Relatos Peregrinos

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Kenneth

Para comprovar a minha peregrinação a Santiago, junto com Inês e Selma, mostro a minha missa de chegada à Catedral, em corpo etéreo, que pode ser constatado pela aparência diáfana que mostra a fotografia

 

Fui "Peregrino" sem sair de casa

Realmente, é uma aberração dizer-se um Peregrino sem sair do conforto de sua casa.
No entanto, foi assim que eu me senti pelos oito meses que mediaram entre a decisão de realizar o "Camino" e cumprir a jornada.
Explico!
Minha mulher, Inês, e minha cunhada, Selma, após muito papo e muita hesitação, resolveram, em outubro de 1999, que seriam Peregrinas. Sentiam um "chamamento" imperioso para realizar a jornada de tantos séculos.
Fixaram a data de partida para meados de maio de 2000.
Parti antes delas.
Compra de livros, visita a sites nacionais e internacionais sobre o assunto. Impressora funcionando a todo vapor para guardar as melhores dicas.
Preparação física...
Caminhadas e mais caminhadas...
Voltas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, caminhadas na Barra da Tijuca.
Quilômetros e mais quilômetros sendo acrescentados a cada semana, esticando as distâncias e buscando o melhor preparo físico.
Descoberta da AACS...
Clarice, José Roberto e outros que nunca vi, mas de quem muito ouvi...
Reuniões e palestras sobre o caminho.
Debates e mais debates sobre o que levar, como levar.
Compras de mochilas, grandes e pequenas.
Arrumações e desarrumações a cada semana e após cada reunião.
E eu, lendo os livros, fiz o "Camino" por seis vezes, por seis livros.
Participei das reuniões em casa como se Peregrino fosse. Palpites e perguntas. Dúvidas e certezas.
E eu, caminhando etapa por etapa. Os nomes das pequenas, grandes, médias , abandonadas, inexpressivas ou importantes cidades, povoados etc, eram-me tão conhecidas como se lá houvera estado.
Como estudioso da Ordem do Templo, conhecia aquela região da Espanha de contatos anteriores pelo tema "Templários" que pesquiso há anos.
O tempo vai passando e as duas Peregrinas têm tudo pronto. Roupas, objetos de uso pessoal, farmácia, implementos diversos devidamente empacotados e revisados com uma assiduidade que assusta. Fazer e desfazer mochilas.
Ah! E as botas? Discussões sobre as botas foram inúmeras!
As que participaram do treinamento eram as desejáveis? Ou não eram?
Assim se passaram os meses entre a decisão e a partida.
E eu?
Continuava viajando nos livros, nas apostilas, nas notas.
São seis vezes os 836 km de Saint Jean-Pied-de-Port até Santiago de Compostela.
Fiz 5016 km, merecia - no mínimo- seis Compostelanas...
Finalmente chegou o dia da partida.
Se elas estavam ansiosas, temerosas e cheias de esperança, eu estava apreensivo.
Temia, mais que tudo, que ocorressem imprevistos dos quais não havíamos pensado equacionado ou debatido.
E lá fiquei, rezando para Cristo e Deus Pai, para São Tiago e São Judas Tadeu.
A cada telefonema, com o mapa na mão, conferia o progresso das minhas Peregrinas.
Cálculos de quanta andaram, qual a média diária, quanto faltava.
Comeram? Beberam? Como estão os pés? As costas? As pernas? E, principalmente, a cabeça ?
Estado catatônico ouvindo a voz que saia do auscultador do telefone, embotando os sentidos pela apreensão, a saudade e a torcida.
Chagamos a Santiago de Compostela.
Eu estava exausto !
Conseguimos !
Exultamos!
Pensei que não mais iria ter que caminhar sob o Campo das Estrelas.
Ledo engano!
Com a volta das duas, continuei a caminhar. Cada reunião, uma nova perspectiva de encarar o "Camino" .
E o pior...
Vou fazer a Peregrinação outra vez !
Em maio de 2002 estarei partindo pra uma nova vivência de religiosidade, misticismo e alegria.
Sentado junto ao computador e ao telefone. Mapa na mão. Catatônico.
Porém realizado e sentindo que tenho uma mulher de fibra ao meu lado.
Obrigado Senhor ! Obrigado São Tiago!
Pelo menos, agora, não estou mais caminhando pelos livros. Não estou exausto.
Só tenho que agüentar o falatório sobre as reuniões da primeira sexta-feira de cada mês.

 

Enviado por Kenneth
 
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