Relatos Peregrinos

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Darcy Freitas
Mão de Pedra
(Relato do meu 1º dia de caminhada)

Refleti muito antes de digitar essa História, primeiro porque foi uma experiência pessoal (das muitas que acontecem em todo o Caminho de Santiago), depois por temer que meu discernimento dos fatos não fosse compartilhado pelas pessoas que o leriam, porém, após ler tantos relatos na lista me encorajei a dividi-lo com vocês.

Quando se faz o Caminho de Santiago, o dia anterior ao início da jornada é muito tenso. A ansiedade é tanta que muitas pessoas não conseguem dormir, você só pensa no seguinte: - O que me espera neste caminho? quais ou por quantas novas experiências passarei? será que vou suportar o esforço físico?

Sem saber, já existiam respostas a muitos desses questionamentos, mesmo antes de iniciar a jornada.

À noite uma missa rezada em latim, com cânticos gregorianos, amenizou a ansiedade e me colocou definitivamente no papel de peregrino.

Roncesvalles, dia 20/09/1999, prédio da Real Colegiata (século XII), os primeiros peregrinos a despertar, despretensiosamente acordam os outros com o "singelo" ruído de suas sacolas plásticas de super-mercado, logo vi que minha preocupação em perder a hora era em vão, o caminho arruma tudo para você, até o despertador.

Arrumei minha mochila, vesti um agasalho, calcei as botas e parti a procura da minha primeira flecha amarela (aquelas que demarcam todo o Caminho). Não foi difícil de encontrá-la, até porque muitos saiam aquela hora. Despreparado, deixei de comprar o que comer na noite anterior. Não havia onde tomar o café da manhã e o povoado mais próximo, estava a 3 km de Roncesvalles, comer era minha única intenção nesses primeiros kms de caminhada.

Encontrei algumas subidas e baixadas e quando parei para o primeiro descanso em Burguette, ao tirar a mochila das costas senti o verdadeiro peso dos 9 quilos que deveria levar nos próximos 797 km.

A falta de preparo físico fez com que esses primeiros 3 km fossem cansativos, acreditem, ainda faltavam 797 km, mas sabia que tinha que continuar e concluir a jornada do primeiro dia (por volta de 28 km). Tomei o tão desejado café da manhã e continuei, por vezes conseguia enxergar as pessoas caminhando à minha frente e vez por outra passava alguém por mim com o passo acelerado.

Consultei o mapa e vi que meu próximo destino era o povoado de Zubiri. A mata local era fechada e encontrei placas nas árvores que diziam "zona de treinamento de cães de caça" (ou algo parecido) e ao longe escutava o uivo dos tais cães, meu primeiro arrepio de medo.

Me embrenhei mata adentro, sempre seguindo as tais flechas amarelas e me preocupava sempre em não me perder, pois poderia sair Deus sabe aonde.

Dois km antes de chegar a Zubiri, me deparei com uma longa descida pedregosa, e com o piso muito irregular devido à erosão, quase não havia onde pisar direito e esquivando de buracos e rachaduras o Caminho tornou-se passo a passo. Meu joelho direito começava a doer, talvez pela falta de costume ou o peso da mochila, a dor ia aumentando e senti a necessidade de um apoio.

Antes de partir do Brasil, ao ler as muitas histórias do caminho, verifiquei que sempre havia algo em comum: o cajado.

Ao partir de Roncesvalles, como os primeiros km eram planos, achei que o cajado seria apenas um peso a mais, um estorvo e não o levei; nesse momento de muita dor no joelho, no meio do mato e precisando sair de lá, percebi que havia me enganado, precisava de um terceiro apoio.

Me movendo muito mal, saí da trilha de pedras e entrei mata adentro em busca de um cajado, encontrei um galho de árvore na espessura e comprimento adequado, mas como tirá-lo de lá?

Lembrei do canivete suiço que levava na mochila e fui desgastando aos poucos a base do galho, até conseguir parti-lo (questão de sobrevivência).

Sentei-me no chão para descansar, quando passaram por mim duas senhoras francesas, pareciam mãe e filha, porém a filha aparentava mais de 50 anos, envergonhei-me; percebendo que eu não andava muito bem, elas pararam e mesmo sem falar uma só palavra em espanhol ou inglês me ofereceram um comprimido, como não entendi o que diziam, apesar dos gestos, e não conseguia identificar qual era o tal comprimido, não o tomei.

Elas sentaram, comeram algo e muito rapidamente partiram com ar de até breve, como ainda me sentia cansado fiquei um pouco mais.

