Relatos Peregrinos

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Gláucia Cristina

No Caminho - Parte 1

Primeiro Dia

Dia 31 de Agosto foi nosso primeiro dia de Caminho. Recebemos o primeiro carimbo na credencial, o selo desejado desde criança, o selo deixado por Madame Debril. Saímos de Saint Jean as 8:30 com destino a Roncesvalles, eu estava muito feliz, finalmente tinha chegado o "grande dia", tiramos fotos e começamos nossa jornada - atravessar o Pirineus, um pouco temido pela fama, de tanta subida.

A grande subida começava, a mochila pesava, e nem sentíamos pois estávamos muito felizes, o que podíamos ver era um cenário fabuloso, era o máximo ver o vale, andar entre as ovelhas, ver os cavalos e sentir a brisa gelada no rosto, cada passo uma felicidade incontrolável. Seguimos devagar, contemplando as maravilhas da natureza, e o sabor do tão sonhado dia!

No caminho encontramos o casal de velhinhos que tínhamos vistos no dia anterior, era pura admiração estavam tranqüilos, no ritmo deles e felizes, um cuidando do outro. Um exemplo para muitas pessoas!
Depois de tanta subida, veio a pior parte...a decida, que não acabava mais, já estávamos cansadas...a esta altura as costas já estavam doendo, os pés cansados...no final de tanta decida...chegamos a Roncesvalles. Fomos receber o segundo carimbo na Credencial de Peregrino, e nos alojar no primeiro Albergue. Conhecemos outros brasileiros, naquele dia tinham 17 brasileiros e ainda estavam chegando mais peregrinos.

Após o banho, o corpo doía, mas era um prazer, fazia sentir na pele, "ser peregrino". As 19:30 recebemos a primeira benção e não pude deixar de derramar toda minha emoção. Fomos jantar, ligamos para casa, e todos ficaram felizes por nós, estavam pensando que iríamos começar no dia seguinte (01/09/2000)., foi uma surpresa, pois já havíamos vencido a primeira etapa.

Segundo Dia

Saímos em direção a Zubiri, o caminho naquele dia não foi tão fácil, havia muita lama, no meio do caminho encontramos uma senhora Dinamarquesa, ela não estava muito bem, as pernas tremiam, minha mãe ofereceu próprio o cajado que havia pego entre os galhos na mata, ela aceitou, deixamos ela caminhar na nossa frente pois estávamos com medo que ela viesse a passar mal, de repente ela caiu, ajudamos ela a levantar... passamos remédio nas pernas, e levamos a mochila, pois ela não estava em condições...Estava mais pesada que nossas mochilas, não tinha proteção nas alças e nem para barriga. Assim seguimos..., uma hora eu carregava a mochila, na outra minha mãe, hora nos duas....até chegar próximo a Zubiri, onde um rapaz Alemão nos ajudou, também! Deixamos a Senhora no Albergue e como estávamos bem, seguimos para Larrasoaña.

Chegando, fomos ao Albergue e não havia mais lugar, fomos encaminhados para dormir igreja. Por mais estranho que possa ser, eu desejava fazer isso desde o Brasil, queria ter essa experiência.

Assim seguimos, cada dia conhecíamos pessoas novas, contemplávamos toda a maravilha e a alegria de estar no caminho:

03º Larrasoña a Pamplona

04º Pamplona - Puente la Reina

Em Pamplona deixei tudo que estava pesando desnecessariamente a mochila.
A partir deste dia começaram a aumentar meus conflitos interiores, na presença de dor, passavam mil e um pensamentos...e crises.

05º Puente la Reina - Estella

Estella é belíssima, não sei se o astral da cidade, ou "o que"...

06º Estella - Los Arcos

Em Los Arcos, pude aliviar um pouco as dores, devido a um massagista no próprio albergue.
A cidade também é muito bonita. Conhecemos um padre, a noite quando tirávamos fotos, que nos deu tamanho conforto. "Palavras positivas e de incentivo, são como bálsamo fortificante em nossa alma".

07º Los Arcos - Logroño

Durante estes dias de caminhada comecei a sentir mais dores, e a partir desta trajetória começou a aumentar o pesadelo do meu caminho, "as dores nos pés", neste dia cheguei no albergue, com dores, fiz compressas com gelo, descansei.

