Diário da Peregrinação

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11º. dia - 19/09 - BURGOS ( terça-feira)
Luiz Felipe
Catedral de Burgos

Ontem novamente nada registrei, por falta de tempo. Vejamos.

Saímos - Fernando e eu - de Belorado às 06 h 40 min. . Fazia bastante frio . O tempo tem se alterado bastante rapidamente nos últimos 4/5 dias. Meu projeto era alternativo. Conforme as condições em que chegasse a San Juan de Ortega ( 24 km), prosseguiria ou não. Isto porque essa cidadezinha, embora possua uma importantíssima igreja (visita indispensável) tem péssimas condições de alojamento : o albergue é precário (com água fria) e não há qualquer outro meio de hospedagem.

Os planos de Fernando, entretanto, eram bem definidos. Já havia contratado um táxi que o buscaria em San Juan de Ortega (até lá faria o trajeto a pé) , e estava combinado com três espanhóis que rateariam com ele a despesa do táxi que os levaria até Burgos.

O dia estava muito bonito e a temperatura agradável. Minha disposição geral muito boa. Chegando a San Juan de Ortega às 12 h 30 min. e confirmando as precárias condições do local, resolvi seguir viagem até Burgos (mais 27 km). Ainda não havia saído quando chegaram os espanhóis que iriam dividir com Fernando o táxi, porém, um deles, por problemas no pé, ficara em Belorado. Isso fez com que surgisse uma vaga no táxi e, por conseqüência, a oferta de Fernando para que seguisse com eles. Oferta, entretanto, que agradeci e recusei, porque minha intenção é seguir o Caminho todo a pé, sem saltar qualquer etapa.

Às 14 horas, tendo saído o táxi com Fernando e seus companheiros, reiniciei viagem. Acreditava que trecho fosse totalmente plano. Ledo engano : deparei-me com uma forte subida de uma grande colina, cheia de pedras, cuja superação exigiu um bom esforço. Após diversas paradas em localidades intermediárias, por volta das 18 h alcancei os arrabaldes de Burgos. Entrei em uma modesta lanchonete de beira de estrada, onde não havia nenhum outro cliente. Pedi um "bocadillo" e uma caña (chopp) . Estava alí, descansando e lanchando, quando entra no local um caminhoneiro e, vendo-me alí, indaga se sou peregrino do Brasil (viu a bandeirinha que tenho na mochila) . Disse que sim. Perguntou então pela minha CONCHA, ao que lhe disse que a tinha perdido uns dias atrás (esquecera de novo, desta vez na hospedaria das freiras de Santo Domingo de La Calzada). Saiu então da lanchonete, foi ao caminhão e de lá retornou com uma enorme concha com a qual me presenteou, dizendo que com ela fizera, dois anos antes, o Caminho, de bicicleta. Achei o fato incrível, como se fosse uma condecoração que Santiago me conferia por haver enfrentado aquela jornada árdua (51 km) e resistido à tentação de aceitar carona no táxi ! Isso me deu novo ânimo para fazer frente aos derradeiros quilômetros até o centro de Burgos ( faltavam ainda 9 km), onde, depois de me perder do Caminho, cheguei às 20 hs. e 30 min. em um hotel simples, mas muito simpático e extremamente bem localizado (a duas quadras da Catedral), em pleno centro histórico de Burgos, o qual descobri por acaso, sem perguntar para ninguém.

A forma como enfrentei esses 51 km, em 14 h de caminhada, subindo e descendo duas fortes elevações (uma delas os Montes de Oca) redobraram minha confiança de que posso superar as etapas que faltam, uma vez que nenhuma delas apresenta essa extensão.

Permaneci em Burgos um dia, como programado, para conhecer melhor a cidade. Portanto, hoje (19.09) não percorri o Caminho .

Saí para passear em Burgos, que é uma cidade realmente belíssima, embora não muito grande. Sua catedral gótica é uma construção que supera a mais rica imaginação e qualquer capacidade de descrição. Em tamanho é a terceira da Espanha, só perdendo para a de Sevilha e a de Toledo. Lá está entre inúmeros túmulos de reis, o de El Cid e de sua esposa, bem no centro da Catedral.

Na Catedral uma outra surpresa me aguardava. É que reencontro Ronald (que havia ficado em Santo Domingo de La Calzada), o qual, dizendo que tinha uma encomenda para mim, entrega-me a CONCHA que eu havia esquecido naquela cidade, na hospedaria onde também havia pernoitado. As freiras, sabendo que ambos éramos brasileiros, deram a ele a concha, com a missão de entregá-la a mim, se me achasse ( o que, com efeito, foi outra enorme coincidência...) . Agora, portanto, estou com duas conchas (uma delas duas vezes perdida e duas vezes reencontrada). Tenho que fazer por merecê-las.

A temperatura baixou bastante, o que me obrigou a comprar um pulôver.

 
Enviado por Luiz Felipe
 
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