Relatos Peregrinos

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Carmen Lemos

Relato sobre o Meu Caminho de Santiago

Bem, vocês podem se perguntar por que início o meu relato com esse título. Talvez, uma das maiores lições que aprendi no Caminho, e ao freqüentar a lista do grupo de Santiago, é perceber que ele é único. Parece paradoxal, porém, cada um de nós, peregrinos da vida, vivencia o caminho de modo muito particular. Cada peregrino vai a busca de Seu Caminho. Logo, as experiências que eu vivi e que relato, meus aprendizados, aquilo que se transmutou em mim, fizeram parte do Meu Caminho. Gostaria de partilhar com vocês tudo que vivenciei por lá. Aí está o paradoxo. Mas, também sei que muitos de vocês entrarão em sintonia comigo, com minhas experiências, e compartilharão de minhas emoções.

Sempre fico pensando o que gostaria de deixar de mensagem aos leitores desta página. Fico imaginando suas expectativas... seus anseios... suas ânsias de saber mais e mais sobre o Caminho. Não importa se você já fez o Caminho, se está para partir, ou se sonha em fazer o Caminho. Certamente, nesse sentido, todos nós que somos chamados ao Caminho de Santiago, temos algo em comum. Somos buscadores. Buscamos a nós mesmos. Por isso é que cada Caminho é único!

Saí de SP dia 27/06/99 e cheguei à Madri às 7h de 28/06. Não agüentava esperar mais nem um dia para iniciar "meu Caminho" e parti direto para Burgos, de trem. Chegando em Burgos, fui verificar o horário de ônibus p/ Santo Domingo de la Calzada. Por essas coisas que não se explicam no Caminho, entendi que só teria ônibus à noite. Decidi, então visitar Burgos c/ mochila e tudo.

Logo nas proximidades da catedral, percebi que ser mochileiro c/ concha no pescoço dava o maior ibope. Era minha primeira experiência como peregrina, e eu nem havia começado a andar ainda. Logo de cara, um peregrino de bicicleta se ofereceu p/ me fotografar ao lado de uma estátua, em bronze, de um peregrino sentado em frente à catedral. Preciso explicar que sou (era) meio tímida, mas aceitei a oferta.

Aí, resolvi visitar a Catedral. É um esplendor!!! Muito bonita mesmo. Para mim, recém chegada ao Caminho, era tanta emoção, que até parecia que eu estava chegando à Santiago.

Enquanto subia pela escadaria, toda comovida, alguns turistas começaram a me filmar. Eu não estava acostumada com isso, porém, achei graça da situação e continuei subindo.

Já na porta da Catedral, fui abordada por uma Sra. Tinha cerca de 60 anos. Dirigiu-se a mim com lágrimas nos olhos perguntando-me se eu era peregrina. Embora eu não soubesse falar espanhol, comecei a conversar com ela. Era uma ex-peregrina e estava visivelmente emociona em cruzar c/ outra peregrina.

Eu já havia escutado muitas estórias de como o povo espanhol admira os peregrinos. Mas, só muitos dias mais tarde, é que descobri que a emoção que vi nos olhos da minha amiga peregrina não era só de admiração. Naquele momento, ela partilhava e refazia comigo o Caminho de Santiago!!!

Entrei na igreja. Fui atraída pela capela de Cristo de Burgos. Meus olhos marearam. Eu não compreendia o que sentia. Uma enorme comoção. Ajoelhei-me. Preciso dizer que sou católica por herança, não por vocação. Mas sentia-me preenchida de muita devoção. Nesse momento, meu cantil caiu no chão. Para minha surpresa, uma irmã veio pegá-lo para mim. Sentou-se ao meu lado, reverenciando-me, olhando para mim com grande apreço e ofertando-me todo o seu carinho.

Começava a perceber que peregrinar não era só um ato de caminhar muitas léguas. Pelo simples fato de ser pretensa peregrina, carregava comigo uma "aura" especial - presenteada a mim e a todos que caminham à Santiago - "aura" essa que se destinava a atrair e partilhar a alegria de viver, com todos aqueles que se permitem ser "sonhadores" do mundo....

Muito do que vivenciei pelo Caminho foi permeado pelo mesmo amor e carinho que recebi, logo no meu primeiro dia de caminhada. Tive muitos momentos difíceis, como qualquer outro peregrino, mas mesmo nas horas de dor e desolação, a lição maior que aprendi foi deixar que o fluxo do amor universal transpassasse meu ser.

Durante todo o tempo, o que mais me chamava a atenção era a quantidade enorme de emoções pelas quais eu passei, melhor dizendo, é como se, ao caminhar, eu fosse somente feita de emoções. Parece que enquanto estava no Caminho, esse viver das experiências emocionais torna-se mais puro, vívido, intenso, pleno...

Minha percepção para o mundo natural tornou-se muito rica, captava as coisas ao meu redor sem nem ter que pensar. Eu costumava escrever, no meu diário, que o Caminho me tornava um ser extremamente preceptivo, que o caminhar estava diretamente ligado aos sentimentos e às impressões. É como se eu bebesse e respirasse impressões e emoções. O mais interessante era poder ter tudo isso sem contaminação. Ou seja, pude ter toda essa experiência sem interferência de meus conceitos e minhas manias. Era eu mesma, mas só que num outro estágio de captação e interação com o Mundo.

Outra coisa me marcou muito: eu estava completamente livre. Gozei uma liberdade excepcional. Não tinha horário para cumprir, não tinha com o que me preocupar, não tinha nenhum tipo de vínculo com o mundo moderno, no sentido de obrigações, preocupações, responsabilidades, mais do que isso, eu vivi livremente o livre arbítrio. Fazia o que o coração mandava, nem sequer percebendo que, habitualmente, quem determina nossa vida é a mente e seus conceitos.

Creio que Meu Caminho me proporcionou viver intensamente minha dimensão emocional, experimentar o âmago de minh'alma, sem sofrer as influências do corpo de valores incrustado na personalidade.

Em nenhum momento, essas experiências abalaram a perspectiva de retorno a vida "normal". O Caminho é o Caminho. A vida cotidiana é a vida cotidiana. Posso dizer que sou muito mais feliz, agora. Mas tudo o que vivi no Caminho está vivo dentro de mim. A mim pertence. Mais do que isso: sou eu!!!

Sinto que o Caminho vibra dentro de mim, tem vida própria, quer se expressar a todo instante, mas não encontro as palavras, não encontro um jeito de falar, não encontro uma forma, não encontro as setas deste caminho.

No Caminho eu estava aberta a tudo o quê se justapunha à minha vida, e procurava enxergar qual a lição que podia aprender daquela nova situação. Pois é, nessa minha busca sobre a forma de me expressar, encontrei inspiração em Drummond e, se me permitem, transcrevo abaixo sua

POESIA:
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

É assim que me sinto sobre o Caminho. A energia-poesia que encontrei por lá, inunda a minha vida inteira. Já não consigo mais viver essas constantes lembranças. O Caminho está cá dentro, inquieto, vivo, já faz parte de mim. Está pronto, no ponto... para quem queira compartilhar....

Com meu abraço fraterno
e que você possa ter um Caminho feliz

Carmen Lemos

Se aceitamos este amor com pureza e humildade, vamos entender que o AMOR
não é dar ou receber - é participar, é acreditar e agir.
Portanto, peregrinos, amem o Caminho!!
Ou melhor dizendo,
A M E M! ! ! A M E M! ! ! A M E M! ! !
 

Enviado por Carmen Lemos
 
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