Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Onze - Entre a Cruz e a Espada
Eduardo Valente

Fonte numa concha

De Astorga até Ponferrada, num trajeto de 56,86 km, numa média de 15,5 km/h, com variação de altitudes desde 500 m a 1500 m.

O tempo amanheceu feio e a gente sabia que hoje a pedalada seria difícil. No menu do peregrino, como primeiro prato uma subida imensa até a Cruz de Ferro, de segundo uma descida tão imensa quanto até Ponferrada e de postre um castelo templário. Como acompanhamento, chuva e vento à vontade, mas não ao gosto do freguês...

Passamos por El Ganso, um vilarejo nanico, e carimbamos a credencial num barzinho chamado Meson Cowboy, nos divertindo por encontrar um arremedo de saloon neste fim de mundo. Ali ao lado, um casal preparava seu cavalo para arar a pequena extensão de terra que possuía, iniciando o plantio que vem com a primavera.

A idéia seria almoçar em Rabanal del Camino, mas como distava somente vinte quilômetros de Astorga, e o terreno ainda era plano, chegamos rapidamente lá e com a garoa aumentando, decidimos almoçar para frente, depois da cruz de ferro. Ali só tomamos um cafezinho num bar que mais parecia um pub londrino, com todo mundo fumando e deixando o ar empesteado...

Fim de festa! Hora de subir, e muito! Rapidamente, o pessoal vai se distanciando, e como eu e o João estávamos na frente, sem se aperceber a gente não via mais ninguém quando passamos por Foncebadón, aquela cidade que dizem que só tinha uma velha e estava toda em ruínas. Não chegamos a entrar na cidade, mas parecia maior do que se dizia...

A gente achava que a tal cruz nunca ia chegar, no meio de tanta neblina. Achava que tivéssemos pegado outro caminho e achávamos que a cruz já tinha passado e a gente não viu. Tinha tanta nuvem, mais pela altitude que pelo clima, que todas as suposições eram válidas. Nenhuma placa, no entanto, avisava de tal cruz. O que a gente sabia era a distância de Rabanal e a altitude. A distância era mais ou menos aquela e o altímetro marcava 1510 metros. Era por ali.

De repente, um poste de cerca de cinco metros com uma cruz bem no alto, sobre um monte de inúmeras pedras indicava o importante monumento e marco colocado ali pelo eremita Gaucelmo, no século XI. Reza a tradição que deve-se levar uma pedra (pedrinha ou pedrona, depende do que se dispõe a carregar e da carga dos seus pecados...) e depositá-la aos pés da cruz. Não é para atirar a pedra na cruz, que é feio... Faz-se então uma prece para a sua família e eu aproveitei a deixa para fazer uma prece especial para minha ãe, que aniversariava naquele dia. fiz a prece pela minha famíla, a especial pela minha mãe, pela minha família futura, tiei várias fotos, depositei a pedra aos pés da cruz e vi chegar o Paulo e a malena, depois o Paulinho e depois o Diniz, que vinha indignado por ter confundido a Cruz de Ferro com um outro cruzeiro mais atrás... Apesar de toda sua indignação, não escapou de nossa gargalhada e aproveitou uma brechinha de azul do céu para tirar suas fotos.

A Cruz de ferro e seu monte de pedras remonta a tradições mais antigas, a dos Montes de Mercúrio, antigo deus dos viajantes. Gaucelmo apenas cristianouzou-o, colocando o símbolo máximo cristão sobre um poste e transformando-o literalmente num dos pontos mais altos do Caminho.

Passada a cruz, à nossa frente a temida descida, onde a dona do bar de El Ganso nos advertira que morria um peregrino ciclista por ano ali, onde o Paulinho tivera no ano passado um pneu furado por sobreaquecimento dos freios e onde placas avisavam: "Ciclistas: cuidado! 15 km de descidas radicais!".

