Relatos Peregrinos

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Antônio Américo

Depoimento Caminho de Santiago

Sou Antônio Américo, de Brasília.

Fiz o caminho entre o dia 24 de Agosto e 20 de Setembro de 2000, pela Rota Aragonesa, saindo de Somport.

Queria agradecer a todos pela força que me foi dada antes do caminho, e durante também, pois nas horas mais difíceis eu lembrava das mensagens que eu recebia, do otimismo, e isso ajudava a seguir.

O caminho foi simplesmente maravilhoso!!!!!!!!!!!! Não preciso mentir e sei que todos que foram sabem que existem dificuldades. Dificuldades que me deram vontade de largar tudo e ir para uma praia desfrutar do resto das férias. Porém, algo nunca me deixou levar essas idéias adiante. Houveram momentos de desespero, de achar loucura, que não ia aguentar...só que esses momentos nunca foram nem de longe comparáveis aos momentos maravilhosos que a gente tem ao longo da caminhada. Eu me impressionei com a boa vontade, o companheirismo, a hospitalidade das pessoas. Eu nao falo só de hospitaleiros não, e sim dos próprios peregrinos, que dividem o dia a dia, as dores, a ansiedade, a alegria de chegar...

Aprendi muito comigo mesmo nesses dias (de caminhada mesmo foram 27 dias com uma média de 32 km, e o 28º só pra descer o Monte do Gozo - 4,5 km até a Catedral). Nunca imaginei que eu tinha tanto pra me ensinar.

Aprendi a reconhecer e lidar com algumas limitacões pessoais, muias saudades, dificuldades, dores, impaciência, intransigência e etc. Tive bolhas, tendinite no pé e no joelho direitos. Desobedeci muitas recomendacões para que eu parasse... Acho que se tivesse que andar mais uns dois dias não aguentaria se não parasse, mas mesmo com tudo isso, consegui chegar numa boa. Cheguei a Catedral com 3 amigos: um saiu daqui comigo, e os outros dois conhecemos por lá... Foi muito bom dividir esse momento com essas pessoas... um espanhol e um inglês... são pessoas bacanérrimas!

O mais intrigante é que eu sai daqui com um espirito muito individualista. Eu queria ter o MEU caminho... fui muito voltado pra mim mesmo, e criei certa resistência em dividir momentos com as pessoas que a mim se dirigiam... nunca desrespeitei ninguem, mas evitava caminhar com elas... em algum tempo (uns dois dias..hehehe), descobri que estava totalmente enganado. O caminho é feito de pessoas, pessoas maravilhosas que tem muito o que ensinar e aprender, o que conversar, discutir, trocar experiências, culturas e etc.

Foi muito bom eu ter deixado de lado o individualismo... muito bom mesmo. Às vezes creio que eu não dei o devido valor as pessoas que me rodeavam, e por coincidência ou não, sempre que isso acontecia eu levava um "tapa de luva" na cara pra deixar de ser debil. Só pra ilustrar isso, terça-feira feira, 19 de setrembro de 2000, eu estava parado no Monte do Gozo, tomando um café, onde tinha decidido pernoitar para chegar a Santiago pela manhã. Pouco depois chegou o inglês que eu tinha conhecido uns 5 dias antes e com quem eu tinha feito algumas refeicões e conversado muito. Ele estava angustiado, querendo descer o monte... ainda era dia, e a dúvida de descer ou não o consumia. Era perceptível a sua agonia. Tentávamos conversar e ele não se concentrava em nada, apenas na cidade abaixo (e pra piorar, da janela do quarto se via um torre da catedral...). Expliquei a ele meus motivos pessoais para ficar lah no monte... mas isso não era o bastante pra ele. Ele queria ir. Depois de muita duvida, ele olhou pra mim e pro meu amigo (que andou comigo) e disse: "Olha, decidi ficar... aqui eu tenho meus companheiros, meus amigos... lá eu não tenho ninguem pra dividir comigo..." Isso bateu como um soco na minha cara... e eu que não queria dividir nada com ninguem antes.........

Pra completar, depois que chegamos na Catedral, juntos, com Miguel, um espanhol também amigo nosso, o inglês nos abraçou e disse que a melhor decisão que ele tinha tomado foi a de ter prenoitado conosco para chegarmos a Santiago juntos... todos nós... que por tantas vezes nos encontamos e dividimos desayunos, comidas, cenas, risos e dores nos ultimos dias....

Foi muito bacana!
 

Enviado por Antônio Américo
 
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