Relatos Peregrinos

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Leda Silva

Anjos da Guarda - Um Pequeno Milagre

Jamais desesperes, mesmo perante as mais sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.
(Provérbio Chines)


RONCESVALLES - ZUBIRI - 21km


Levantamos muito cedo para iniciar a viagem. Saímos sem comer. O Hotel só começaria a servir às 8:00 horas e, antes disso, já estávamos na estrada, junto aliás, com vários peregrinos.


À saída, ao lado esquerdo da estrada, encontra-se uma cruz que dá as despedidas ao viajante. Alguns param ali para um oração e um pedido de ajuda para o esforço que a todos aguarda. Também paramos naquele ponto e fizemos uma breve oração.

-Bonjour! Bonjour!

Os peregrinos franceses passaram por nós sorridentes e logo se distanciaram, com passadas largas e ritmadas. Antes deles já havia também nos deixado p'ra trás um grupo que parecia de alemães, embora tivessem nos cumprimentado em espanhol.

- Todo mundo está nos ultrapassando, lamentou-se Geisa.

Realmente, os peregrinos, passavam por nós firmes e velozes. Senti-me também um pouquinho desconfortável, mas prudentemente continuamos a caminhar no nosso próprio ritmo. Em realidade essa foi nossa primeira lição. O caminho é estritamente pessoal. É o seu caminho! Quer do ponto de vista físico, quer espiritual.

É uma sensação indescritível se iniciar a peregrinação. Aspirei com força o ar frio da manhã e olhei em volta tentando guardar na memória os detalhes da paisagem, e a emoção da historia que cerca aquele local.


A chuva havia passado, nossa mochila estava no peso certo e bem colocada.

Caminhamos com alegria.
Logo na entrada para a floresta que circunda Roncesvalles, parado em um lado do caminho, um cão de porte médio , nos olhou atentamente. Passamos e sem dar atenção, más percebemos, logo depois, que ele estava nos seguindo.
Havia nos escolhido como companhia

A principio tentamos espanta-lo, mas não adiantou. O cãozinho "grudou" ao nosso lado.


-Deixa , disse Geisa. Deve ser um bom sinal.

Lembrei que havia lido sobre cães que acompanham os peregrinos durante algum tempo.
Senti um arrepio. Contam tantas histórias sobre o caminho!
Verdades ou exageros o certo é que mesmo para duas pessoas comuns, sem quaisquer pretensões esotéricas, estar pisando pela primeira vez a floresta de Roncesvalles, caminhando num local cercado de lendas, produz uma sensação difícil de descrever. Um misto de respeito e profundo sentimento de liberdade.

O interessante é que aquele cachorro parecia conhecer bem o trajecto.

Por desatenção e falta de prática cometemos um erro primário e perdemos a direção. O nosso amigo, tentou nos levar pela estrada certa! Infelizmente só percebemos depois. Não demos crédito ao nosso cicerone. Tivemos que retroceder e aprender a ficar mais atentas. Foi a nossa segunda lição daquele dia..


Pouco antes da entrada da primeira aldeia, Burguete, o cachorrinho sumiu. Não vimos para onde foi. Deve ter ido procurar outros caminhantes para indicar o caminho.

Fico à vezes imaginando se ele ainda estará lá, nas matas de Roncesvalles, esperando por algum peregrino.


Burguete é uma minúscula povoação. Naquela manhã parecia adormecida, silenciosa, portas e janelas fechadas.
Encontramos, quase na saída da cidade, uma espécie de bar. Comemos com apetite. Muitos peregrinos pararam ali. Além de bom e limpo era o único aberto, e a próxima alternativa de um lanche seria Espinal, outro pequeno pueblo, a cerca de 4.7 quilómetros.·

Quando saímos de Burguete, refeitas após o gostoso café da manhã, começou a cair uma chuva fina.

