Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Quatorze - O Milagre que Não Vim Buscar
Eduardo Valente

Paulo Gaúcho, Paulo Sérgio, Malena, Vânia e Diniz

De Portomarin até Arzua, num trajeto de 55,00 km, numa média de 15,3 km/h, com variação de altitudes desde 300 m a 700 m.

Agora faltava pouco. Estávamos a menos de cem quilômetros de nossa meta e a ansiedade começava a apertar... Ou melhor, para ambientar-se com a Galícia, que tínhamos adentrado no dia anterior, e com o galego falado aqui, estávamos na verdade com um baita anxiedade. Com X mesmo...

O dia seria de um passeio razoável, com subidas e descidas o tempo todo. O que nos incomodava era a previsão do tempo, que indicava uma grande massa de tempo ruim, com chuvas e o escambau, aproximando-se rapidamente pelo Atlântico. Sabíamos que era hoje que voltaríamos a ver chuva. A esperança era somente pegar a danada no calor e no seco do hotel.

Dez horas e já estávamos pedalando. Na saída da cidade, o Paulo viu um trator bem devagar e, já experiente no assunto, tratou de pegar uma caroninha, atitude prontamente seguida pela maioria. O grande problema era o cheiro, já que o trator levava atrás uma pilha de estrume do mais fedido que conseguiu arranjar. O tratoreiro, um velhinho de cabelos brancos e boina, não dava a mínima para aquele bando de pingentes de ocasião. Assim que terminou a subida, falou um "hasta luego" e sumiu à direita, por mais uma das estradinhas de terra.

Esta região era bem diferente das outras que tínhamos passado. Ficavam para trás a solidão e os momentos de isolamento e descortinavam-se vilinhas e mais vivinhas, a ponto de não se saber onde acabava uma e começava outra. Pareciam as mesmas cidades do dia anterior, mas a maior frequência de peregrinos, tanto a pé como de bicicleta, dava-nos consciência da cada vez maior proximidade de Santiago.

Provavelmente muitos deles caçadores de Compostelana, faziam o mínimo dos cem quilômetros para pedestres e duzentos para ciclistas. Alguns deles estavam muito limpinhos para estarem andando há mais de quinhentos quilômetros. Já os ciclistas pareciam vir de mais longe, de quando ainda chovia...

Não muito sobe e desce depois, e já estávamos em Palas de Rei. O tempo começava a piorar e apesar de termos escolhido ali como parada de almoço, era cedo demais e ninguém tinha muita fome. Foi só tomar um cafezinho cortado (essa eu aprendi lá: era o nosso pingado, cafém e um pouquinho de leite), comer um bocadillo e já corrermos para as bikes. À nossa frente, uma parede cinza cuspia um vento frio que nos informava de que a chuva estava logo ali.

O medo maior era pegarmos novamente uma situação como a da chegada a Burgos, onde a iminência de hipotermia abalou bastante nosso ânimo. Quanto mais cedo chegássemos a Arzua, melhor.

Nem bem saímos de Palas de Rei, e ela chegou. Era uma garoinha fina, mas impunha o uso de anoraque, principalmente para proteger a câmera e os documentos na pochete. Todo mundo protegido, mesmo assim um pessoal foi pela trilha, que agora era tranquila, sem o super barro de dias anteriores. Eu fui só um pouquinho, mas já voltei para o asfalto, porque a chuva vinha e ia, deixando a gente molhado mas sem o frio de dias anteriores. Comparativamente, podíamos dizer até que estava morna a tal da chuva galega. Mas molhava assim mesmo...

De repente, olho para meu ciclocomputador e ele só marcava as horas. Fiquei bronqueado com o bichinho e parei para tentar arrumá-lo, mas qual! Ou tinha cortado algum cabinho, ou a bateria estava fraca, ou seus conectores estavam em curto, diante de tanta água que tinha tomado... Fui junto com o Paulo e a Malena, desanimado com o meu parceiro de tantos quilômetros, mas que resolveu me deixar na mão...

Passamos por Melide, mas as cidades já começavam a perder em interesse para a natureza, muito mais exuberante que em dias anteriores e a marcação dos quilômetros cada vez menores até Compostela nos empurrava em frente. Deste modo, chegamos em Arzua não eram nem três da tarde!

Arzua é o que podemos chamar de desinteressante. Encontramos um hotel barato, mas aconchegante. O João e o Paulo foram ver outro à frente, só para conferir o preço. Um tempinho depois estavam de volta e reservamos os quatro quartos dobles para todos os oito. O frio só aumentava e a necessidade urgente de um bom banho e roupas secas nos empurrava para o quarto mais que o vento nos empurrou a Triacastela.

Banho tomado, o resto do pessoal chegara e três e meia fomos almoçar. Conseguimos a prorrogação da hora da siesta, privilégios que peregrino nenhum pode abdicar! Comemos bem e esperamos que a chuva diminuísse um pouquinho, para tentarmos ver alguma coisa da cidade, mas qual o quê!

Então o Diniz fez uma pergunta prá mim que me arrepiou: "Ué, Edu! O que aconteceu com a sua roda?". "Minha roda?", perguntei, "Não sei! Não percebi nada...". O Paulinho completou o Diniz: "Meu! Sua blocagem estava completamente solta! Você não percebeu?".

Eu, arrepiado, porque sabia o que isto significava. Blocagem é a alavanca que trava a roda. Se ela se solta, num solavanco a roda pode escapar e você, dependendo de sua velocidade, pode ficar em algum lugar entre um bom tombo e sete palmos abaixo da terra. Provavelmente meu ciclocomputador tivesse parado por causa disso, mas o mais importante era que eu sabia que tinha andado por volta de vinte quilômetros com minha roda totalmente solta, desde Palas de Rei, pelo menos...

"É, Eduardo, milagres acontecem neste Caminho", filosofava o João. No fundo eu sabia que era isto mesmo. O milagre que eu não vim buscar me encontrou a cinquenta quilômetros de Compostela, numa cidadezinha sem graça, onde eu podia ter morrido, ou no mínimo, ter terminado a peregrinação ali mesmo. Diz a Bíblia que o anjo do Senhor acampa ao redor daqueles que O temem e os livra. Devia ter pelo menos uma dúzia deles segurando a minha roda e retirando os pedregulhos da frente.

Em 1999, acampando no Itatiaia, numa noite com uma belíssima chuva de estrelas, juntara todos os pedidos que eu tinha direito e fizera um só. Pedi a Deus que nunca me deixasse esquecer das maravilhas que ele proporcionasse na minha vida. Não ia ser desta vez que me esqueceria... Agradeci com gosto, pela vida e pela segurança que me dera. Agradeci pelos bons amigos que conhecera no Caminho. Agradeci por ainda estar vivo e são para poder agradecê-Lo.

A chuva ia e vinha, o frio vinha e ficava, de vez em quando alguns filetes de céu azul e uma esperança, ainda que mínima, de que teríamos sol amanhã. Saí com o João para tentarmos encontrar alguma coisa aberta, mas sábado à noite não se encontra absolutamente nada aberto por aquelas cercanias. Encontramos uma vendinha quase fechando e compramos alguns chocolates. Voltamos para jantar e jantamos os oito, naquela que seria a nossa última noite como peregrinos.

Depois de um bom jantar, fomos dormir. Eu, olhando por uma janela a ver se não havia nenhuma estrela cadente para fazer um pedido a mais. Não queria mais me esquecer de verificar se estava tudo OK com minha bike, nunca mais.

Cerimônia do Botafumeiro

 

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