Relatos Peregrinos

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Gláucia Cristina

No Caminho - Parte 2

16º Carrion de los Condes - Calzadilla de la Cuerza


Este trajeto foi um dos mais comentados...pois você anda, anda e nunca chega! E é verdade...
Achavamos que não teria fim... a cidade ficava em um buraco...Quem estava de longe nunca poderia imaginar que a cidade estava alí.

E foi lá mesmo que ficamos, descansamos a tarde inteira!

17º Calzadilla de la Cuerza - Sahagún

18º Sahagún - Astorga

Nesta cidade, as ter crises foram piores, estavamos caminhando desde Larrasoña, sempre com a mesma turma, e nesta altura, eu não estava gostando, pois queria estar um pouco sozinha, no meu ritmo, no "meu caminho", ao ligar para casa percebi a saudade e o estado emocional de toda a família, tudo isso fez com que eu tomasse uma decisão e mudar meu caminho, já havia pensado em desistir, então fiz planos para pular uma etapa do caminho, que não sei o motivo, não queria fazer! Era como se desnecessário! Assim chegaria a Santiago mais rápido e voltaria para casa, assim estava decidido.....compramos a passagem para Astorga.

Fomos para a Estação de Tren, estávamos sentadas...quando vimos três brasileiros (dois homens e uma mulher) se aproximando, neste dia estávamos com pouca paciência...e quando vimos ao longe...Comentamos, "tomára que eles não venham até aqui..." isso foi como um chamado! Gritaram ao longe..."brasileiras"... sentaram em nossa frente e conversando perguntaram o "por que" estávamos na estação, e se estávamos com algum problema, minha mãe falou, sobre minhas dores, e o porque eu gostaria de pular esta etapa...

O homem mais velho, pediu que eu tirasse os tênis, e falou rindo para os amigos que estavam olhando, "eu não disse para vocês que eu precisava vir a estação?" os dois com a fisionomia assustada...pois essa foi mais uma vez que eles haviam presenciado,o fato dele prever que precisava ajudar alguém! O trem deles só iria sair duas horas depois e não havia necessidade de ir para a estação se não fosse esse chamado!

Ele começou a me examinar e conversando disse que tinha uma clinica em Santa Catarina e em Campinas também, era um especialista, e fazendo o Caminho pela segunda vez, ajudava os peregrinos que não encontravam forças para continuar.

Ficamos sabendo, de como os três haviam se conhecido, a primeira vez foi no aeroporto, ainda no Brasil...quando ele chegou perto dos dois e disse "eu cuidarei de vocês no caminho", acharam muito estranho, a menina disse , "por mim tudo bem", e o outro, "cuidar de mim...imagina".

Na subida dos Pirineus o rapaz , começou a passar mal, ter convulsões...e quem aparece "o Francisco" (homem mais velho), pediu ajuda a um carro que passava, foram para o hospital...deu conselhos para o rapaz despachar metade da mochila para Santiago, pois estava muito pesada, no começo ele relutou...depois lembrando do acontecimento no aeroporto...acabou por aceitar. O Francisco ainda disse..."Agora você volta e pode recomeçar o seu caminho...nada vai te acontecer".
A menina, ele ajudou quando a encontrou parada por alguns dias no Albergue, devido a tendinites...
Os três acabaram por se cruzar novamente e seguiram o caminho juntos! Muito felizes!

Massageou meus pés, perna...enfim no corpo todo....alinhou chakras, do-in, eu estava leve! Comentou que todos os meus músculos estavam rígidos e se não tivesse feito isso eu não conseguiria terminar o caminho! Aconselho-me a despachar tudo que poderia, para Santiago e ficar com apenas 2 trocas de roupas e uma blusa de frio...Alertou-me de um problema físico que provavelmente terei no futuro, deu alguns conselhos para seguir o caminho e comentou que naquele dia iria cair uma chuva, muito grande! O tempo estava ótimo....os dois que estavam olhando e rindo disseram..."escreve o que ele fala"...."ele parece um bruxo!" E é verdade!

Nos despedimos e embarcamos no trem para Astorga, no albergue desmaiei a tarde e a noite inteira...caiu uma tremenda chuva, ficamos até meio assustadas!

No outro dia eu era outra! Esperamos o banco abrir, despachei as coisas para Santiago, joguei fora o isolante térmico, preparei meus pés, comprei um novo cajado...pois um novo caminho começava alí.

