Diário de Eduardo Valente

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Parada Estratégica Número Dois - As Espanhas do Caminho
Eduardo Valente

O refúgio de Tomás, em Manjarin

A rota por onde peregrinei chama-se Caminho Francês e inicia-se na cidadezinha francesa de Saint Jean Pied-de-Port, atravessa várias províncias para depois de mais de oitocentos quilômetros chegar em Santiago de Compostela.

Apesar de percorrer quase que só um país, pelo norte da Espanha, o que se sente é que há mais de uma Espanha no Caminho, e é sobre estas Espanhas que eu vi que vou falar.

Quando a gente começa, lá na fronteira, franco-espanhola, o povo está tão longe do nosso destino final que o Caminho é como que um sonho meio irreal para eles. Quase que não acreditam quando afirmamos com convicção que chegaremos em Santiago. Esta Espanha é a que dá mais boa viagem, sem intenção de ver se valeu a pena.

Atravessando os Pirineus, chegamos à Navarra, uma Espanha de gestos rudes e hábitos bruscos. A amabilidade quase não existe, e para quem é brasileiro, realmente choca. Na terra do No És Possible, os nativos não tem tempo para se dedicar a nós, peregrinos, que iremos na verdade dar fama a uma cidade tão distante. Com seus recursos escassos e seu clima inóspito, aquela Espanha tem preocupações maiores que um caminho com destino tão distante... Mesmo assim, têm suas tradições, como a corrida de touros em Pamplona, que peregrino nenhum quer cruzar... Tem o ETA e outros bairristas também. Todos com a mesma cara, mista de espanhol e francês. Todo falando basco, impossível de entender...

É com satisfação que saímos da Navarra e entramos em outra província: La Rioja. Terra do vinho e com menos montanhas, podemos dizer que La Rioja é a Espanha caipira, contrastando fortemente com a província anterior. É meio difícil entender o pessoal, principalmente os de Santo Domingo de La Calzada, que falam como se tivessem alguma coisa na boca... As cidades, mais agradáveis, surgem mais freqüentes. Além de Santo Domingo, temos a pérola chamada Logroño. Para muitos, o Caminho começa a partir daqui.

Em Burgos, a coisa começa a mudar de figura. Como toda cidade grande, tem algo de cosmopolita e de impessoal. Burgos é a própria metrópole, a maior cidade do Caminho. Você pode entrar, pode passar, pode sofrer como sofremos com o clima. Não se desanime, nesta Espanha burgalesa, ainda tem espaço prá você, em cidadezinhas como Castrojeriz. A gente acolhe bem, mas a vida tem que continuar... Se quiserem, as opções para comer, dormir ou simplesmente ir e ver são muitas. Fica ao gosto de você, nosso cliente.

Palenca a gente nem viu direito. Passamos num dia por ela, a pedalar entre Castrojeriz e Sahagun. Mas existem algumas cidades famosas, como Fromista. Sobre o povo, nem podemos dizer. A Espanha daqui é restrita aos demais peregrinos, os não-ciclistas. A gente, do pedal, só de passagem, pelos campos abençoados por Santa Monótona...

Quando chegamos a León, sabemos que seremos tratados como peregrinos. Depois de tanto andar, as informações são fartas, os refúgios também. A hospitalidade aumenta, ao mesmo tempo que esta Espanha faz o possível para mostrar-nos que já não depende mais do Caminho. Têm sua vida, eles... Mas mostram-se honrados por visitas tão ilustres como nós peregrinos e demonstram isto com igrejas, museus, monumentos e muita estátua de bronze imitando gente.

A Espanha galega, que começa na província de Lugo, lá em cima, no Cebreiro, se torna verde! Agora, fazendo companhia às tradições e lendas, a natureza chega com força total e vê-se um descortinar de matas que apesar de serem mais ralas que as nossas brasileiras. O idioma parece mais caseiro e esta Espanha que fala galego, ou ao nosso ouvido, portunhol, começa a trocar o J pelo X e o que a gente ouve de igrexa, Xosé, Xuan, queixo, que é o de vaca ou de cabra e não aquela coisa que fica perto da boca. O Caminho se encontra tão próximo que a gente já é quase maioria. às vezes, já se vê mais peregrinos que nativos. Esta Espanha, todo mundo que almeja a Compostelana tem que percorrer...

Finalmente chegamos a La Coruna, a última província e onde está Santiago de Compostela. As cidadezinhas são inúmeras e o povo delas já nem liga direito para os peregrinos. Também, é difícil compreender de onde vieram este malucos com cara de cansado, com bolhas no pé e dores no corpo. Mesmo assim, os séculos de convivência com este seres estranhos os acostumou a tratá-los bem e guiá-los ao seu destino.

Santiago é uma Espanha à parte, onde a gente não sabe quem mora ali e quem é peregrino ou turista. Cidade grande, que vive do turismo e mesmo assim não dá muita bola prá isto. Razão de existirem, o Caminho é como seu coração. Não vivem sem ele, mas na maior parte do tempo, nem percebem que existe.


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