Diário de Eduardo Valente

Convide a um amigo a visitar este site
 
 
Pedalada Número Sete - O Dia do Bom Humor
Eduardo Valente

O Caminho das Estrelas e o Caminho do Vento

De Burgos até Castrojeriz, num trajeto de 44,05 km, numa média de 13,6 km/h, com variação de altitudes desde 800 m a 900 m.

A última coisa que queríamos era chuva de novo! Tomamos o café no hotel e ainda meio rssabiados, vimos que fazia um pouco de sol lá fora, sol este que foi embora rapidinho, só prá lembrar a gente de que existia.

Lubrificamos a corrente, porque quase toda a lubrificação tinha ido embora depois de tanta água e estrada, tiramos algumas fotos pelas alamedas desfolhadas pelo inverno, mas ainda assim bonitas e rumamos às dez e meia para Castrojeriz, a próxima parada.

Como precisávamos carimbar nossa credencial, passamos pelo albergue de peregrinos e qual não foi nossa decepção ao ver que havia passado da hora do carimbo. E pior, a gente podia ter carimbado na própria catedral... Voltar a gente não ia, então ficamos sem o carimbo de Burgos!

Decidimos seguir hoje pelo caminho, que provavelmente seria plano e sem muitas dificuldades. Como de praxe, algumas delas logo apareceram: alguns tratores haviam passado pelo caminho quando ele estava um barro só, e tinham deixado muitas poças d'água repartindo espaço por terrenos difíceis de andar com bicicleta.

Como a pedalada era curta, e não parecia que iria chover, a gente contornava estes trajetos pela margem, pela grama, numa velocidade baixa, sem stress. Depois do dia anterior, tudo era válido para termos um pouquinho de bom humor. No sétimo dia de pedalada, o corpo já entendeu que precisa acordar cedo, preparar a bike e pedalar cerca de quatro horas até a próxima cidade. Já estávamos aclimatados ao Caminho.

E a gente subia a meseta, andava, descia a meseta, passava por um vilarejo, subia outra meseta, andava, descia, mais um vilarejo e foi assim até Hornillos del Camino. Na descida até esta vila, o Diniz vibrava com seu downhill com alforges! Nem parecia o mesmo Diniz de dias atrás...

Prá completar, cruzamos com mais brasileiros, estes do nordeste e chegamos em Hornillos junto com o sol! Paramos num restaurante e comemos o menu do peregrino com gosto. Ninguém mais aguentava somente bocadillos na hora do almoço... Carimbamos nossa credencial lá mesmo!

Quando estávamos para sair, os brasileiros chegaram e fizemos uma festa, tirando fotos com a bandeira do Brasil, junto com o Cláudio e o Hélder que pararam lá também. Restabelecidos e com previsão de sol para o resto do dia, retomamos a pedalada.

Em mais de um lugar, cruzamos com rebanhos de ovelhas, que atravessavam a estrada com seus pastores. Em momentos, elas realmente fechavam o trânsito e achavam que o nosso pneu devia ser um petisco gostoso. Salvava-nos o Diniz e sua buzina, que ele colocara na bike e fazia as ovelhinhas pularem para fora da estrada. Diversão garantida, todo mundo imitando ovelha e caindo na gargalhada!

Passamos por Arroyo San Bol e Hontanas e então pegamos uma bela estradinha, que nos levaria até Castrojeriz. E põe bela nisto! Acompanhava-nos campos com flores, bosques de cores lindas e que a luz vespertina do sol fazia mais belas. Uma suave descida, passando pelo convento de San Antón, da ordem dos antonianos, do século XIV. A estrada passa por dentro de seus arcos góticos e logo após revela a cidade de Castrojeriz ao longe, com seu castelo romano de 400 a.C. destruído e a Iglesia de Nuesta Señora del Manzado, com que a implorar por fotos, num enquadramento belíssimo. Implorou tanto que ganhou!

Chegamos em Castrojeriz e num barzinho, o La Taberna, vimos muitas bandeiras brasileiras e tivemos uma acolhida que não estávamos acostumados! Eles se sentiam honrados de receberem peregrinos e principalmente peregrinos brasileiros! Ofereceram por conta da casa uma dose de pisco e deram uma mostra do que é Castrojeriz: uma cidade de seiscentos habitantes com temperatura bem mais fria que Burgos mas com coração dos mais quentes do Caminho.

Acomodamo-nos no hotel e passamos ao reconhecimento da cidade. Já era mais de cinco horas da tarde e um vento encanado pelas vielas estreitas doía. Visitamos a igreja e o pároco nos informou que já viveram mais de 18000 pessoas naquela cidade e houvera dez igrejas lá. Hoje, a cidade agoniza e vê no Caminho uma forma de sobrevida. Pelo coração daquelas pessoas, bem que merecem esta revitalização... Uma das igrejas, a de San Juan, mereceu uma atenção especial e uma foto, pelo seu pentagrama invertido em formato de vitral.

Entramos no bar El Mesón para nos aquecer e ficamos assistindo um pouco de tourada pela televisão. Esporte bárbaro este, no qual o touro não tem a mínima chance... Pode ser tradicional, pode ser até bonito plasticamente o toureiro escapar por um triz das chifradas que o touro a todo custo quer lhe dar, mas seria mais interessante se pelo menos de vez em quando colocassem cinco touros e um toureiro na arena, só prá ele se sentir do lado oposto...

À noite, jantamos ali mesmo, com comida boa e farta! Nos demoramos bastante no jantar, que estava gostoso e para coroarmos aquele dia do bom humor, de pedalada curta e lugares bonitos!

Galinheiro dentro da igreja de Santo Domingo

 

Enviado por Eduardo Valente. Visite o seu site em TerraValente.
 
Parte integrante do site Caminho de Santiago de Compostela - O Portal Peregrino
Copyright  1996-2003