Relatos Peregrinos

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Ellen Christina

Puente la Reina. 22 de Janeiro de 2000

...sentei em uma ponte antiga com alguns centos de anos. Olhei a água, o fundo e depois , o reflexo na superfície, ali pude ver o velho e tão companheiro sol por detras de um pequeno aglomerado de nuvens... mas abaixo algumas plantas sub-aquáticas penteavam-se com a suave e intensa corrente do rio.

Uma sensação de paz e suavidade invadia um pouco mais corpo-alma...de um lado a outro ... a cada povoado, a cada prado ou pasto, as pedras , as pontes ... e assim com a doçura que só a natureza pode operar, comecei a observar um senhor que havia dobrado a esquina da casa pegada a ponte e desde então este homem desconhecido , ancião que movia-se com lentidão , porém com a tranquilidade dos sábios, desafiava os anos vividos ... depois de vários passos finalmente ele se apoio em um dos lados da ponte e com muito cuidado deixou repousar uma bolsa com duas garrafas ; o peso do líquido era quase crítico... com suas mãos cansadas e experientes sacou do bolso de seu casaco um maço de cigarros , enganando assim o vento com um gesto quase ritual exalando o fumo.

Este homem para mim era como reviver um pouco a história... deixar o cansaço de peregrino a parte e desfrutar de como deveria ser fazer o mesmo caminho na época dos Templários ...quantos passaram pela mesma ponte ... quantas vezes este mesmo homem, hoje ancião, pasou por ela esbanjando juventude...Por alguns momentos converti um olhar aparentemente perdido no rio em eternidade... sentia que a mesma água havia passado por aquele lugar por muitas vezes, cumprindo seu ciclo de evaporação e condensação; uma vez mais , sentia a roda da vida girando e convertendo-se em três tempos... passado, presente e futuro... em um fluido homogêneo ... para deter-me por alguns preciosos minutos...

preparava-me para continuar a caminhada ... deixaria para trás outro momento maravilhoso, simples, ímpar e intenso...

Em alguma parte , não mais na ponte , aquele velho ancião desfrutava de suas ´tragadas... possivelmente no mesmo momento em que eu abandonava toda a consciência que era estar naquela ponte...naquele momento. sentia que jamais esqueceria, pertencia a mim ... havia entrado pelas portas de todos os meus seis sentidos ... acrescentando assim uma transformação em minha trajetória - direção; enfrentava apartir daquele momento a deliciosa sensação de libertade... sob um ângulo mais favorável que antes.
 

Enviado por Ellen Christina
 
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