Relatos Peregrinos

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Alexandre Dornelles

A saída

Dia 11/9: Brasília / Madri

O vôo para São Paulo sairia cedo, 7 horas. Assim, o alvorada foi em torno de 5h45. Tomamos um café rápido, café preto com pão francês (ainda que fossemos milionários o café da manhã aqui em casa seria esse mesmo), me vesti colocando parte da roupa que iria levar para o caminho, ou seja, saí de casa vestido de peregrino. A mochila já havia sido conferida na véspera. Pelo que sei, dá uma neura nas pessoas que acabam conferindo a mochila umas 300 vezes. Eu havia decidido, e cumpri, que iria fazer a mochila uma só vez e pronto.

De casa ao aeroporto são uns 10 a 15 minutos no máximo, gozado, não me lembro sobre o que conversamos no trajeto. Como saímos 6h30, chegamos em cima do laço. O responsável pela máquina que plastifica a bagagem ainda não tinha chegado e para não atrasar o voo, a solícita recepcionista da Tam embrulhou minha mochila com inúmeras voltas de fita gomada, que resultou num eficiente e horroroso invólucro, e a despachou, só iria vê-la de novo em Pamplona. Ridículo, mas desejei boa viagem para aquela que seria minha companheira inseparável nas próximas semanas.

O Felipe, bem do jeito dele, de despediu laconicamente e preferiu não ir ao embarque, ficou deitado no sofá da sala, olhando para o teto com os pés em cima do encosto (porque meninos de 14 anos tem pés tão sujos?). A Gabi foi e na hora que eu ia me despedir da Lia ela deu uma saída de fininho para "olhar uma vitrine", depois voltou e me despedi dela também - é difícil para um pai que está partindo para uma jornada de 750 km à pé num país do outro lado do oceano pedir juízo a filha, mas eu pedi. O olhar da Lia estava mais vivo do que nunca e seu semblante iluminado, parecia que era ela que estava partindo para fazer o Caminho de Santiago. Pela 1ª vez ficaria tanto tempo longe dessa turma. O momento do embarque foi, com certeza, um dos mais emocionantes da viagem. Entrei no salão de embarque com um gigantesco nó na garganta.

Viagem tranqüila, chego em São Paulo para uma longa espera, até as 16h, horário previsto para decolagem rumo a Pamplona. Compro uma revista de palavras cruzadas e fico esperando a Fátima chegar, ela sairia de Brasília as 9 horas e iria para a Espanha no mesmo vôo que eu. Fátima, uma ex-colega de ginásio que não via há exatos 30 anos, queria fazer o caminho desde os 14 anos, quando viu um filme sobre esse tema. Sua filha se chama Estela por causa da homônima cidade espanhola que os peregrinos cruzam na sua jornada.

Esperar e esperar, não havia mais nada a fazer até o momento do check in. Conscientemente ou não, pouco falamos sobre o caminho, como se fossemos fazer algo usual ou como fossemos assistir um filme, na realidade havia algo represado, uma apreensão, uma atitude de falsa casualidade, sei lá. O embarque foi feito sem atropelos, o avião decolou na hora marcada para as 9 horas de viagem. A intensa expectativa, bem maior do que eu poderia inicialmente supor, sobre o que iria encontrar ou passar no próximo mês, não me impediu de dormir a noite toda.

Estava a caminho, de que, ou para onde eu ainda não sabia!
 

Enviado por Alexandre Dornelles
 
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