Logo após a cruz, encontra-se Manjarin, que seria mais uma vilinha deserta se não fosse uma das figuras cada vez mais famosas do Caminho: o hospitaleiro Tomás, que desde 1993 tem ali um ponto de carimbo, num casebre com quatro camas, ambientado com som de Bach. Esta figura ainda toca o sino quando há muita névoa, ajudando os peregrinos que passem por ali. Fomos encontrá-lo dentro da cabana, com mais um hospitaleiro e uma peregrina holandesa (ou alemã, não sei. Era loira...). Ele saiu e tirou fotos conosco nas suas famosas placas indicando a direção e a distância de outras localidades como Santiago, Machu Picchu, Jerusalém, etc. Já tinha visto estes indicadores em Taquile, umailha do lago Titicaca, no Peru e pela indicação de Machu Picchu, não duvido de que foi de lá que Tomás tirou inspiração...

Não há quem passe por ali e não sinta um breve arrepio na espinha. O Diniz foi o primeiro a ssumir, mas o lugar é relamente fantástico, com suas ruínas, sua música, sua localização e a solene negativa de Tomás de que ele mesmo seja um remanescente do Templários. Alguns gatos, galinhas, cachorros e gansos completavam o cenário.

Descida extremamente íngreme até El Acebo, onde chegamos com as sapatas do freio em brasa, cheirando borracha queimada e tendo visto dois peregrinos ciclistas trocando seus pneus furados para trás. Entramos num restaurante para nos reabastecer e nos reaquecer e fizemos a impaciente Sílvia, a garçonete, perder as estribeiras de tanto que a gente brincava com ela. Comemos bem lá, enquanto a chuva voltava a cair lá fora, mas foi a pegação no pé da garçonete, bem mais bonita que a média local, que marcou a nossa passagem. Lá encontramos o grupo de velhinhos americanos novamente. Eles nos reconheceram e disseram que iriam dormir em Ponferrada também, para depois ficarem dois dias em Sarriá.

De volta às biciletas, logo na saída de El Acebo, existe o Monumento ao Ciclista Peregrino, resultado de um peregrino alemão, que morreu lá, provavelmente devido a um acidente nas curvas extremamente íngremes que percorreríamos. Entendemos o aviso...

Em pouco tempo, o freio traseiro acabara. A gente descia revezando o traseiro e o dianteiro, cheirando borracha queimada, morrendo de frio e ao mesmo tempo agradecendo por não estar mais calor, não deixando a bike embalar, porque senão a gente não conseguiria pará-la e torcendo para um pneu não estourar. Este foi o panorama de completa neura que a gente estava, um stress pesado que não tinha como evitar... Foi com extrema felicidade que chegamos a Molinaseca, passando por sua ponte românica e até gostando da subidazinha que teríamos. A proximidade de Ponferrada também era benvinda...

Chegamos em Ponferrada por volta das cinco da tarde, com o tempo ameaçando abrir. Dentro de minha habitual ronda pela cidade, o foco principal era o Castillo Templario, um castelo construído e habitado pelos cavaleiros templários desde 1178 até a dissolução da Ordem, em 1312. Depois disso, no século XV, os Reis Católicos completaram as construções que vemos hoje.

O castelo esteve e está em restauração, pois ficou muito tempo abandonado e para uma cidade como Ponferrada, a última grande aglomeração urbana antes de Santiago, é imprescindível que tal monumento esteja em ordem, tanto para efeitos turísticos como para orgulho da cidade. No entanto, ao andar por suas torres e pátios, é meio complicado imaginar onde viviam, cresciam e lutavam os tais cavaleiros. Hoje é mais uma das grandes façanhas do homem que o tempo se incumbiu de transformar em passado e em ruínas. Mesmo assim, vale o passeio, principalmente se como para mim, você passar por ali com sol e sem pressa de visitar cada cantinho.
Ficamos no hotel Espanha, cujo dono era extremamente atencioso, a diária não era exorbitante e o café da manhã era ótimo. Jantamos no mesmo hotel, só eu, o Paulinho, a Malena e o Paulo. O resto estava cansado pelo dia e como tinham comido alguma coisa pela cidade, não tinham fome no momento...

À noite, devido a tantas mudanças de hotel, quase que confundo o corredor do hotel com o banheiro, passando a partir daí, quando acordasse à noite com vontade de urinar, pensar durante cinco minutos onde estava, e para onde deveria ir. O problema era sério, amigo... Não ria...

Igrejinha no Caminho


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