Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Dois - Neve?!?
Eduardo Valente
Castillo de los Templarios, em Ponferrada
De Roncesvalles até Pamplona, num trajeto de 48,51 km, numa média de 17,5 km/h, com variação de altitudes desde 400 m a 1000 m.

Durante a noite, a Maria entrou no quarto avisando: está nevando! Sinceramente, eu achei estar tendo um pesadelo... E preferia que fosse só isto mesmo...

Mas pela manhã, aquela coisa branca caindo lentamente como uma garoa de espuma fez a gente perceber que o dia não ia ser tão fácil, talvez até mais difícil que o anterior!

Acordei meio a contragosto, com uma fome do cão e qual não foi a surpresa de ser informado que deveríamos ter reservado o desayuno com antecedência! Armamos tamanho barraco que o dono do lugar não teve escapatória e serviu o café prá gente. Neste meio tempo, dois alemães mais que espertos se meteram entre a gente e foram sentando e tomando café. O dono achava que eles eram do grupo de oito e não queria servir para dois de nós. Outro barraco armado e tomamos o café. Para quem queria mais manteiga, tinha que negociar a troca de uma geléia por manteiga, num racionamento maluco. Enfim, tomamos o café e preparamos as bikes para a segunda pedalada.

Com a neve caindo e todo mundo com frio, fomos carimbar a credencial. Toda a roupa que tínhamos e que poderia nos aquecer foi usada e era meio com desalento e apreensão que iniciamos a pedalar.

Tínhamos medo que a neve caindo, se tornasse gelo e como era uma grande descida até Pamplona, poderíamos não conseguir parar em cima das bikes caso isto acontecesse. Com sorte, foi só descer cerca de cem metros de altitude e a neve foi substituída por uma garoa fina. E toca a descer! O vento doía nas mãos e o rosto já estava machucado pela neve, que queimava.

Passamos por Burguete, por Espinal, uma subidinha até o Alto de Mezkiritz, mais descida, passamos por Biscarreta, Lintzoain uma cidade chamada Erro (o que rendeu piadinhas a dar com pau!) e uma grande subida até o Alto do Erro.

Como o tempo melhorara um pouco, o esforço proporcionado pela subida fazia a gente suar muito. Quando cheguei no Alto do Erro, minha vontade era de jogar tudo fora e ficar só de bermuda, mas logo em seguida a temperatura ambiente me mostrou que deveria ir devagar com o calor, que estava frio prá valer! Tirei só o gorro e a luvas de lã que eu tinha por baixo da de ciclista.

Depois disso, só descida! Uma estrada sinuosa que embalava e uma velocidade média de 35, 40 km/h era perfeitamente possível sem muito esforço. Passamos então por uma ponte sobre o rio Arga, em Zubiri, a Puente de la Rabia, ou ponte da raiva, conhecida assim porque achava-se que se fizessem os animais darem três voltas em seus pilares, estes se curariam da raiva. Hoje os carros passam tão depressa que não têm mais tempo para tais crendices, o que é uma pena...

Passamos ainda por uma fábrica de magnesita em Larrasoaña e começamos a ver muitos cicclistas que vinham de Pamplona e com suas bicicletas speed pedalavam pela carretera. Alguns até desejavam bom caminho para nós, mas eram minoria. Via-se bastante pescadores pelo rio Arga, que acompanhava de perto o caminho.
Na entrada de Pamplona paramos num posto de gasolina para esperar o resto do pessoal e alguns de nós usaram uma mangueira d'água para tirarem o grosso da sujeira das bikes. A minha já começava a fazer um barulho de falta de óleo, fruto de barro e chuva.

Chegamos em Pamplona por volta das duas da tarde, e começamos a procurar local para pousada. Antes fomos carimbar as credenciais no albergue e uma longa escadinha circular nos levava para o balcão onde e carimbava. O albergue estava lotado, e então procuramos alternativas. O Paulo e a Malena ficaram em um hotel, o Paulinho, o João e o Diniz ficaram em outro e eu, a Vânia e a Maria ficamos numa pensão. Bem fraquinha por sinal, mas tinha banho quente e lugar para deixar as bicicletas.

De banho tomado, procuramos pelo radinho (o TalkAbout, da Motorola, uma verdadeira mão-na-roda...) o pessoal, mas como não conseguíamos contatar ninguém, comemos alguma coisa num café, pegamos um ônibus e fomos até uma mega-loja de esportes, o Decathlon. Lá, aproveitei prá comprar mais agasalho, uma luvas comprida, "pernitos" - uma espécie de meia-calça para ciclistas no frio, e otras cositas más. A garoa nos acompanhava e o frio não dava descanso.

Pamplona é a primeira grande cidade que encontramos no caminho. As pessoas, de traços franceses, ainda guardam a aura navarra em si. Em terras assoladas pelo ETA, é bom sempre tomar cuidado com o que se diz, e com o que se faz. É em Pamplona que se tem a famosa corrida de touros, na festa de San Fermin, em julho. Ainda bem que era finzinho de abril e nenhum bicho cruzou com a gente nas ruelas estreitas da cidade...

Quando vimos uma grande aglomeração no nosso caminho, na hora imaginamos ter algo a ver com o ETA, e pusemo-nos a contorná-la e controlar a Vânia, que queria a todo custo entrar na baderna. Depois é que soubemos que era o time de handebol (balomano) de Pamplona que tinha sido campeão e seus jogadores estavam tendo a devida acolhida. Menos mal, menos mal.

Já era noite e a gente estava com o estômago grudado nas costas. Conseguimos falar com o resto do pessoal e rumamos para um restaurante, que foi bem complicado de achar, porque as indicações que nos davam da localização da praça Príncipe de Viana nos faziam ficar cada vez mais perdidos. Um bom tempo depois chegamos e jantamos a comida contada que se serve por aquela região.

Hora de dormir, voltamos prá pensão, subimos as bikes até uma lavanderia no primeiro andar, porque o dono achou que ela poderiam ser roubadas ali e dormimos num colchão excessivamente macio, num quarto sem calefação. Não era o frio que nos fazia querer a calefação, mas o fato de poder secar as roupas no calefador. Nada feito e as roupas permaneceram úmidas...

Bicicleta de gaúcho macho é assim...


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