Relatos Peregrinos

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Ana Flávia

O Caminho

1ª Parada - Torres del Rio

Eu não tinha a intenção de relatar as minhas "impressões" sobre o Caminho. No entanto, levando-se em consideração que sequer tinha intenção de fazer o Caminho, aí estão elas...

Começamos, Carlos e eu, em SJPP no dia 23/04/2002. Apesar de eu ter jurado a mim mesma que jamais subiria os Pirineus, não mantive a promessa. Eu estava contagiada pelo entusiasmo e otimismo do Carlos; para ele tudo era fácil e divertido; parecia uma criança. Afinal, aquela era a viagem que ele sempre sonhara. Bem ao contrário de mim, que até alguns meses antes, nem sonhava que alguém pudesse ser louco o suficiente para fazer uma "caminhada" desta. Foi aí que eu descobri que me casei com um deles...

A subida é muito, mas muito difícil. Disto eu estava ciente. Mas aquilo é um absurdo! Eu também tinha consciência de que a paciência não era meu ponto forte e, só durante a interminável subida, ela acabou por quatro vezes. Tive vontade de chorar, mas meu orgulho não me deixava, pois era só o primeiro dia, e eu não iria entregar os pontos logo de cara. O vento estava gelado, as minhas botas "maravilhosas"(*) estavam me matando, o meu humor estava em frangalhos. Depois de 9 horas, conseguimos chegar ao final da subida. Era um misto de alívio com decepção; a visão da descida não era animadora (nesta altura do campeonato, me parecia mais difícil que a subida). Não teve jeito, sentei na beira da estrada e chorei copiosamente. Eu não agüentava dar um passo a mais. Estava sentindo todos os ossos dos pés; e eles só doíam quando eu pisava... O Carlos também teve vontade de chorar (e de me bater), quando descobriu que eu não estava logo atrás dele e teve que voltar para saber o que estava acontecendo. Depois de exaustivas 11 horas, chegamos a Roncesvalles. Nunca, uma cama de molas, tortas de tanto uso, foi tão confortável.

Carlos Alberto - Em 2004 eu faço o Aragonês

(*) Não tive nenhuma bolha, graças as minhas botas "maravilhosas". Falo assim, por que elas são realmente lindas! Depois de vários e vários modelos experimentados, achei uma que aliasse tecnologia e estética. Por conta de toda esta "beleza", não dei bola para as orientações do meu ortopedista e, muito menos, para as reclamações dos meus pés enquanto amaciava as botas. Nesse período, o máximo que conseguia caminhar com ela era 10 Km; depois disso, sentia que meus pés tinham passado por um triturador. Achava que isso melhoraria com o tempo e não comprei palmilhas de silicone, para tentar diminuir o impacto. Também, não experimentei caminhar de tênis; estava convencida de que o calçado ideal para aquele tipo de caminhada eram as botas e ponto final.

Foi exatamente isto que acabou com o meu caminho. Tive uma tendinite (no meu caso, o nome oficial é facite) por excesso de esforço, que causava toda aquela dor nos pés.

O caminho de Roncesvalles - Zubiri é extremamente agradável. E caminhar de papetes e meias, a princípio me pareceu estranho, mas depois de alguns quilômetros, também ficou agradável. O sofrimento do dia anterior tinha passado; não tinha sido uma experiência boa, mas já tinha acabado e eu tinha "vencido". Em Viscarret, conhecemos a Inês e reencontramos o Odilon (nos conhecemos em algum ponto dos Pirineus). Eles deram um sopro de alegria na minha caminhada. E na do Carlos também, pois afinal ele tinha alguém de bom humor para conversar.

Esfriando os pés na neve dos Pirineus

Nos dias que se seguiram, meu humor oscilava conforme a dor dos meus pés. Apesar de estar adorando a companhia, era muito complicado andar em grupo, pois, sabidamente, cada um tem seu ritmo. Ainda no Brasil, eu e o Carlos havíamos combinado que cada um faria seu caminho, no seu ritmo, parando quando e onde quisesse, sem se preocupar com o outro. Ledo engano! O Carlos andava mais devagar para me esperar e eu, quase que corria para acompanhá-lo. Por conta disso, ele teve bolhas nos pés e eu, uma lesão no tendão de aquiles.

Caminhamos, os quatro, juntos até Lorca. De lá, não teve jeito, segui de ônibus, enquanto eles terminaram o percurso até Estella. Decidimos ficar um dia em Estella, a fim de dar um descanso aos meus pés e para as bolhas do Carlos, que já estavam ficando feias. A despedida da Inês e do Odilon, para mim, foi muito dolorida. A "certeza" de não encontrá-los mais me deixou muito triste.

Última parada

De Estella a Los Arcos fui de ônibus, pois ainda não estava 100%. O Carlos foi à pé, feliz da vida, pois iria tomar vinho na fonte de Irache e conhecer o Pablito. Esperei por ele, na porta da igreja de Los Arcos, que por sinal, é muito bonita e muuuiito gelada. Decidi voltar a caminhar a partir de Los Arcos. O destino era Logroño. Era, pois em Torres Del Rio, eu já me arrastava de novo.

Foi aí, que eu encerrei pela 1ª vez o meu caminho. Eu não agüentava mais a dor. Mas era muito difícil assumir que não dava... Eu não podia frustrar a viagem do Carlos. Ele se preparou tanto, esperou tanto e agora, não vai poder terminar por minha causa? Isto não era justo. E, ainda, "o que os outros vão pensar de mim?" Eu não queria e não podia parar! Ele tentou me consolar, dizendo que o caminho está ali há mais de mil anos e que ali continuaria. E mais, que voltaria em 2004!

O Carlos me convenceu que deveríamos passear por alguns dias e depois recomeçaríamos o caminho a partir de Sarria. De Logroño, fomos a Burgos (que por sinal, é uma cidade maravilhosa), Leon (também, muito bonita), Lugo e Sarria.

Pirineus - Visão de Roncesvalles

De Sarria a Portomarin fomos bem, mas adivinhem quem voltou? Ela mesma, as minhas dores nos pés. Mas conseguimos chegar bem. No dia seguinte iríamos até Palas de Rei. O dia amanheceu escuro, o céu carregado, um frio de "cão" (em torno de 4 graus), mas lá fomos nós. Afinal, faltava pouco. No início fui bem, mas desta vez, além dos pés, o frio e a garoa fina acabaram comigo. Eu estava tão dura de frio, que não conseguia caminhar. Paramos em Castromayor para um chocolate quente e ali encerrei pela 2ª e última vez o caminho. Desta vez, foi sem choro, nem peso na consciência. Pelo contrário, fiquei muito aliviada. Tentei, mas infelizmente não deu.

Várias pessoas já disseram isto, mas descobri (a duras penas e mais algumas sessões de fisioterapia) que o Caminho não é para qualquer um; não se faz o Caminho "de alegre". Como em tudo na vida, é preciso acreditar naquilo que se faz.

Apesar de não ter conseguido terminar, valeu muito a pena ter tentado. Foi uma experiência e tanto. Hoje, até digo (só para mim, é claro!) que um dia eu volto.

Ana Flávia - Sorocaba/SP

 
Enviado por Carlos Alberto
 
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