08º Logroño - Nájera

Neste dia, estava sendo impossível andar, cada passo era uma dor imensa, chorei muito, tive ajuda de minha mãe e também de uma colega gaúcha, que conhecemos no caminho e esta caminhando conosco. Foi o pior dia de caminhada, pois estava me deparando com um obstáculo, o meu próprio corpo...e não podia fazer nada, além de estar firme e seguir a diante.

Tive crises de desespero, chorava...e nada adiantava pois a dor não passava. Devido caminhar devagar, neste dia saímos a 7:00 da manhã e só chegamos em Najera as 17:30. Minha mãe também sofria, por ver meu sofrimento e não poder fazer nada.

09º Najera - S. Domingo de la Calzada

Não era possível andar neste dia, preferi fazer repouso, e fui de táxi a S. Domingos de la Calzada.
Chegando na cidade, fui a igreja, fiquei sentada um longo tempo, rezei muito pedindo forças para cumprir meu caminho, e como a lenda ...ouvi o galo cantar 8 vezes e só eu estava na igreja. Não sei se verdade ou não...mas fiquei feliz! Teria sorte e bom caminho!

Fui para praça da cidade, fiquei vendo as crianças entrarem na escola, coloquei meu diário em dia...e acabei dormindo no banco da praça, ao acordar fui dar um passeio nas outras praças, parei em uma em frente ao albergue, estava sentada...e me vi como um ET...começaram a chegar muitos turistas Italianos, conheceram o Albergue e na saída ficaram olhando como se eu fosse algo muito esquisito, um deles veio pedir para tirar foto...parecia algo inédito, e acho que até engraçado, uma garota, sentada no banco da praça, com meio cajado (pois estava andando com o pedaço de pau, que mais parecia uma bengala), com o pé enfaixado, de papete, com cara de cansaço. Depois fiquei rindo sozinha, pois foi cômico! Fui ao albergue, deixar minhas coisas. E sai para comprar algo para comer e esperar minha mãe e a Ana (amiga gaúcha), fui para entrada da cidade e fiquei esperando-as e a ver os peregrinos chegarem...Eu estava tranqüila, pois estava melhor, e os momentos que passei na igreja renovaram minhas forças.

10º S. Domingo de la Calzada - Belorado

Resolvi tentar novamente e fui andando, todos os dias tive dor, mas nada igual ao caminho para Najera. Em Belorado, fiquei encantada com o ninho e a Cegonha no alto da igreja.

11º Belorado - San Juan de Ortega

Gostei muito de San Juan de Ortega, sempre tinha em mente a imagem da reportagem no "Globo Repórter", os peregrinos deixando as mochilas, e as botas todas enfileiradas esperando abrir o albergue, e foi esta mesma cena que vi ao chegar na cidade.

12º San Juan de Ortega - Burgos

Neste dia pegamos a primeira chuva do caminho, foi muito bom! Na entrada da cidade de Burgos preferi pegar um táxi, para poder descansar os pés...

A tarde no albergue, tivemos a possibilidade de conhecer a cidade de trenzinho (ofertado pelo próprio albergue).

13º Burgos - Hornillos del Camino

Paramos em Hornillos pois eu não estava com possibilidades de fazer trajetos muito grandes. Foi uma tarde maravilhosa, descansamos, curtimos o tempo e o sossego da cidade.

14º Hornillos del Camino - Castrojeriz

Castrojeriz era uma cidade que também sempre tive o desejo de parar. Na entrada da cidade não posso esquecer da igreja, é belíssima, com canto gregoriano de fundo se misturando com o canto dos pássaros na cúpula da igreja. É linda!

15º Castrojeriz - Carrion de los Condes

Começamos o dia com um nascer do sol belíssimo, e uma subida imensa....ao chegar no topo...a vista era magnífica! Caminhamos bem com destino a Poblacion del Campos...chegando na cidade, vimos que o refugio era apenas uma casa meio abandonada (somente mantida pelos cuidados dos Peregrinos), descansamos e resolvemos seguir viagem...até Villacalzar de Sirga...chegando não havia mais lugares no albergue, então decidimos ir mais além...faltavam apenas 6 km para Carrion, 1:30 de caminhada, e fomos nós...neste dia o maior presente foi ver o sol nascer e se pôr...chegamos as 9:00 no albergue, colocamos nossas coisas na beliche e fomos correndo comer alguma coisa, tínhamos que comer e tomar banho antes das 10:00, pois as luzes seriam apagadas.

Tinham sido 43 km de caminhada!
 

Enviado por Gláucia Cristina. Não deixem de ver seu Album Peregrino.
 
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