Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Seis - Rompepiernas e Rompeniervos
Eduardo Valente

O Pedal e o Caminho

De Santo Domingo de La Calzada até Burgos, num trajeto de 68,11 km, numa média de 14,6 km/h, com variação de altitudes desde 600 m a 1100 m.

Até que o dia prometia um pouquinho de sol e quando eu acordei, as meninas já tinham levantado, arrumado as coisas e sumido. Acho que não queriam chegar tão tarde em Burgos, nosso destino do dia, como nos dias anteriores. E é claro, queriam fazer tudo pela trilha...

Eu precisava enviar alguns postais e como o correio abriria às nove, corri até lá e depois de enviar os mesmos, vi que todo mundo já estava pronto para partir. Tinha sido combinado sair às dez, mas eram por volta de nove e meia e todo mundo já saindo...

De repente, me vi prá trás e como não entendera direito a cidade que o Paulinho combinara para a parada estratégica e ainda não tinha comigo um talkabout, resolvi buscar na perna compensar o atraso. Afundei o pedal e vamos nós! Quer dizer... vou eu!

Andei numa média de 25 a 30 km/h, sabendo que o pessoal estaria entre 15 e 20. Contando que pelo menos o Diniz estaria pela estrada e não pelo caminho, achei que com quinze minutos de pedalada forte eu já os avistaria, mas cheguei em Redecilla del Camino e só encontrei o Tico e o Teco, quer dizer, o Hélder e o Cláudio, que vinham pela estrada. Perguntei para o Hélder se tinha visto o meu pessoal e nada. Das duas uma, ou todos tinham vindo pela trilha (o que eu duvidava) ou na saída da cidade, eles tomaram um caminho diferente do meu e saí na frente na carretera...

Dez minutos depois, aparecem a Vânia e a Maria vindas da trilha e logo após passam o Paulo, a Malena e o Diniz, pela carretera. Segunda hipótese confirmada, segui junto com os três, deixando as duas em Redecilla, junto com os dois brasileiros.

A cidade para a parada era Villafranca Montes de Oca, ainda bem distante. O tempo mudava rapidamente e sabíamos que a jornada de quase setenta quilômetros seria tudo menos fácil. Só não esperávamos tanta dificuldade...

O tempo foi piorando, subidas e descidas longas passando por cidades como Villamayor del Rio, Belorado, Espinosa del Campo. Nas subidas, tudo esquentava. Com o peso extra dos alforges e com tanta roupa para se proteger do frio e da chuva, a temperatura elevava-se e rapidamente começávamos a suar em bicas. No entanto, se tirássemos alguma peça, a descida seguinte fazia-nos arrepender amargamente, porque a sensação de congelamento era forte.

Chegamos em Montes de Oca por volta de meio dia e meia, já com garoa mais forte e comemos alguma coisa num barzinho de beira de estrada. Com o tempo chegaram o Paulinho, o Diniz e o João. Todos ávidos por algo quente, que quebrasse um pouco o frio que sentiam.

Nos tempos medievais, Montes de Oca era um lugar temido pelos peregrinos, por causa dos assaltantes que se escondiam nesta região. Hoje, representa somente mais uma cidadezinha que, para ciclistas, serve como ponto de encontro. A não ser que você seja como a Vânia e a Maria que o que interessa é barro! Aí é prato cheio...

O corpo já esfriara, mas faltavam uns bons quilômetros até Burgos. Faltava também uma grande subida até o Alto de la Pedraja. O rompepiernas continuava e minava nossa resistência e nossa média de velocidade. A garoa já não tão fina começava a avisar que ia aumentar. O céu era de um cinza monótono sem nenhum prenúncio de melhora.

E lá vai o comboio subindo a serra... O Paulo xingava a subida, a Malena tremia de frio e eu fazia as duas coisas. A gente sabia que era a última grande subida do dia, mas parecia que nunca ia acabar. O que a gente não percebia, devido ao esforço, é que a temperatura caíra ainda mais, para cerca de cinco graus.

Finalmente, fim de subida! Estávamos no Alto de La Pedraja! Faltava agora simplesmente descer até Burgos!

