Diário de Eduardo Valente

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Pedalada Número Oito - Santa Monótona
Eduardo Valente

Peregrina a cavalo

De Castrojeriz até Sahagun, num trajeto de 85,55 km, numa média de 18,5 km/h, com variação de altitudes desde 700 m a 900 m.

O primeiro domingo de maio em terras espanholas marca o Dia das Mães, um domingo antes do nosso. Mas não adiantava nada chamar pela mãe, na nossa mais longa pedalada do Caminho, em quase noventa quilômetros, passando por nada menos que três províncias: saindo de Burgos, atravessaríamos Palencia e entraríamos em León.

Pelo menos, o sol prometia cooperar e tomamos o desayuno despreocupados com quase tudo, exceto pela Vânia, que tinha seu joelho bem dolorido. Como a jornada era longa, achávamos que ela poderia não aguentar e sabíamos que não aceitaria de modo algum outro meio de transporte. Ficamos de sobreaviso...

Um grupo de velhinhos americanos, que fazia o Caminho de um modo peculiar: de ônibus! O ônibus parava próximo a uma cidade ou marco do Caminho, e eles desciam, andavam quinhentos metros, fotografavam tudo e voltavam para o ônibus. Certamente não receberiam a Compostelana no final, mas estavam felicíssimos por serem, de certo modo, peregrinos...

Despedimo-nos de Castrojeriz e dez quilômetros depois, chegamos a Puente Fitero. Esta ponte medieval, que hoje tem sete arcos mas já chegou a ter onze, marca a entrada da província de Palencia, passando por sobre o rio Pisuerga. Marca também o início da Terra de Campos, um trajeto aproximadamente plano, com longas distâncias entre os vilarejos. A Vânia chorava baixinho de dor e a gente não sabia o que fazer. Como a cabeça dura dela era ainda maior que sua dor, subiu na bike e foi em frente...

Sempre por caminhos de terra, numa estradinha larga, cheia de pedregulhos, passamos a toda por Itero de La Vega e somente eu passei a toda por Boadilla del Camino. Explico... Nas variantes dentro da cidade, me desliguei do Paulinho, que estava à minha frente e o não via ainda o Diniz, que estava logo atrás de mim. Perdido, perguntei para um senhor por onde passava o Caminho e ele me explicou que eu estava do outro lado da cidade. Rapidamente, retomei o Caminho e pus-me a pedalar mais rápido, para juntar-me ao pessoal.

E cadê o pessoal? Já fazia mais de meia hora que eu pedalava pela trilhinha e nada de ninguém! Sem rádio para saber onde estavam, só me restava torcer para estar no caminho correto... Pelo menos este caminho era agradável! Acompanhava a estradinha estreita de cascalho um rio calmo, que na verdade era o Canal de Castilla. Construído nos finais do século XVIII, por iniciativa do marquês de la Ensenada, visava transportar mercadorias entre aquelas localidades e o porto de Santander, a bordo de barcaças puxadas por mulas, que iam ao lado, pelo caminho onde eu pedalava. Não concluíram a obra, mas naquele trajeto lá estava ela, e as eclusas que apareciam de tempo em tempo deixavam a paisagem ainda mais pitoresca.

Cruzei, ou melhor, passei por dois ciclistas espanhóis e perguntei se Frómista era por ali mesmo. "Todo recto", foi a resposta. E toda reta foi minha pedalada até a eclusa da entrada de Frómista. Lá esperei um pouco, pois sabia que o pessoal só podia estar para trás de mim. Dito e feito: cinco minutos depois, vem o João, o Diniz, o Paulo, a Malena, o Paulinho, a Vânia e a Maria. Eles tinham feito uma parada em Boadilla e eu, apressado, passei lotado. Tudo bem, porque até que foi interessante a pedalada...

Entramos em Frómista e nos deparamos com a igreja de San Martin, um exemplo de arquitetura muzárabe bem legal, igreja esta construída por ordem da mesma rainha que construiu Puente de la Reina. Ao seu lado, o Museu do Queijo deixava-nos com muita fome, ou mucha hambre, como dizem os nativos...

