Relatos Peregrinos

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Ana Cristina
Ana CristinaComeçamos o caminho à pé em Leon, até então, estavamos de carro. Saímos de Barcelona, seguimos para França até Lourdes, onde oficialmente iniciou-se o caminho.

Acho que o espírito de peregrinação mesmo, só se adquire quando começa o caminho a pé; por isso um dia, quero faze-lo desde o início, caminhando.

No 2º dia de caminhada já estava com meus pés machucados, com muitas dores e achava que não conseguiria chegar ao final. Quando chegamos ao Hospital de Órbigo, precisou que alguém nos alertasse sobre o excesso de peso das mochilas, de onde então foi despachado para Santiago 8,5 k de excesso de peso. Neste dia já estava caminhando de sandália ( papete), era insuportável calçar as botas. Chegando em Astorga, despachamos mais 4,2 k das mochilas.

Minha mochila pesava inicialmente cerca de 14 k! Foi esse o nosso grande erro, que poderia ser evitado se eu ouvisse tudo que me falavam a respeito do excesso de peso, de coisas que realmente são essenciais no caminho.

A partir daí, com mochilas pesando a metade, tudo parecia que seria mais fácil. Chegando em Rabanal do Caminho, pegamos uma chuva de graniso, encontramos o albergue lotado e eu sentia dores horríveis na articulação coxo-femural. No dia seguinte pegamos um taxi até Ponferrada, estava impossível caminhar. Depois de muitos analgésicos, a dor do quadril melhorou e fomos até Villa Franca del Bierzo, chuva novamente, dores novamente, precisei procurar o serviço médico por causa do quadril, foi me orientado repouso e mais antiinflamatório. Já tínhamos decidido pegar o ônibus no dia seguinte, quando cruzamos com uma brasileira chamada Giorgia, que fazia o caminho desde Roncesvales, tinha a energia de um anjo, e, com dores, no dia seguinte iniciamos com ela uma das etapas mais lindas do caminho: a subida para o Cebreiro! A partir daí, dores não significavam mais obstáculos, eram um desafio que transpúnhamos a cada passo. A chegada a Santiago à pé era tão certa e clara como a lua que estava sobre nossas cabeças no Cebreiro. Foi lá que Deus tocou o nosso espírito, através do colorido das flores, do perfume do caminho, do canto dos pássaros, da simpatia das pessoas que cruzávamos na subida, daquelas montanhas inteiras amarelas, rosadas, que você já deve ter tido oportunidade de ver na primavera.

Andamos com a Giorgia até Mélid, onde precisei procurar o serviço médico novamente, estava com tendinite. Os analgésicos que tomava já não estavam mais resolvendo, meu pé foi imobilisado, tive que fazer repouso.

Chegamos em santiago dia 18/05 (3 dias antes do previsto). Eu estava num estado de debilidade física, que quando eu avistei a catedral, subia as escadarias me ajoelhei sem sequer tirar a mochila das costas e só conseguia chorar. Foi uma emoção que não dá para definir, só quem já chegou àquela praça caminhando sabe entender. Eu que só vim caminhando desde Leon, não subi o morro até Ponferrada, não vi a Cruz de Ferro, já me sentia assim, imagine quem vem de Roncesvalles, de San Jean, fica 1 mês no caminho! Acho que é por isso que eu quero voltar!

Saí de Santiago dia 22/05, mas até hoje ainda estou fora do ar. Será que algum dia vou voltar ao normal? Acho que eu não quero. Só penso no dia que poderei fazer o caminho novamente, todo à pé.
 
Enviado por Ana Cristina
 
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