Eu disse simplesmente??? A garoa agora era chuva e ameaçava virar tempestade. Com o vento da descida, a sensação negativava e sugava o resto de calor que a gente tinha no corpo. Quando passamos por San Juan de Ortega, onde existe um monastério muito bonito e onde se diz que há o milagre da luz, além da tortilla mais gostosa de todo o Caminho (assim o dizem...), o frio já era tão grande que nos limitamos a olhar para o lado e dar um aceno. Todos os nossos esforços estavam em chegar num lugar seco e aquecido.

Mais cidadezinhas: Atapuerca, com seus sítios pré-históricos, Cardeñuela, Orbaneja, Villafria e a sensação de amortecimento imperava. Parecia que os quilômetros restantes dobravam de tamanho e Burgos não chegaria nunca!

De repente, uma placa: Burgos a nove quilômetros. Só nove? Ainda tem nove? A gente tremia e pedalava, pedalava e tremia. Ninguém queria parar para não esfriar mais ainda. Chegando em Burgos, cidade grande, seguimos a rua, com as indicações dos hotéis e o nosso, o hotel España estava contido sempre na indicação "otros hoteles". Quando finalmente chegamos ao hotel o João, que passara pela gente correndo que nem um maluco, desesperado por calor, já tinha reservado quatro quartos. Cheguei, peguei a chave do meu, que ia repartir com o Paulinho (que não tinha chegado ainda...) e corri para lá tentar me aquecer.

Tudo estava molhado, ou melhor ensopado! Dos alforges aos meus ossos, só se salvaram algumas peças de roupa protegidas por sacos plásticos. Abri a água no mais quente na banheira e entrei. Passaram-se quase quinze minutos para que a sensação de amortecimento do corpo inteiro parasse. Agora, seco e aquecido, esperava os demais para conhecermos a grande Burgos. Mesmo debaixo de chuva.

Passeei um pouco com o Paulo e a Malena pelo centro histórico e entramos na famosa Catedral de Burgos, a segunda mais importante da Europa no estilo gótico. Apesar das obras de restauração, o conjunto é imponente e quase dá dor no pescoço de tanto que a gente olha prá cima, maravilhado com tantos vitrais e esculturas. Ao lado da Catedral, um artista dava um show utilizando copos de cristal com água. Jovens bailavam com este som e Burgos não se importava nem um pouquinho com o tremendo frio que para nós, brasileiros, era impiedoso.

Pegamos um táxi e fomos até o Decathlon de Burgos. Eu queria simplesmente comprar umas meias mais quentes, já que tinha trazido o tênis para as pedaladas e depois ficava de papete com meias. Meu pé estava chorando de frio e resolvi acabar com aquilo naquela loja.

Compras feitas, voltamos para a cidade e procuramos um restaurante para jantar e encontramos novamente o Paulo Gaúcho, que pelo jeito sofrera ainda mais que a gente. Ele decidira que ia ficar mais um dia em Burgos, para se restabelecer. Convidamos para jantar junto conosco, convite prontamente aceito.

Burgos foi durante séculos a cidade mais importante da Espanha e possui um aspecto cosmopolita. Entrada de nova província, do mesmo nome, mudamos também de junta, agora de León y Castilla. Deixávamos para trás as montanhas e teríamos alguns dias calmos, pelas mesetas, formações estas que fazem a gente subir um pouquinho, andar muito no plano e de repente se deparar com o próximo vilarejo, para repetir logo após o mesmo jogo. Terreno difícil para andarilhos, mas tranquilo para ciclistas.

As meninas, que para variar chegaram bem depois, quase tiveram uma baixa: a Vânia sofrera bastante com a trilha, tinha passado muito frio e tinha o joelho doendo bastante. Era preocupante, porque tínhamos muitos quilômetros pela frente. Na qualidade de médicos de ocasião, todos recomendaram repouso total no tempo disponível e tentaram dissuadí-la de seguir pela trilha no dia seguinte.

Como o frio continuava e a garoinha não arredava o pé, voltamos para o calor do hotel e dormimos, tentando nos recuperar de mais uma pedalada difícil.

Alameda em Burgos


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