Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Doze - Tentación
Eduardo Valente

Tentación

De Ponferrada até o Cebreiro, num trajeto de 56,90 km, numa média de 12,5 km/h, com variação de altitudes desde 450 m a 1350 m.

Acordamos com um nome na cabeça: O Cebreiro. Considerado o terror dos ciclistas, esta etapa seria subida, subida e subida. O tempo não colaborava muito, mas não havia ainda indício de chuvas pesadas.

Ajustamos os freios das bikes, recolocamos os alforges e começamos a pedalada até o primeiro ponto de encontro, Villafranca del Bierzo. Na saída de Ponferrada, todo mundo ainda parou para calibrar os pneus num posto de gasolina e contamos com a já grande hospitalidade daquele povo, quando o frentista calibrou os pneus das oito bicicletas, não cobrou nada e ainda nos desejou bom caminho. Dá todo um ânimo sair despedir-se assim de uma cidade...

Os primeiros vinte e dois quilômetros, que era a distância até Villafranca, não tinham muita inclinação e até que percorremos bem este trecho, chegando à cidade antes do meio dia. No trajeto, variávamos pela estradinha e pela terra, mas nada de incomum. Só o verde que começava a ficar mais vivo, prenunciando a entrada da Galícia.

Chegamos em Villafranca del Bierzo, bem tranquilos. Esta cidade, assim como todas as outras vilas francas do Caminho, foram repovoadas por franceses, daí o nome. Um detalhe todo especial cercava este lugar: era a única localidade de todo o Caminho que possuía privilégios iguais ao de Santiago de Compostela, tendo inclusive uma Porta do Perdão, na igreja românica de Santiago, onde por ordem do papa Calixto III, todo peregrino que chegasse ali num estado tão lastimável que o impedia de chegar a Compostela, receberia ali mesmo sua indulgência e perdão dos pecados, além de cuidados pessoais no hospital.

Na chegada da cidade, encontramos também um castelo, dos marqueses de Villafranca e um albergue e local de carimbo ao lado da igreja de Santiago. Entramos e conversamos um pouquinho com a hospitaleira, da família Jato, famosa por aquelas bandas. Lá também estava uma brasileira gaúcha fazendo às vezes de hospitaleira e tremendo com o frio que estava.

Um detalhe chamava a nossa atenção: na parede, no meio de tantos recadinhos e pins à venda, um cartaz, com a figura de um diabinho mochileiro, tinha os seguintes dizeres: "Tentación: se suben las mochilas al Cebreiro por 400 pesetas!". E bota tentação nisto! A gente brincava para o Diniz só escutar o anjinho e mandar calar a boca do diabinho. Um vade retro bem dados e toca todo mundo a pedalar de novo...

Na saída da cidade, mais dois monumentos dignos de uma foto: a igreja de San Nicolas e a Collegiata. A partir dali, a montanha nos esperava. Mas antes, uma paradinha para o almoço, que ninguém é de ferro...

Almoçamos num restaurante de beira de estrada, cheio de caminhoneiros. Ainda estávamos numa estrada bem movimentada, mas sabíamos que logo adianta, em Vega de Valcarce, tudo ia mudar e iríamos pegar um trecho bem menos agitado... Dito e feito! Até Las Herrerias, seguimos junto e aí nos separamos em dois grupos, o que ia pela trilha e o que ia pela carretera. Eu fui do segundo grupo, junto com o Diniz, o Paulo e a Malena.

Quando começou, a subida não parou mais. Íamos pela estradinha, sempre subindo, numa velocidade média de seis, sete por hora. Tínhamos abastecido as caramanholas e mesmo assim temíamos acabar a água no meio do caminho. Uma nova estrada estava sendo construída, constituída de altíssimas pontes, onde poder-se-ia perfeitamente praticar base jumpings. A estradinha velha que íamos, mesmo com a beleza do vale de Valcarce abaixo de nós, fazía-nos concentrar as forças em pedalar morro acima.

Tanto que andamos que achamos que estávamos perdidos. Trezentos metros de altitude acima, a estradinha juntou-se com a estradona e os grandes caminhões passavam bufando ao nosso lado e nada da cidade de Pedrafita chegar. O Paulo, que já tinha feito o trajeto, falava que não se lembrava desta parte. Provavelmente, estávamos indo para La Coruña ou algum outro lugar que não o Cebreiro. Para nosso desespero, o que a gente não queria de modo algum era estar errado, porque isto significaria retroceder e ter que subir novamente uma outra grande ladeira. A tal da Tentación sussurrava aos nossos ouvidos...

Quando a gente encontrava alguém na estrada, eles nos informavam que estávamos na direção certa (que bom!), e que faltavam cinco quilômetros de subida até o Cebreiro. A cada um que a gente perguntava, sempre diziam cinco quilômetros... Parecia a meia horinha que um amigo meu baiano sempre falava quando fomos de ônibus com o coral Zíper na Boca para Aracaju. Meia horinha e a gente chega, dizia a figura... cinco quilômetros, diziam as figuras daqui...