Paramos na porta do bar, olhando desanimadas para o tempo

-Você está vendo alguma placa? Perguntou Geisa meio perdida.
-Sei lá. Vamos caminhando que certamente encontramos o caminho.

Passaram por nós alguns ciclistas.

- Devem ser peregrinos. Veja por onde vão, animou-se Geisa.

Fomos caminhando pela auto estrada, e sem muito esforço completamos os quase cinco quilómetros que nos separava de Espinal.

Não paramos. Abandonamos o asfalto, pois as placas indicavam que o Caminho divergia da rodovia, levando a pastos e bosques.

Começaram aí nossos problemas e a nossa terceira grande lição.

Em principio achamos uma beleza O silêncio do campo, pintalgado de pequenas flores, em contraste com o movimento do asfalto, transmitia uma profunda sensação de tranquilidade.·


Alegres, conversando, não demos a devida atenção às poças de lama que de vez em quando atrapalhavam o caminho. Ocorre que a dificuldade foi aumentando, a estrada ficando cada vez mais íngreme, e o que seria uma ladeira comum tornou-se uma difícil e escorregadia subida enlameada.

Começamos caminhar devagar, procurando apoio nos arbustos e não dando um só passo sem antes sentir a firmeza do chão, já que uma queda poderia significar o fim do passeio.

Bem, mesmo com todo o cuidado, eu perdi o equilíbrio e caí, felizmente devagar, torcendo o tornozelo direito.

-Não se mecha! Calma pelo amor de Deus!

Minha amiga, com dificuldade conseguiu me levantar. O peso da mochila e o barro grudado na bota dificultavam e irritavam. Ficamos alguns minutos sem saber o que fazer. Voltar? Refazer todo aquele barro? Prosseguir? Como?. Que dificuldades ainda teríamos pela frente?

Pode parecer tolice, e algumas pessoas poderão atribuir ao que depois se passou a simples casualidade. Contudo, eu sempre acreditei na ajuda do "anjo-da-guarda", e os acontecimentos que se seguiram só vieram fortalecer minha fé.

Estava quase chorando de dor, me sentido perdida, distante de tudo, quando ouvimos vozes , e para nossa surpresa e alegria, um grupo de peregrinos se aproximou , patinando no barro!

Vale explicar sobre essas pessoas.

No dia anterior, quando de nossa chegada a Roncesvalles, na hora da missa, ouvi um rapaz soltando gritos altos e agudos. Era, claramente, uma pessoa com problemas mentais. Achei esquisito, más ingenuamente pensei tratar-se de algum morador das redondezas, nunca de um peregrino.

Quando paramos em Burguete para o café da manhã, vi novamente o rapaz que havia gritado durante a missa. Estava junto com outras pessoas, formando o grupo mais estranho que poderia esperar encontrar numa viagem como aquela. Eram 8 pessoas ao todo. Quatro deles com algum tipo de problema.. Cheguei a comentar o assunto e, não sei porque, evitava qualquer tipo de contato.

Pois bem, foram exatamente essas pessoas que se aproximaram de nós, lá no meio do barro e de nossa dificuldade. Uma das jovens, de ar extremamente calmo e simpático parou para oferecer ajuda. Eles contavam com o auxílio de um guia, que foi abrindo caminho. Caminhar com o barro dificultando os movimentos não foi lá muito fácil. O pé doía muito e para falar a verdade estava com medo de não aguentar e tornar a cair.

De qualquer forma, com muita dificuldade, de mãos dadas, conseguimos enfim alcançar a rodovia.

Descansamos um pouco, e fiquei sabendo que era um grupo de ingleses. Percebi que havia 4 pessoas, dois homens e duas mulheres tomando conta de 4 excepcionais. Pareciam enfermeiros, ou algo assim.

