim, as placas indicavam a proximidade de Santiago. Uma sensação incômoda de "não quero chegar" e "não quero sair do caminho" começava a tomar conta de todos. Justamente por causa desta sensação é que, após uma difícil etapa, quando bastava descer seis quilômetros para chegarmos à cidade, decidimos ficar em Monte de Gozo, de onde podíamos vislumbrar as torres da Catedral de Santiago.

O caminho é muito pessoal e os sentimentos de cada peregrino em relação a ele variam em alguns aspectos. Para mim os pontos altos foram:
  1. Roncesvalles: Onde, exaustos, ficamos em um refúgio mantido pela Igreja, sendo brindados com uma maravilhosa missa cantada em latim (há quantos anos não entrava numa igreja!), seguida de uma benção especial aos peregrinos.
  2. A Cruz de Ferro: Onde, ao longo de centenas de anos, peregrinos depositam pequenas pedras (no meu caso, trouxe-as da ilha do Mel).
  3. O Cebreiro: A maravilhosa vista do caminho em um local com forte espiritualidade, com uma igreja que estranhamente era, ao mesmo tempo, fria e aconchegante, com uma história de milagre lindíssima. Ao entrarmos nessa igreja fomos surpreendidos por um ambiente de fortíssima energia, reforçada pelo som de um coral de música gregoriana. Confesso que não tinha vontade de sair dali, sentei-me em um dos seus bancos e fiquei contemplativo, inebriado pelo ambiente e pela música. Para completar o quadro, uma moça gentilmente mostrou-nos a igreja, contou-nos sobre o milagre ali ocorrido (a transformação do pão e vinho em carne e sangue, durante a celebração de uma missa). Por fim ela carimbou nossas credenciais de peregrinos, negando-se terminantemente a receber donativos para a igreja.
  4. Santiago de Compostela: Não me refiro a cidade, que embora bela, não se diferencia de outras que encontramos pelo Caminho, mas sim a sua catedral, na qual é realizada a missa de chegada dos peregrinos. O destaque está na rara beleza interna e externa desse santuário e, principalmente, na energia lá existente.
Não sei se é coincidência ou se está relacionado ao efeito do stress físico, mas todos esses locais foram precedidos de etapas com elevado grau de dificuldade.

Ao longo dos 800 km fomos guiados por setas amarelas, pintadas no chão, em árvores, construções etc. Não havia como errar, nem havia necessidade de consultar o guia.

Agora, após o retorno, ainda procuro pelas setas amarelas, mas infelizmente em nosso dia-a-dia elas não existem (ao menos de forma tão explícita). Tenho muita vontade de novamente estar no caminho de Santiago, com sua estressante rotina (no aspecto físico, lógico!), seus refúgios com ruídos de ronco e outros flatulentos, além de malucos que cantavam enquanto dormiam. Lembro dos bares/restaurantes com o "menu do peregrino", onde comíamos bem, bastante e barato. Tenho vontade de passar pelos "pueblos", de rever os peregrinos do mundo inteiro, numa verdadeira torre de babel, de visitar igrejas e castelos construídos a partir do Século X, de pedalar nas carreteiras e nas trilhas enlameadas e de provar novamente do pão e vinho maravilhosos. Afinal, como diz o ditado popular ao longo do caminho: "com pan e vino se hace el camiño".

Tenho tanta saudade do caminho e vontade de estar em sua paz, que já dei início ao planejamento da próxima aventura, a qual, com certeza, será em um dos diversos caminhos que levam a Santiago de Compostela.

* Certificado emitido pela Igreja Católica para quem percorre o Caminho de Santiago de Compostela a pé (mínimo 100 quilômetros) ou de bicicleta/cavalo (mínimo 300 quilômetros);
** Credencial que permite a utilização dos refúgios de peregrinos, na qual apõem-se os carimbos dos locais por onde se passa, os quais validarão a obtenção da Compostelana.
 
Enviado por Luiz Fernando Vianna
 
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