Finalmente Pedrafita! Estávamos certos! Perguntamos a dois guardas rodoviários como fazer para ir ao Cebreiro e quanto ainda faltava e adivinhem a resposta: acertou quem disse cinco quilômetros!!!

Entramos em Pedrafita e começamos a subir a agora ainda mais íngreme ladeira. Eu jurava prá mim mesmo que ladeira eu não queria mais e comecei a usar de um artifício malandro: eu pedalava um pouquinho mais forte que o Paulo e a Malena (do Diniz nem sinal...) até que não os via mais. Aí eu parava, bebia uma água, deixava a respiração voltar ao nível normal e era justamente o tempo de avistá-los. Então, deixava-os passar e começava a pedalar um pouco mais forte novamente. Cada um tem seu ritmo, e este foi o meu na subidona!

Enfim, o Cebreiro! Uma vilinha encravada a 1300 metros de altitude, no meio de lugar nenhum. Chegamos e logo após já vinha o Paulinho, o João, a Maria e a Vânia. O Diniz chegou um pouquinho depois, meia horinha, se muito. Chegou e chegou feliz, dizendo que entrara num bar e pedira a maior caneca de cerveja que tivesse ali. Não satisfeito, pediu para o taberneiro pegar uma caneca promocional, daquelas de mais de litro. Combustível mais que suficiente para vencer a subida, suponho.

Fomos carimbar a credencial na sacristia, dentro da bela igrejinha do século doze. Com todo aquele sotaque galego, a Olga nos atendeu e ainda nos ofereceu vinho do padre. Com certeza, o vinho mais gostoso que já tinhamos provado em todo o Caminho. Esta igrejinha tem uma história muito bonita onde, diz a lenda, por volta de 1300, um camponês de Barxamaior, uma ciadezinha cerca de duzentos metros abaixo, subiu para a missa em meio a uma terrível nevasca, para receber a comunhão. O pároco, pelo jeito com fé bem menor que a do camponês, celebrou a missa todo a contragosto e foi nesta hora que o milagre aconteceu! Houve transubstanciação, ou seja, o vinho virou sangue e a hóstia virou carne! Se fosse aquele vinho que tínhamos tomado, acho que pelo menos um pouco arrependido eu ficaria... Enfim, cento e cinquenta anos depois, a rainha Isabel la catolica, voltando de sua peregrinação em 1488, resolveu levar o tal cálice para um local mais seguro, mas os cavalos refugaram e isto foi interpretado como sinal divino. Desde então, o cálice, assim como a custódia se encontram expostos dentro da igreja, na Capilla del Milagro. Dizem que os restos mortais dos dois protagonistas também estão lá. Pelo menos o fantasma do padre deve estar, tornando aquela bela igrejinha tão fria em seu interior.

No Cebreiro ficamos em um hotel super charmoso, com quartos de camas largas e bem decorado. Sem dúvida nenhuma, a melhor hospedagem em que dormimos. Como se não fosse suficiente a igreja como atração turística, ainda existem várias palhoças celtas no lugar, com as portas bem baixas, além de um busto do padre Elias Valiña, uma espécie de padre Cícero do lugar, que morreu em 1989 e foi o responsável por todo o ressurgimento do interesse no Caminho na região, restaurando o monastério e fundando a hospedaria local, em 1966.

A gente chegou no Cebreiro por volta de cinco e meia da tarde e eu tinha combinado com o pessoal do Brasil aparecer em frente a uma webcam que a televisão da Galícia tinha colocado no topo do albergue e funcionava vinte e quatro horas por dia. Tomei um banho relâmpago, me agasalhei bem, porque o vento da tarde começava a bater forte e fui pagar mico na frente da câmera.

Quem passava ali, olhava e dava risada do maluco com a bandeira do Brasil acenando para o telhado. Depois eu explicava o que eu estava fazendo e todos atreviam-se a dar um tchau. Um francês de nome Michel, hospedado no albergue, conversou comigo um tempão em inglês e ficou mandando tchau pro Brasil também. Depois liguei prá casa e feliz descobri que tinham me visto de lá. Realmente, esta Fada Tecnologia e este Mago Progresso não se cansam de nos maravilhar...

Aproveitei o restinho de tarde e esperava o sol sair entre as nuvens, para tirar boas fotos daquela vilinha tão rica em histórias e em hospitalidade. Fiquei também a matutar onde raios foi que o Paulo Coelho lutou com o cãozinho endiabrado, visto que de tão pequenina vila, nunca passaria despercebida tal peleja e seus habitantes ficariam ali, talvez uns apostando no cachorro, outros no peregrino louco...

Jantamos bem, nós oito e em companhia do Cláudio e do Helder. Comida à vontade, servida pela dona da estalagem que quando o Paulinho prometeu lhe dar um CD com a trilha sonora da novela Terra Nostra, sucesso na região, teve todas as suas amigas ralhando com ele e falando que um CD era pouco, precisava um prá cada uma.
Rimos bastante e ao sairmos, voltando à hospedaria, o nevoeiro já fechara tudo, deixando um anoitecer com cara de séculos passados. Um frio glacial ainda tentava passar pela janela de vidro duplo...

Caroneiros...


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