A ajuda que me prestaram foi inestimável. Bem mais tarde, em outro “pueblo”, tornamos a nos encontrar. Eles faziam piquenique, e pude ver que contavam também com um excelente carro de apoio.
Este incidente, aparentemente simples, revelou-me que eu havia julgado precipitadamente, me afastado com preconceito, e até, devo confessar, certa repulsa, exatamente dos meus anjos de guarda, de pessoas que sem me conhecer, me deram a mão, praticamente me carregaram no colo.

Quem quer que sejam e onde quer que vivam, muito obrigada. Deus os abençoe.

Após alcançar novamente a rodovia, nos despedimos dos ingleses e resolvemos procurar uma condução e seguir para Pamplona. Estava suja, ou melhor imunda, cansada e sem caminhar direito. Uma figura! Sem saber onde e quando poderíamos esperar por um ônibus, decidimos pegar um táxi. Optamos por procurar em uma pequena localidade, Mezquiriz, um pouco afastada da rodovia.

Contudo, os nossos contratempos ainda não haviam acabado. Iríamos enfrentar mais um problema mas receber também mais uma prova de solidariedade humana.

MEZQUIRIZ

Tivemos a impressão de uma cidade fantasma. Podíamos apenas pressentir a presença de pessoas. Procuramos por um bar, nada! . Pode ser que o cansaço tenha impedido que víssemos qualquer coisa, o certo é que desanimadas pensamos em retornar pela rodovia e caminhar mais cerca de 3Km até a próxima cidadezinha. Para quem esta suja, machucada e carregando uma mochila é uma eternidade, podem acreditar.

Aconteceu de repente. Um cão enorme, parecendo uma fera, surgido não sei de onde, começou a nos rondar com cara de poucos amigos.

Assustadas, tentamos nos afastar, mas o cachorro ia se aproximando e nos acuando. Encostamos em uma porta e ficamos meio que sem ação. O cão, sentindo nosso medo cada vez parecia mais agressivo.

- Eu não tenho medo! Geisa correu para cima dele gritando e batendo o cajado.
-vai embora! Passa! Passa!

Surpreendida ante aquela inesperada onda de entusiasmo e coragem, eu também tentei ajudar. Acho contudo, que mais mancava do que realmente conseguia espantar o cachorro.

. O cão se afastava e voltava em seguida. Percebemos que ia acabar nos atacando p'ra valer. Começamos então a gritar e fazer uma alaua danada na rua da pacata aldeia .

Uma janela se abriu e uma senhora perguntou o que estava havendo ao mesmo tempo que gritava com o cão para ir embora.

Explicamos nossa situação e pelo olhar apiedado que lançou para minha aparência fatigada percebi que iria nos ajudar. Prontificou-se a chamar um Taxi por telefone e nos avisou que esperássemos em um local próximo.

Aguardamos, aguardamos e nada!

-Quer saber, disse eu, vou voltar para saber o que está acontecendo, dar outro telefonema, sei lá. Paradas aqui estamos parecendo duas estatuas.

Quando estava começando penosamente a me mexer para fazer o caminho de volta, um carro parou perto de nós. Um espanhol de meia idade, nos disse ser o marido da nossa salvadora e que nos levaria até ao povoado mais próximo, onde poderíamos, tranquilamente, nos alimentar, descansar e encontrar um Taxi, já que o que pedimos não havia atendido. Assim fez . Não nos cobrou nada. Simplesmente nos ajudou. Duas desconhecidas, sujas e cansadas.

Em um mesmo dia tivemos exemplos de solidariedade pura e simples, sem esperar qualquer retorno.

Seguimos de Taxi para Pamplona e nos hospedamos no Hotel Yoldi, no centro da cidade. Limpamos nossas roupas e tomamos um bom banho quente.
As emoções e sustos daquele dia cobraram seu tributo. Adormeci completamente exausta, após haver tomado um relaxante muscular.

No dia seguinte, sem condições de caminhar, fui obrigada a pegar um ônibus direto para Puente de la Reina.
 
Enviado por Leda Silva
 
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