Relatos Peregrinos

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Alexandre Dorneles
Quando o fogo aqueceu meu espírito mas não secou minhas meias
Dia 26/9/1999: Villalcazar de Sirga / Ledigos : 30 km


Acordamos ao som de Bach, gentileza de Jorge, o hospitaleiro basco.
Arrumamos as coisas da melhor maneira, pois as roupas não tinham secado, pus a mesma camisa do dia anterior e tomamos café. O holandês sairia mais tarde, de modo que Jean, Piloto e eu pusemos o pé na estrada às 8h20 para uma hora de caminhada introspectiva, induzida pela forte neblina e frio de 12 graus, que nos levou até Carrion de los Condes, 6 km adiante. Paramos para descansar na frente de uma igreja que por sinal estava fechada. Avaliamos que o tempo iria melhorar e retomamos a marcha.

Contrariando nossas otimistas previsões, o frio apertou e me agasalhei. Ainda teríamos 17 km pela frente sem nada de apoio. O caminho foi monótono, a paisagem monótona. Paramos para almoçar numa mesa de cimento em frente a um galpão. O cão de guarda, dentro do alambrado que cercava o galpão, latiu o tempo todo. Passou um peregrino, um dos 2 que vimos até aquele momento. Ele deu um "hola!" sem muito entusiasmo e passou direto.

Durante muito tempo andamos sem ver pessoa alguma por trilhas de terra, cruzando campos secos, com terra revolvida, de fazendas com suas casas de um tipo de adobe. Aos pouco fui me adiantando em relação aos 2 amigos sem perder, no entanto, o contato visual. Deitados no meio da trilha, em frente a uma pequena casa, aparentemente vazia, 3 enormes cachorros dormiam. Não teria a menor chance caso resolvessem se alimentar de peregrino... Na minha lenta e temerosa aproximação um deles levantou a cabeça em minha direção, fez algum tipo de avaliação e voltou a deitar. Concluí que estavam na hora da siesta e que se passasse calmamente não haveria problema. Um deles me acompanhou, olhar fixo, mas sem se levantar. Já de longe, vi que voltaram a dormir. Susto à toa, nossos demônios talvez não estejam mais representados pelos cachorros do Caminho.

Chegamos no final da tarde na pequena Ledigos, destino final deste trecho; parecia uma cidade fantasma. Era domingo, estávamos sem provisões. Achamos o albergue e a tienda, mas ambos estavam fechados. Tudo estava fechado no pueblo. Ninguém nas ruas, só nós.

Acabamos por localizar o bar da cidade. Num salão amplo, com todas as janelas fechadas, os 17 homens que lá estavam fumavam charuto assistindo um jogo de futebol. O ar era irrespirável, denso que parecia ser possível cortá-lo com uma faca. Apenas o dono do bar olhou para nós. Perguntamos se tinha algo para comer e a resposta foi óbvia: Não! Pedimos cada um uma cerveja e fomos beber ao ar livre.

Voltamos ao albergue e descobrimos que a chave do albergue ficava com o dono da casa vizinha. Depois de fazer muito barulho no portão, ele apareceu, pela cara devia estar dormindo, e nos deu a chave. O albergue era bom, fizemos uma boa faxina nas roupas e tomamos um bom banho. Éramos os únicos peregrinos hospedados. Se a tienda não abrisse, o jantar comunitário seria uma miséria: uma sopa de pacote, uns pedaços de legumes deixados no albergue pelos peregrinos de ontem e só - para os 3...

Os donos da tienda voltaram do passeio dominical pelo campo e nos atenderam. Compramos macarrão, ovos, pão, leite, queijo, salame, cebola e chocolate. O queijo, o pão e o salame estavam numa prateleira de madeira. Ela os alcançou com as mãos nuas, achou uma faca não sei onde, partiu um pedaço de cada, tudo medido no olho, e voltou o restante para debaixo do balcão. Na hora de pagar, a senhora abriu um sorriso, com algumas falhas bem visíveis, e, brandindo uma garrafa, disse que estávamos esquecendo o principal: o vinho, claro! Levamos duas garrafas.

Durante a preparação do jantar, Guido, o hospitaleiro, parecidissimo com o Rivelino, apareceu e acendeu o forno a lenha, o que deu uma boa aquecida no local, e nos nossos os pés, e nos permitiu montar um varal para secar as roupas. Oferecemos um pouco de vinho para ele, mas ele não aceitou. Insisti, pois ele mantinha o olhar cravado nas garrafas, e ele se juntou a nós. Ficamos conversando conversa de peregrino e bebendo vinho até que Guido se foi. Fizemos um belo jantar que consumiu tudo que compramos e consumimos tudo o que fizemos, menos o reservado para o café da manhã.

Às 20h30, o cansaço se manifestou. Piloto quis ir dormir, Jean foi escrever, e eu fiquei vendo o fogo consumir as 4 toras de lenha que ainda restavam. Os únicos sons eram o barulho do fogo e o chiado baixinho da madeira queimando. Gosto de olhar o fogo, acho meio hipinotizante. Repassei os acontecimentos do dia e, deliberadamente, não fiz o planejamento do dia seguinte. Passaram uns 30 ou 40 minutos, eu já estava bem aquecido, o sono chegou de vez, o vinho acabou e fui para o quarto dormir. Jean disse para não usar o saco de dormir pois a cama era boa, tinha lençol, cobertor, travesseiro com fronha. Se ele disse, não iria discutir...

Só no dia seguinte percebi que as meias do varal continuavam úmidas, apesar do fogão à lenha do Guido.
 

Enviado por Alexandre Dorneles
 
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