Relatos Peregrinos

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Fernando Righi

Um Ano de Caminho de Santiago
(28 de maio de 2001)

Nos próximos 2 ou 3 dias completa um ano da conclusão do Caminho de Santiago. Ainda está bem presente na nossa memória os bons momentos de alegria "en vivo y en dolores" por que passamos. A expectativa do trecho de cada dia, a busca das flechas amarelas (onde estão agora, temos que buscá-las ou construi-las), as condições de tempo, a paisagem, as tendas ao longo do percurso, o vinho ao meio-dia (ou antes e depois), a camaradagem explícita, a cumplicidade implícita.

Andávamos de cara limpa, de coração aberto e de olhar desperto para sorver cada momento do caminho, como se nesta relação com os outros e com a natureza e conosco mesmos estivesse a essência do renascer e do aperfeiçoar nossa vida e buscar horizontes mais humanos, menos ásperos e de mais confiança e alegrias. Pode-se chegar a diversas conclusões, cada um ao seu modo viveu e sentiu o CS. O que fica é a certeza de que existe alguma coisa lá que nos chamou e continua a nos chamar a cada momento em que falamos sobre o tema, assistimos algum programa, lemos um livro e nos sentimos parte de uma sensação muito boa que nos transmite paz de espírito e um misto de nostalgia, com alegria, com saudade, com vontade de fazer tudo de novo e, ao refazer, buscar o "mais melhor" ainda (se é que é possível).O que ficou para nós todos, irmãos, amigos, presentes e distantes, mas unidos neste clima de saudável saudade, amizade amiga e singela simplicidade, é a certeza de que "valeu" muito, em todos os sentidos. Por tudo isto e pelo tanto que não tenho como exprimir (mas que todos entendemos) quero deixar esta mensagem com o meu mais caloroso abraço a todos os peregrinos do CS e da vida ( que é o nosso CS particular e temos que trilhar).
O que ficou para nós todos, irmãos, amigos, presentes e distantes, mas unidos neste clima de saudável saudade, amizade amiga e singela simplicidade, é a certeza de que "valeu" muito, em todos os sentidos. Por tudo isto e pelo tanto que não tenho como exprimir (mas que todos entendemos) quero deixar esta mensagem com o meu mais caloroso abraço a todos os peregrinos do CS e da vida ( que é o nosso CS particular e temos que trilhar).

Agradeço a Deus por ter me feito amigo de todos vocês e poder lembrar com carinho de tantas e tantas coisas boas, do tirar a bota apertada, do "desvestir" a mochila, do "furar" aquela bolha chata, do barulho de plástico daquela tchurma (saudosa e ruidosa), do pingo de chuva que escorria até por onde não devia, da meia que não secou para o dia seguinte, do atalho errado na trilha, das papoulas no campo, do "cucos", da parada para o inevitável "bocadillo", do vinho nacional "deles", das canções ao longo da trilha, das orações coletivas e solitárias (mas sempre solidárias), até mesmo das dificuldades de entrosamento (apenas no início mas que sempre se deu um jeitinho), da linha do horizonte, lembram....(quanto mais caminhávamos em sua direção mais ela, teimosa, se postava além nos convidando a prosseguir...), daquela cidadezinha que parecia estar tão perto mas que se afastava e se escondia e brincava de estar longe, do grito de "fica parada que eu estou chegando", das igrejas, dos campanários, das cegonhas nos ninhos, das roseiras, das ovelhas, do gado no curral, do verde da Galícia, da neve nos Pirineus e em outras montanhas, do Cebreiro (com direito a queijo com mel), da Cruz de Ferro e a corrente de emoções (Nada será como antes.... lembram...), do abraço amigo ao final da jornada diária, do rango improvisado, do cumprimento de "Buen Camino", do café quentinho com madalena ou croissant, do banho nem sempre quente mas sempre bom e às vezes muito rápido, dos modelidos de gosto duvidoso depois do banho, da meia e da papete, da viveira que era o amuleto, identificação (precisa?, afinal ser peregrino é estado de espírito), daquela "lagarteada" ao sol nos bancos das praças, da reunião na hora do jantar, do erotismo das cuecas e das calcinhas penduradas na mochila - sempre pesada -, do colchonete, da dor nas costas quando faltava lugar para dormir mas sempre havia solução, da conversa com o pessoal da região, dos camponeses sempre amigos e incentivadores e dos "dê um recado ao Santo", das fontes com água limpa, fresca e pura que nos alegravam e reviviam, dos tomates e dos pimentões, da algazarra com os motoristas de caminhão nas "carreteras", da nossa pequenez na comparação com a paisagem e com a natureza, das flechas, dos marcos do caminho e dos seus sinais materiais e sobretudo os espirituais. Enfim são tantas e tantas coisas que ficaram gravadas e, no meu caso, dá "um nó na garganta" de lembrar e de reviver, algo do tipo "banzo" emocional. Vocês sabem do que eu estou falando, não é mesmo?.

Gente, por enquanto chega de lembranças, pois mais do que isto somos presença e participação, de todos, cada um a seu modo, mas amigos e irmãos.

Grande abraço, sejamos felizes, "lo bebido, lo gustado, lo bailado y lo caminado, nadie nos lo quita" .Viva a vida, viva amizade, viva o amigo (dom e dádiva que a cada dia temos que agradecer). Vamos nos conceder a chance de pensar e de nos emocionar, pois somente colocando emoção no que fizermos é que a vida tem valor e nos tornamos responsáveis por ela. Vida é para ser vivida e gente é criada para a felicidade e para o amor, para o convívio, para a amizade, para o caminhar juntos.

Espero rever-nos em breve, nos CS de cada um.

 

Enviado por Fernando Righi
 
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