Relatos Peregrinos

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Alexandre Dorneles - 2
Que dia é hoje?

Para muita gente o dia de hoje pode não ter referência alguma. No entanto, para mim, segunda feira, dia 13 de março de 2000,  tem um significado especial, aliás bastante marcante em vários sentidos. Marca o início de algo que iniciou não sei quando e que, talvez, nem fim terá - deu para entender?

Foi justamente numa segunda feira, 13 de setembro de 1999, seis meses atrás que,  às 9 horas da manhã, eu comecei o meu Caminho de Santiago, em Saint Jean  Pied-Port para cruzar os Pirineus, sob chuva forte e muito vento, e chegar ao grande albergue de Roncesvalles, 27 km depois. Foi o dia da materialização de um sonho. Apesar do cansaço, foi um pouco difícil “largar” os pensamentos e dormir: o que viria pela frente - albergues, paisagens, quilômetros e o que mais? Depois desse primeiro dia maravilhoso, como serão os demais? Eu estou mesmo aqui?

Quem já foi sabe como é: todos os dias acabam sendo surpreendentes, seja pelo  que o próprio caminho oferece, seja porque você mesmo se surpreende. Eu estava num estado de concentração diferente do meu usual.  Estranho estado, que conduzia meus passos de forma certeira, determinada, sem problemas ou erros. Que me permitia acertar nas escolhas dos companheiros de marcha e na escolha de quando ir sozinho.  De sentir que, ao chegar em Santiago de Compostela, tendo feito o que tinha que ser feito, querer voltar para casa mesmo tendo mais uma semana para dar um rápido giro pela Espanha e Portugal.

Já contei a viagem e revi as fotos mais de um milhão de vezes, mas só hoje, com a emoção de quem descortinava algo novo e inspirador, abri o meu pequeno bloco onde fiz anotações diárias, normalmente depois de jantar um Menu del Peregrino por 1.000 ptas ou um macarrão de pacote feito na cozinha do próprio albergue.. É engraçado como, exceto pela minha letra horrível, a forma de escrever mudou ao longo do caminho. Reencontrar nas páginas do diário as pessoas que eu nunca havia visto  antes,  e que provavelmente nunca reveja, e que apesar disso sentir que estão ligadas por um laço bem forte,  traz à mente algumas   indagações como, por exemplo,  o que eu fui fazer lá e o que isso quer dizer? Como analisar o pós-caminho, a volta, e como colocar em sintonia a experiência adquirida no caminho com a nossa perspectiva de vida, onde sempre encontraremos desvios e bifurcações, mas nem sempre teremos a companheira e infalível presença das flechas amarelas?

Claro que ainda não tenho as respostas,  nem sei se algum dia virei a tê-las - quem as tem?!! Ainda não acredito que tudo aquilo se passou no mundo real, que eu estive lá, que eu já estou de volta, que já se passaram seis meses. Essa sensação aponta para uma questão importante, que eu já vi presente em uns tantos peregrinos: algo continua chamando, quem sabe não seja  o próprio caminho?
 

Enviado por Alexandre Dorneles
 
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