Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Um - Pirineus
Eduardo Valente
O Pedal e o Caminho
De Saint Jean Pied de Port até Roncesvalles, num trajeto de 31,25 km, numa média de 6.6 km/h, com variação de altitudes desde 160 m a 1500 m. De Valcarlos a Saint Jean são mais 12 km.

A gente tinha chegado no dia anterior, 28 de abril, na cidade de Valcarlos, na fronteira espanhola com a França, num dia de sol. A nossa trupe era composta de oito ciclistas, o Paulo de Tarso (Paulinho), presidente do SampaBikers e nosso guia, a Laurence Jullien (Maria), empresária em São Paulo, que fazia o Caminho pela terceira vez, sendo a segunda de bike, o João Legaspe, de Campinas, onde tem uma estamparia, a Campisa, a Vânia (Fox), bancária paulistana, que era estreante no Caminho como metade de nós, o casal Paulo Sérgio Valle e Malena, cariocas já na terceira vez peregrinando, o Diniz, vice presidente de finanças da Andrade Gutierres, cuja meta inicial era simplesmente chegar a Santiago e eu, Eduardo Valente, engenheiro de computação sorocabano, totalmente apreensivo com o que me esperava.

Chegamos e já fomos montando as bikes, numa pracinha em frente ao hotel. Uma bicicleta diferente da outra, um alforge diferente do outro, uma personalidade completamente diferente de cada um. Mas éramos, ou tentávamos ser, um grupo. E era este grupo que iniciaria no dia seguinte a grande pedalada, rumo a Compostela.
À noite, jantando no hotel começamos a nos conhecer melhor, e a conversa girava quase sempre em torno do Caminho, sobre o que nos esperava, com devíamos proceder, etc. Um pouquinho de interrogatório para o Paulo Sérgio, pelo seu histórico de compositor famoso, e para o Paulinho que nos guiava e respondia com paciência à maioria de nossas perguntas.

Dormimos relativamente cedo, já que a diferença de cinco horas de fuso horário entre Brasil e Espanha nos fazia entender a meia noite local como sete horas. O avião dera uma ajudazinha, não deixando a gente dormir muito, mas o dia seguinte era oito horas local a alvorada, não importando nem um pouco a hora brasileira...

Domingo, 29 de abril de 2001, e o que era de sol do dia anterior ninguém viu. Estava frio e garoando! A temperatura de cerca de cinco graus não deixava dúvidas: não teríamos moleza... Tomamos nosso desayuno (café-da-manhã em espanhol) e toca a arrumar as coisas nos alforges, se agasalhar, colocar anoraques ou a proteção que tivéssemos para chuva e frio.

Às dez horas da manhã começamos a pedalar, na descida de 12 quilômetros até Saint Jean. Como era bom ouvir o barulho da roda no asfalto, mesmo com todo o frio e chuva. "O pior naufrágio é não partir" e a cada pedalada, afastávamos do pior naufrágio, e entrávamos com tudo no Caminho.
Tremendo de frio, chegamos em Saint Jean Pied de Port, local de nosso primeiro carimbo na Credencial de Peregrino, uma cidadezinha encravada no sopé dos Pirineus, capital da Baixa Navarra e lar de uma das mais famosas hospitaleiras, a Madame Debrill, que falecera recentemente, em 2000. Eu queria conhecer a dita-cuja, mas tudo bem... Conhecemos o casal de velhinhos que agora carimbava nossa credencial...

Os trauseuntes nos perguntavam quem éramos e para onde íamos, mas em francês! Na condição de atração turística do local, tirávamos nossas fotos e tentávamos responder a algumas das perguntas. Na igreja, uma missa terminava e despejava mais gente pelas ruelas da cidade. Comemos alguma coisa num barzinho e iniciamos a travessia do Pirineus, que não nos prometia facilidades, por volta do meio dia.

No começo tudo bem, já que a adrenalina do início ainda estava nas veias e a subida ainda não era tããão forte, mas isso iria mudar. O que realmente pega nesta etapa não é a inclinação da subida, mas a sua constância, além do fato de ser o primeiro dia e a cabeça ainda não se aclimatou direito à condição de peregrino.

A subida insistia e o tempo fechava. Num momento, achando-nos perdidos, perguntamos a duas francesas (ou belgas, não sei), que estavam com mochilas nas costas sobre o caminho correto. Elas, que não falavam espanhol e a gente, que não falava francês, com exceção da Maria, estávamos em rota de colisão! Nem o nome Roncesvalles era de muito auxílio, já que em francês a cidade se chamava Roncevaux e em basco era Orreaga. No final das contas era por ali mesmo, mas a conversa não rendeu muito, não... Seguimos pelo asfalto, subindo e subindo, extasiados com o visual de montanha que os Pirineus nos oferecia.

