Diário de Eduardo Valente

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Parada Estratégica Número Três - O Pedal e o Caminho
Eduardo Valente
Puente de la Reina

Não me considero um verdadeiro ciclista. Creio que ciclista de verdade é aquele que primeiro escolhe a bicicleta, depois onde pode chegar com ela. Eu sou mais um confrade do pedal, colcando em prioridades opostas a bike e onde quero ir, com ênfase no último.

Me agrada o prazer que pedalar proporciona. Não aquele prazer que vem fácil, mas aquele conquistado com às vezes dores em locais mais impróprios. Sentir a perna ferver ao ultrapassar um monte, sentir o vento zunir numa grande descida, sentir o cheiro da mata e o silêncio da estradinha, lutar contra o barro e morrer de medo dos caminhões, tudo isto faz do pedal um ícone da liberdade. Liberdade que é conquistada, mas que parece que a gente nunca merece.

Um dos veículos mais eficientes que existem, a bicicleta é ao mesmo tempo transporte e esporte, num mesmo lugar diversão e locomoção. Como é que pode?

O Caminho é prá mim um sonho antigo, um dos cinco lugares do mundo que elegi para conhecer e o terceiro destes que já fui. O Caminho é o do meio, como deve ser. Nada se compara com ele, não há rota mais emocionante e desafiadora em todo o mundo. Não há nada mais completo, seja cultural, físico, emocional, técnico, social, histórico ou emocional.

O Caminho de Santiago não é prá qualquer um, mas pode ser de qualquer um que se disponha a abandonar seus conceitos de conforto, sedentarismo e civilização e se prepare para ouvir uma das mais belas histórias que existem no mundo. Pois neste Caminho em vez de uma pedra tem um povo, que gosta de compartilhar conosco suas lendas, seu jeito de ser, suas conquistas.

Quando se juntam o Pedal e o Caminho, a química é imediata. Não existe meio melhor para percorrer seus mais de oitocentos quilômetros e não existe lugar melhor para se gastar um pneu. Todo tipo de clima e terreno, todo tipo de preocupação e vitória se apresentam.

A peregrinação não começa ali, na fronteira da França. Começa quando você se decide a fazer tão longo percurso, com a busca meio que insana por todos os equipamentos que ainda faltam. Com a temeridade sobre o que nos espera e de que a gente não tem nem suspeita. A preparação por trilhas e estradas perto de casa, mesmo sabendo que não há comparação, nos trazem ambientação com o pedal e quase que o tratamos como um prolongamento do nosso próprio corpo.

Esta simbiose entre o ciclista e o pedal torna-se tão grande ao percorrer o Caminho, que você começa a tratar como companheira aquela máquina sem vida. Você xinga nas subidas e quando começa a fazer barulhinhos irritantes. Você reclama de por que ela não tem mais marchas, de que deveria ter feito um regime nos alforges. Mas você dá aquele tapinha como se dá num cavalo, quando a cidade, local de pousada do dia, se avista ao longe. "Vamos! Não falta muito!", você sussurra baixinho.

Quando se chega ao final, você descobre-se meio centauro, ao perceber que passou mais tempo em cima da bicicleta (às vezes empurrando) do que andando a pé. Você levanta aquela máquina como um troféu, melhor que a própria Compostelana.

Quando volta ao Brasil, para trilhar outros caminhos, você fica feliz em ver-se pedalando tão rápido, sem os pesados alforges. As subidas já não assustam e as distâncias parecem menores. Você agora é peregrino e sua bicicleta passou no teste mais difícil com louvor!

A peregrinação, você sabe, vai continuar. A lembrança de amigos e montanhas, de pessoas e distâncias, que a gente se apresenta e é apresentado, queira ou não, mudou a sua vida. Agora é hora de colher os louros e com confiança maior do que nunca, procurar o próximo caminho que o pedal irá conhecer.

Torres da Catedral de Burgos


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