Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Treze - O Pulo do Gato
Eduardo Valente

Monte do Gozo

Do Cebreiro até Portomarin, num trajeto de 71,44 km, numa média de 17,5 km/h, com variação de altitudes desde 1350 m a 300 m.

Durante a noite, aconeteceu uma coisa que para todos, menos para o Paulinho, foi bem engraçada: ele sonhou que tinha alguém apertando seu pescoço, tentando estrangulá-lo. E gritava: "João! Me ajuda!". O João, que dividia o quarto com ele, perguntava qual era o problema e ele só gritava por socorro.

Pela manhã, as hipóteses brotavam! Seria o espírito de um guerreiro ou druida celta que veio lutar com o Paulinho? Seria o Espírito do Natal Futuro? Seria o próprio João, pregando uma super-peça? Não chegamos a nenhuma conclusão, mas conseguimos tirar o Paulinho do sério, o que valeu a brincadeira...

Estávamos agora a três pedaladas de Compostela e sabendo que a última das pedaladas seria de mais de setenta quilômetros, na cabeça de todos já surgiam sugestões para mudar os pontos de dormida, para fazermos a pedalada mais forte hoje ou no máximo, amanhã.

Pela televisão, vimos a previsão do tempo, informando de uma grande frente fria chegando do Atlântico, prometendo chuva para os próximos dias. Mais um motivo para adiantarmos o percurso hoje... O Paulinho conversou com a gente e combinou de o próximo ponto de encontro ser em Triacastela. Lá a gente começaria a pensar no ponto de parada de hoje.

O que a gente pensou ser só descida começou numa subidona até o Alto de San Roque, onde uma enorme estátua de um peregrino andando contra o vento indicava perpetuamente o Caminho, e cerca de três quilômetros depois outro Alto, agora o do Poio. Restava-nos agora uma imensa descida até Triacastela.

Esta descida foi singular. Com um vento muito forte soprando sempre na mesma direção, perpendicular à estada repleta de curvas, a gente quase que parava quando o vento vinha pela frente, quase caía da bike quando o vento pegava de lado, mas quando ele resolvia ajudar, era como se fôssemos arremessados para a frente, dando um frio na barriga e fazendo a gente sempre estar com as mãos nos freios. Cheguei por volta de sessenta por hora nesta descida, nada comparado ao João, que fez oitenta e um por hora, coisa que ele mostrou no ciclocomputador meio que assustado, já que a esta velocidade não há tempo nenhum para reflexo de preservação. Se cair, o estrago não é pequeno...

Tomamos um cafezinho em Triacastela, que pelo nome seria a cidade dos três castelos, dos quais não existe nem cheiro. Depois seguimos caminho até uma bifurcação que indicava Samos para um lado e San Xil para outro. Pelo guia, Samos seria a alternativa lógica para ciclistas, mas San Xil prometia ser muito bonita. Escolhemos a última e não nos arrependemos.

Subidas bem chatas e descidas radicais por estradinhas estreitas nos matavam de canseira e nos divertiam de bagunça, respectivamente, é claro! As cidadezinhas se multiplicavam e a gente saia de uma prá cair em outra, num subir e descer sem fim. O que era sem fim era o forte cheiro de estrume, às vezes de gado, às vezes de porco. Desagradável no frio, imagine no calor...

Chegamos em Sarria às duas da tarde e lá mesmo almoçamos. Era lá nossa parada, e depois do estômago forrado, procuramos lugar prá dormir. Encontramos no final de Sarria, mas a Maria queria de toda maneira ir em frente. O Diniz também e o resto estava meio temeroso, prá não dizer preguiçoso. Eram cinco da tarde e a gente não estava muito a fim de pedalar mais vinte quilômetros até Portomarin. Outro problema era não saber se encontraríamos pousada lá...

Num daqueles lances que de repente acontecem por este Caminho misterioso, um taxista ao qual o Paulinho foi pedir informação tirou um cartão de visita de um novo hotel, recém construído em Portomarin, e ligamos para lá, verificando que tinha lugar para todos. Pé, ou pedal, na estrada. Simbora!

Comecei junto como João, novamente, a distanciar-me do demais. À nossa frente, só o Paulinho que adiantara-se para ver o hotel. No entanto, em pouco tempo, o João imprimiu um ritmo mais pesado e fiquei na pedalada solo. Estava cansado, mas sem muitos problemas para pedalar naquela tarde morna.

E desce. E sobe. E desce de novo. E sobe de novo. E entra em vilarejo e pergunta se Portomarin é por ali mesmo. E, confirmado, continua a pedalar. Assim, depois de hora e meia, cheguei ao topo de uma colina e lá embaixo descortinava-se uma represa, com uma longa ponte a atravessá-la. Desci quase sem usar os freios e logo cheguei a Portomarin, onde o Paulinho e o João conversavam com um ciclista espanhol, também peregrino.

Subimos até o hotel, passando antes pelo albergue para carimbar e qual não foi nossa surpresa ao ver que o carimbo lá era self-service! Pegamos o carimbo, carimbamos a credencial e um postal que ganháramos em Villafranca del Bierzo e fomos tomar um banho.

Depois, passeando pela cidadezinha, descobrimos o quanto de história pode caber em lugarejos assim! Portomarin é formado pela população de dois bairros, San Nicolas e San Pedro. No entanto, onde se localizam atualmente estes bairros ninguém vive, porque em 1960, o lago formado pela represa de Belesar cobriu tudo. O que deu prá salvar foram duas igrejas, as duas com histórias interessantes.

A primeira é a igreja-fortaleza de San Nicolás. Ela estava lá abaixo, onde existe o lago, mas foi numerada pedra por pedra, e fielmente reconstruída num local seguro. Mais ou menos como Abu-Simel, no Vale dos Reis. A igreja foi erigida pelos templários da Ordem de San Juan de Jerusalem, no século XII, como igreja mas como quartel general dos Cavaleiros de Santiago, e era inadmissível ser perdida por causa de uma represa...

A outra igreja foi o Paulo Sérgio que me mostrou. É a de San Pedro, do século XII também, mas que é bem menor, com um detalhe intrigante: na sua fachada, no pórtico, encontram-se entalhadas na pedra figuras de bois, serpentes, gatos e falcões. Detalhes evidentemente egípcios, de acordo com o Paulo. Fiquei a imaginar o que se passava na cabeça de quem fez aquilo... De qualquer maneira, são tesouros culturais que o Caminho reserva àqueles que se dispõem a escarafunchar por aqui e ali.

Jantamos tranquilamente e depois fomos passear pela cidade, descendo eu, a Laurence (Maria) e o Diniz até a ponte e vendo as estrelas refletidas no lago, naquela noite não tão fria. Subimos uma escadaria até a capela da Virgem das Neves, concordando que o pulo do gato daquele dia foi ótimo, porque Portomarin parecia muito melhor que Sarria e o hotel de Sarria tinha uma linha de trem ao lado, o que provavelmente teria feito a gente acordar várias vezes à noite...

Enfim, Santiago de Compostela


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