19º Astorga - Rabanal del Camino

O trajeto foi bom, chegamos ao Albergue na hora exata, pois eram os 2 últimos lugares. Fomos assistir o canto, na igreja.

20º Rabanal del Camino - Ponferrada

Outro dia tao esperado! Iria conhecer Foncebadon e a Cruz de Ferro...

Acordamos e estava uma tremenda chuva , muito vento, e estava frio, nos preparamos e seguimos viagem assim mesmo...o vento parecia que iria nos levar para baixo, o trecho é de subidas. e foram feitos com dificuldade, o frio era imenso...do outro lado da montanha podíamos ver neve...era inacreditável! Por fim chegamos na antiga cidade de Foncebadon, era um cenário que parecia filme de bruxas, aquela cruz antiga no centro da cidadezinha, as casas de pedra caídas, aquela garoa, o chão com pedrinhas escuras....Foi perfeito!

Seguimos agora para a Cruz de Ferro, jogar a tradicional pedrinha! Que emoção ter chegado até ali, onde milhares e milhares de peregrinos passaram e deixaram sua marca na história, eu deixei a minha também, e como havia prometido...para a amiga Paty, também! As nuvens passavam entre nós, estava muito frio! Nunca senti tanto frio na minha vida! Mas estava radiante! pois era um cenário diferente! E o frio acabou ajudando pois com ele eu não sentia dores.

Continuamos nossa caminhada, e começamos a ouvir um sino, como se estivesse chamando, e logo avistamos uma pequena cabana, com uma placa na entrada "uma luz en el camino", entramos era o refúgio de Manjarin, fomos acolhidas.

No canto da sala uma lareira, um gato preto do lado, vários quadros e livros místicos, um senhor cuidando de uma peregrina que havia quase congelado, e estava mal! Eram 12hs quando começaram a fazer a oração do dia, sempre as 12:00, (antigamente feita pela manhã, mas achavam que muitos peregrinos que precisavam estar ali, devido ao horário, não poderiam chegar para presenciar, então foi feita esta mudança), com um ritual de espadas e mastros os três senhores, rezavam, invocando e agradecendo aos anjos, e arcanjos, a wicca, os cavaleiros e outros...todos os peregrinos presentes estavam de mãos dadas...senti algo inexplicável e comecei a chorar igual criança, como um desabafo...quando parou a oração, o mesmo homem que estava cuidando da moça alemã, segurou em minha mão e colocou a outra mão em minha testa, como se para transmitir energia, me senti muito bem, recebi palavras de conforto, um outro homem também veio conversar comigo, e transmitir mais energia positiva, e mais segurança para seguir meu caminho! Foi um momento mágico, que nunca esquecerei em minha vida!

Paramos em El Acebo, para almoçar...o restaurante ficava no refugio e é muito bom! Onde também aconteceram fatos interessantes...como se forças ocultas agissem para mostrar o verdadeiro caminho, e para mostrar que nunca estamos sós. Comemos e bebemos para esquentar.

Caminhamos para o Albergue de Molinaseca, neste dia não senti o caminho nem o peso da mochila...me sentia como criança...caminhando e pulando em um cenário da idade média....Chegando, fomos avisadas que não tinham mais vagas! O hospitaleiro, nos ofereceu uma carona até Ponferrada, cujo albergue é muito grande e com certeza teria lugar, aceitamos!

No albergue de Ponferrada, fomos acolhidas por uma senhora, muito gentil, e ficamos sabendo que a noite teria uma comemoração...o albergue estava fazendo aniversário de 1 ano. Primeiro fomos fazer uma oração na capela, juntamente com demais peregrinos...deixamos o nome em uma lista, que ficaria ali por 10 dias, este prazo é o normal para chegar a Santiago, neste período todas as noites seriam feitas orações em intenção aos peregrinos, e no décimo...a oração de agradecimento por ter chegado a Santiago. Fomos para o albergue novamente e tive a alegria de presenciar uma queimada em homenagem ao albergue e pela primeira neve que caiu na espanha (naquela estação).

21º Ponferrada - Villafranca del Bierzo

22º Villafranca del Bierzo - Vega de Valcance

Em Villafranca, tive outra crise...estava determinada a desistir, pois não aguentava mais sentir dores...e me perguntava "o que eu estou fazendo aqui?", "poderia estar em outro lugar agora sem passar por todo esse sofrimento"...Estava no momento para desistir, chorando...quando minha mãe disse, "se você tiver que cumprir o caminho até o fim algo vai acontecer agora para que você decida!"...na mesma hora apareceram um casal de brasileiros, já havíamos nos visto em Rabanal del Camino, pararam e foram perguntar coisas da cidade e viram que eu estava chorando e se interessaram em saber o que era...contamos e eles nos deram toda a força e as palavras de persistência, a importância da vitória, já que estava faltando tao pouco...este casal foi muito importante em minha caminhada (Regina e Edson / Santos-SP).