O grande detalhe que começou a nos preocupar foi que demorava-se muito para andar pouco e os primeiros dez quilômetros foram completados para lá de três horas da tarde. O tempo não cooperava muito e a temperatura caía conforme a gente subia. Ao passarmos a faixa de nuvens, começou a ventar bastante. Em alguns lugares depósitos de neve já compactada em gelo à beira da estrada, nos advertia da severidade do clima local.

A cerca de 1400 metros de altitude, começamos a pegar um vento muito forte que parecia dar um safanão na bicicleta quando batia na gente. Havia certos pontos em que construiu-se alguns quebra-ventos, onde cabiam três ou quatro pessoas para diminuir a sensação térmica negativa que o vento causava nas pessoas.

Todos tremiam de frio e todos estavam meio preocupados em chegar logo em um lugar quente. Foi quando paramos um carro para perguntar sobre a rota certa...

Dirigia tal carro um francês navarro que não falava bem nem espanhol e nem o inglês horrível que tentava pronunciar. Quando o Paulinho mostrou seu mapa, ele de pronto o afastou, murmurou alguma coisa e pegou um mapa no seu carro. Mostrou por A mais B menos C que estávamos completamente errados e que deveríamos voltar a St Jean! Isto tudo com uma gentileza extremamente navarra, o que quer dizer o oposto do que entendemos por gentileza...

A última coisa que eu queria era voltar a St Jean! Fiquei realmente preocupado, já que passava de cinco da tarde e apesar de anoitecer bem tarde, a simples perspectiva de passar a noite na montanha assustava! O Paulo Sérgio votou por dormirmos em St Jean, o Paulinho por alcançarmos Roncesvalles, seguindo pela trilha do peregrino a pé. Um certa discussão exacerbada pelo frio e o cansaço fez-nos arriscar Roncesvalles mesmo, porque sabíamos que não estávamos tão longe de lá.

Juntamos o pessoal, já que a Maria, a Vânia e o Diniz tinham ficado um pouco prá trás e mostramos a rota. com medo de furar pneu, se perder mais e mais, nos embrenhamos pela trilha...

No começo já vinha uma parte de barro, onde meu tênis empapou de lama. Seguindo pela trilha, e o altímetro indicando cerca de cinquenta metros acima da altitude real, devido ao mal tempo, fomos seguindo as setas amarelas até quando, por volta de sete da noite, vimos os telhados da Colegiata de Roncesvales.

Eu e o João resolvemos descer pela trilha, enquanto os outros desceram por uma estradinha. Na primeira descida descobri horrorizado que o freio não estava funcionando direito e fui meio cambaleando e freando com o freio dianteiro, desviando das arvores na descida íngreme.

O João sumira na frente e neste momento eu comecei a perceber o significado maravilhoso das tais setinhas amarelas. Quando você está cansado, com frio, sujo e morrendo de fome, uma simples indicação do caminho correto é uma dádiva! Seguindo-as, cheguei cansado, a Roncesvalles.

Corremos ao albergue e nos registramos lá. Tudo conosco estava sujo e a difamada hospitalidade navarra nos fazia perder a paciência. Como deveríamos estar no albergue até às 21:45, resolvemos comer antes mesmo de tomar banho. Já tinhamos perdido a missa dos peregrinos, estávamos com tanta fome que não nos importava o estado exterior que estávamos, mas o estômago roncava para quem quisesse ouvir...

No restaurante, único do local, fomos informados que era necessário reservar o menu de peregrino com antecedência, ou seja, nada de menu prá gente! Também nada de bocadillos ou outros sanduíches! Depois de muito conversar, vimos que a atendente, muito mal humorada, não nos informou que era possível comer pela carta, ou seja, pedindo fora do padrão do que é oferecido ao peregrino.

Estávamos inconformados, mas como a fome era maior, sentamos em duas mesas (não podia juntar mesas, no es possible!) e tomamos uma sopinha de macarrão e uma salada. Comemos depressa, porque precisávamos voltar rápido ao albergue para não dormir na rua.

Ainda com fome, moídos de canseira, voltamos ao albergue para tomar um banho, onde ligava-se o chuveiro e quinze segundos depois era necessário apertar o botão novamente, porque a água parava de sair automaticamente.

De Roncesvalles não conseguimos aproveitar muito, mesmo porque não tem muita coisa o que ver, pois é uma vilinha encravada nos Pirineus e além de sua igreja e alguns monumentos, somente guarda o conceito de uns dos mais antigos refúgios peregrinos do Caminho. É de grande tradição peregrina, mas para quem chegou cansado dos Pirineus, interessaria muito mais uma acolhedora chegada e uma alimentação mais consistente.

Em meio a muitos roncos e outros barulhos menos nobres ainda, fomos dormir, já peregrinos...

Quanto ao Francês, começou a correr a lenda entre nós de que deveria ser mesmo o diabo vestido de gente, para nos demover do Caminho e levar-nos à desistência nos nossos momentos de maior fragilidade... Pobre francês...

Roncesvalles e a neve


Enviado por Eduardo Valente. Visite o seu site em TerraValente.
 
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