Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Quatro - Vinho, Figos, Água Fresca e Amor
Eduardo Valente
Catedral de Astorga
De Estella até Logroño, num trajeto de 52,24 km, numa média de 14,6 km/h, com variação de altitudes desde 300 m a 400 m.

Acordei já preocupado com meu joelho esquerdo, que me incomodava com uma dorzinha chata, resultado do banco baixo e do esforço excessivo do dia anterior. A chuva continuava a cair e o frio permanecia. Provavelmente não pedalaríamos com temperaturas acima de dez graus hoje...

Fui com o Paulinho num barzinho e comemos alguma coisa. Dez e meia estávamos saindo com destino a Logroño. Enquanto arrumávamos as coisas, o Mário apareceu e demos de presente prá ele uma camiseta do Sampa Bikers, que ele prometeu guardar com carinho.

Decidido a me poupar um pouco, queria seguir com o Paulo e a Malena, mas como eles não iriam passar por Irache, lá vou eu com o João e o Paulinho de novo... Carimbamos a credencial na oficina de turismo e pedal na estrada!

Menos de cinco quilômetros de Estella está o Monastério de Irache, com um presente inusitado e muito celebrado por todo peregrino que passa por ali: uma fonte de vinho! Chegamos com garoa e mesmo assim, enchi meia caramanhola de vinho e tomei ali mesmo, para celebrar o quarto dia de pedalada. Nesta fonte, liam-se os dizeres: A beber sin abusar, te invitamos con agrado. Para poderllo llevar, el vino ha de ser comprado. Depois de beber o vinho na fonte em formato de concha e espada, recarreguei as caramanholas desta vez com água, que tinha um gosto meio barrento, bem pior que a qualidade do vinho ao lado...

Saindo dali, vimos que o resto da trilha estava bem ruim, e que colocar as bicicletas ali era temerário. Decidimos então continuar pela carretera, decisão esta mais que sábia!

Em Los Arcos, nos encontramos com o Diniz, o Paulo e a Malena, num barzinho de esquina, onde tomamos um café para esquentar. Havia peregrinos americanos e ingleses lá e conversamos um pouquinho, desejando mútuo bom caminho. Nisto chegou outro brasileiro, o Paulo Gaúcho, que tinha resolvido seguir pela trilha e tinha sua bike num estado lastimável! Com certeza, o peso da bicicleta era menor que o do barro acumulado nela... Ele disse que ia procurar algum lugar para lavá-la e a gente aproveitou para registrar o momento de tão deplorável bike...

Ainda em Los Arcos, visitamos uma igreja muito bonita, a Iglesia de Santa Maria, do século XVI. E de lá continuamos a pedalada tranquila daquele dia. Passamos por Torres del Rio, onde a Laurence iria ficar como hospitaleira durante um tempo, depois da chegada em Santiago e umas pedaladas por Portugal. É um tiquinho de cidade, com quase nada a não ser uma igreja parecida com Eunate e um albergue de peregrinos com uma grande concha de pedra na parede da frente.

Seguimos em frente e fomos para Viana, onde de repente começou a fazer muito frio. Pelo jeito, tinha mais chuva chegando... Somente o tempo de tirar umas fotos, comer uns chocolates, recarregar as caramanholas e continuamos para Logroño.

Já próximo ao nosso destino daquele dia, o Caminho se torna de repente uma ciclovia! E por vários quilômetros, pedalamos numa estrada avermelhada, com grande facilidade! Quando já se avistava Logroño, parada para um dos mais importantes carimbos na nossa credencial: a de Dona Felisa, que com seus oitenta e tantos anos recebe os peregrinos com "higos, agua fresca y amor". A gente não comeu figo nenhum, mas depois de esperar um pouquinho, lá vem ela de sua siesta, curvada com o peso da idade, preparando o carimbo e disparando a contar sobre sua vida de hospitaleira, de quando quase não havia peregrinos, de como este ano está mais frio que os outros. Ouvimos com sede, não de figos e água fresca, mas do amor que transbordava da bondosa anciã.

Chegando a Logroño, já na província de La Rioja, abandonando as terras navarras, percebe-se que se trata de uma grande cidade, muito bonita por sinal. Passamos pela ponte de entrada da cidade, sobre o rio Ebro e procuramos um hotel para ficarmos.

Rapidamente, achamos um bom lugar. Por sermos ciclistas, achávamos melhor ficarmos em hotéis e hostais ao invés de ocupar o local de peregrinos a pé nos refúgios, em estado visivelmente pior que o nosso. Além disso, o menor tempo de percurso nos possibilitava gastar o mesmo que um peregrino a pé no total e ficar em hospedagens bem melhores, sem os inconvenientes de ter que voltar determinado horário e com muito mais conforto.

Instalado, fui passear por Logroño, já que o solzinho da tarde assim o permitia. Com o Diniz, fomos a um McDonalds saciar nossa lumbriga por junkie food! No mesmo Mac, estavam o Helder e o Cláudio, uma dupla de brasileiros ciclistas que faziam o mesmo roteiro nosso. O Cláudio, numa das coincidências inexplicáveis que o Caminho nos reserva, nascera no mesmo dia que eu, dia 25 de maio de 1971. Eu era mais velho por questão de horas e chegaríamos exatamente com a mesma idade num destino tão distante como Santiago de Compostela. Legal prá caramba, meu!

Como o Diniz queria mais era dormir, perambulei sozinho pela cidade, comprei postais para enviar a tanta gente a quem tinha prometido, fotografei a catedral, a praça, onde muitas crianças brincavam despreocupadas (igualzinho ao meu país, pensei...), desci até um parque beirando o rio, onde muita gente com cães passeavam, alguns malabaristas ensaiavam seus números, andei pelas vielas e comprei finalmente minha concha de peregrino, depois de um longo bate-papo com o vendedor. Gente boa aquela...

Encontrei-me na praça central com dois brasileiros, saindo de uma farmácia. De cara, era evidente que eram meus compatriotas, mas passei do lado e brinquei: "Tem que ser brasileiro...". Ela, mancando, sorriu e vendo meu estado, perguntou: "Você não é peregrino, né?". Diante de minha afirmativa, os dois não queriam acreditar, pois estavam com bolhas nos pés e moídos de cansaço. Quando revelei que vinha de bicicleta, as dúvidas terminaram. Mais alguns minutos de conversa e despedi-me, deixando-os com suas bolhas e anseios pedestres. Gente louca esta, viu? Caminhando tanto...

As meninas é que não chegavam de novo. Foram chegar à noite, pois teimaram em fazer pela trilha o tempo inteiro e a corrente da Maria acabou por quebrar. O comentário do Paulinho foi mordaz: "Espero que você tenha aproveitado bem o curso de manutenção de bicicletas do Sampa...". Elas estavam tão cansadas que nem deram muita bola...

Jantamos numa cantina italiana: Pizza, Pasta e Basta. A noite estava agradável e passeamos pela praça, tiramos fotos, demos muitas risadas. Diante da beleza de uma cidade como Logroño, e a saída da terra do "no es possible", todos estavam com humor melhor. Voltamos para o hotel e já estava quatro a zero prá gente, sem nenhum gol contra até agora!

Saint Jean Pied-de-Port:
João,Malena,Eduardo,Laurence e Vânia
Diniz,Paulinho e Paulo Sérgio


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