Decidi continuar e a chegar a Santiago custe o que custar, não teria mais crises em desistir!
Paramos em Vega de Valcarce, antes de subir ao Cebreiro...cidadezinha muito aconchegante, e o almoço foi histórico (Manson, restaurante que fica bem na esquina uma quadra antes o Albergue), nunca comi uma Paeja tão gostosa em toda a minha vida...

23º Vega de Valcarce - Hospital de la Condessa

Deixamos a mochila no restaurante para que pudéssemos subir o Cebreiro, sem peso. E este passeio foi maravilhoso, que caminho lindo, que paisagem estonteante! Resolvemos não ficar no Cebreiro e fomos para a próxima cidade...Hospital de la Condessa, a cidade não tinha um bar, a sorte é que tinha telefone....e tinhamos que pedir algo para comer na cidade posterior, e pedir para ser entregue.

24º Hospital de la Condessa - Triacastella

O caminho foi muito bom, deixei para atrás tudo que impedia o meu desejo de chegar a Santiago, não mais pensei em desistir, agora eu queria chegar!

Em Triacastella, conheci os hospitaleiros Jesus (filho e Pai), pessoas muito especiais! Pessoas que não poderia deixar de conhecer, pela simpatia, humildade, e alegria...

25º Triacastella - Sarria

Estava faltando pouco...

26º Sarria - Portomarin

27º Portomarin - Palas del Rei

28º Palas del Rei - Arzua

Todos os dias depois de Villafranca, foram bons, aprendi a superar os obstáculos e a pensar com determinação, para a conquista do meu objetivo!

29º Arzua - Santiago de Compostella

Em Arzua, decidi que no dia seguinte, chegaria a Santiago...custe o que custar! Começamos a caminhada as 6:30 da manhã, tudo escuro e com uma garoa...passamos por florestas, estava como um breu...até que o dia começou a clarear e foi um alivio...o caminho estava com muita lama, estava chovendo já a algum tempo..caminhamos bastante...até que ouvimos nosso nome...era o casal (Edson e Regina) que tinham me dado forças e incentivo para cumprir o caminho, depois daquele dia em Villafranca, sempre nos encontrávamos nos albergues depois da chegada. Naquele dia, não esperávamos encontra-los pois iriam sair mais tarde, não pretendiam chegar a Santiago,...mas algo fez com que mudassem de idéia...Olhamos para atrás e lá estavam eles, com um sorriso, dizendo "nós também chegaremos a Santiago hoje!" Ficamos felizes e seguimos nosso caminho...andando, radiantes...a chuva ajudava, pois os melhores dias de caminhada foram com chuva, (era muito bom sentir a chuva caindo no rosto...o verde das árvores e das plantas ficavam ainda mais bonitos, além de não cansar como o sol), seguimos sem parar e resolvemos almoçar em uma cidade uns 12 Km antes de Santiago...ao parar a dor foi terrível...os músculos pareciam travar...estava caminhando a base de pomada (Radil Salil) e Voltarem, e nada atrapalhou a minha alegria e a vontade chegar...Após o almoço voltamos a caminhada, paramos no Monte do Gozo, fotografamos, conhecemos e agora o coração começava a acelerar...de repente a visão tão sonhada....a entrada da cidade de Santiago...andamos, andamos e a catedral parecia não chegar! Ao começar a ver a arquitetura antiga, as setas amarelas...estávamos chegando, que emoção...ao entrar na praça de Santiago, alguém gritava o meu nome...como se para eu acordar...pois era realidade...era um peregrino, que conhecemos no caminho, que veio compartilhar a alegria inexplicável da "chegada"...Após chorarmos feito crianças entramos na igreja, cumprimos o ritual de peregrinos...depois, recebemos a Compostelana e nos dirigirmos ao albergue.

Tudo foi muito emocionante!

No dia seguinte, tivemos o privilégio de sentar na área reservada aos peregrinos, assistir a missa o botafumeiro....Que Alegria! A sensação de vitória é demais!

 

Enviado por Gláucia Cristina. Não deixem de ver seu Album Peregrino.
 
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