Caminhei mais uns quinhentos metros, e a dor foi aumentando até me travar o joelho totalmente, sentei-me novamente no chão e sentindo uma grande sensação de impotência espontaneamente comecei a chorar e pela primeira vez no caminho me questionei :

- O que estava fazendo ali ?, pensei nas pessoas que havia ajudado durante toda a minha vida e as tantas pelas quais não movi uma palha; refleti meu passado, almejando meu futuro e ali no meio do mato, sozinho, percebi que com meu tempo presente não conseguiria nunca alcançar o futuro que almejava, algo deveria mudar.

Chorei como criança, não havia bloqueio, estava só, em um lugar estranho onde não passava ninguém por mim há mais de 2 horas, desabafei com o mundo (o meu mundo) tudo o que me trancava a garganta, me senti liberto.

Tentei andar novamente, mas a dor me impedia, comecei a rezar, como há muito não fazia e aproveitando estar no famoso "Caminho de Santiago", em oração eu o questionei:

- Santiago, tu, Apóstolo de Cristo, melhor não há para interceder por mim junto a ele, o que estou fazendo aqui, se não posso ao menos caminhar?

Seja como for, ajuda-me!

Imaginem um homem, que após questionar a própria existência, passa a questionar um santo, não pode estar com a mente muito sã.

Após chorar, rezar, cantar, juntei forças e tentei imprimir nova caminhada, ao levantar recebi uma primeira gota de chuva no rosto e em seguida começou a chover muito, olhei inadvertidamente no chão e encontrei esculpido em pedra, uma mão, bem no meio da trilha; emocionado percebi que havia recebido a ajuda que solicitei.

Aquela era a mão de Santiago que estava pronta a me ajudar pela primeira vez no meu caminho e o subconsciente me dizia, vá adiante, você pode, eu te ajudo!

Fotografei a tal mão com receio de não passar de uma alucinação... (veja foto em minha HP pessoal) : http://www11.ewebcity.com/acaminho .

De alma limpa, e ainda com alguma dificuldade para andar, cheguei a Zubiri, onde parei apenas para descansar e andei mais 6 km, somando-se 8 km desde o local onde encontrei a mão, chegando a Larrazoaña.

Durante todo o resto do dia choveu, cheguei no albergue (albergue de peregrinos da prefeitura) por volta das 18:00 horas (notem que saí de Roncesvalles às 07:00 da manhã)

Todo molhado e enlameado o hospitaleiro me solicitou que deixasse as botas próximo a porta, e me arrumou um lugar para tomar banho e dormir.

Mal conseguia tirar as botas, sentado junto a porta do albergue, quando vi chegarem duas pessoas, mãe e filho (também brasileiros) que faziam o caminho, a senhora também andava com dificuldades e ao me ver com expressão de dor pediu que me acalmasse que seu filho iria me "dar uma olhada" , não entendi, mas as coisas estavam acontecendo de forma tão espontânea durante todo o dia que esperei para ver.

Logo o rapaz se apresentou, dizia chamar-se João Arcanjo (era o nome dele mesmo), médico cirurgião na Bahia, após me examinar receitou-me um anti-inflamatório e disse que eu tinha um começo de tendinite no joelho; deveria ficar em repouso pelo menos por uns dois dias; mais tarde descobri que sua mãe, chamava-se Maria do Rosário.

Medicado, após descansar continuei o caminho, onde iria provar de bolhas nos pés, fome, cansaço, muitas amizades e muita alegria de ter conseguido chegar (graças a João Arcanjo e Maria do Rosário) e abraçar Santiago de Compostela.

João Arcanjo e Maria do Rosário ajudaram muitas pessoas durante todo o caminho, a missão pessoal deles no caminho de muitas pessoas foi fundamental, já para mim estava reservado aprender, já no primeiro dia, o que realmente era ser solidário.

Por vezes, nos vemos sozinhos no meio do caminho (nossa vida) e diante de algumas dificuldades passamos a questionar o alheio, as pessoas passam por nós e até tentam nos ajudar, no entanto, como não falam a nossa língua (não os compreendemos) pouco podem fazer e se vão. Outros são escolhidos para ficarem em nosso caminho (nossa vida), até que estejamos curados e possamos prosseguir só.

Em alguns momentos, desorientados, procuramos como loucos o apoio que deixamos para trás (o cajado) e nos esquecemos, como se não soubéssemos, que a força que precisamos está o tempo todo em nosso interior, porém a dor e o cansaço nos cegam e não conseguimos ver.

Quando solicitamos ajuda e estamos dispostos a fazer a nossa parte, recebemos a dádiva da chuva, gota d'Água que lava a alma e readquirimos o apoio necessário para prosseguir em nosso "Campo de Estrelas".
 
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