Logo após Frómista, em Población de Campos, uma peregrina nos adverte que a estrada esta fechada, mas resolvemos seguir mesmo assim, para não pegarmos a carretera. Alguns quilômetros para frente descobrimos o porquê: a ponte, que cruzava o rio Ucieza, tinha caído e era preciso achar outro meio de passar. O Cláudio e o Hélder juntaram-se a nós neste ponto e ficamos a procurar um lugar que, se fosse o caso, passariamos com o pé na água, onde permitisse a passagem a vau, já que o rio estava bem baixo. Não foi preciso, porque entrando em uma fazenda ao lado, havia uma estradinha que nos levava à carretera e por lá, atravessamos o rio e voltamos à trilha.

Por vilas como Revenga de Campos, Villarmentero de Campos e Villalcázar de Sirga, seguíamos por um caminho todo sinalizado, exatamente paralelo à estrada. Formado por pilares de pouco mais de meio metro de altura, dispostos dois a dois e com o símbolo de uma concha neles, permitiam a passagem d bike com os alforges sem muita folga, então era preciso um pouco de atenção se não quiséssemos deixa um dos alforges pelo caminho... Mesmo assim, a via de peregrinos era melhor que a estradinha, porque esta estava muito irregular e fazía-nos procurar sempre o melhor caminho, chacoalhando demais a bike e amortecendo tudo.

Vinte quilômetros depois de Frómista chegamos à nossa parada estratégica do dia, e claro, lugar de almoço: Carrion de Los Condes. Estava tendo uma feira rural, com muita gente nas ruas e restaurantes lotados. Máquinas e tratores expostos, barraquinhas por todos os lados e a gente, se sentindo meio alien com nossos capacetes e roupas coloridas, procurávamos lugar para almoçar.

Encontramos um que não estava lotado e conseguimos uma mesa para oito, uma proeza naquele dia. A garçonete nem nos deixou pedir e, já achando que queríamos o menu do peregrino, foi nos informando o que ela tinha. Devia estar de mal humor, ela e o cozinheiro. Pedi, assim como outros de nós, uma costeleta e qual não foi nossa decepção ao ver que de carne não tinha absolutamente nada! Tinha uma pelezinha, que se retirada com jeito, para não rasgar, permitia pelo menos sentir o gosto do petisco. O jeito era chupar os ossinhos, para ver se conseguia alguma nutrição. Apelidamos este infame prato de Chupadillo e pedimos logo a sobremesa, ou postre.

A nossa mal-humorada garçonete nos informa as opções e o Paulinho queria porque queria flan e ela dizia que não tinha. Numa mesa ao lado, um freguês comia o tal de flan. Indagada pelo Paulinho por aquilo, ela diz que não tem flan no menu de peregrino e a gente rasga o verbo! Quem queria flan, pediu flan, quem queria outra coisa, pediu outra coisa e dane-se o tal menu. Pedimos pela carta mesmo, que era o que deveríamos ter feito desde o príncipio, não fosse a tal garçonete bronca, tapada até...

Chupadillos detonados, pegamos a estrada de novo. De vez em quando, uma garoa ameaçava, mas no geral era sol e nuvens. Pelo caminho original, seguimos pelas terras de Santa Monótona, sem absolutamente nada de extraordinário para ver, a ponto de um pastor, com suas muitas ovelhas cruzando o caminho e querendo comer nosso pneu, tornou-se atração e brincava conosco sobre os próximos postos de gasolina para enchermos o tanque...

Nada, absolutamente nada de interessante, e assim ficaram para trás Calzadilla de la Cueza, Lédigos, Terradillos de Templarios (que eu achei conter o famoso castelo, mas me enganei redondamente...), Moratinos e San Nicolás del Real Camino. Chegamos a Sahagun, já na província de León, às cinco da tarde, amortecidos de tanto pedalar.

Sahagun, apesar do nome intrigante, é uma cidade simples, com um albergue caprichado e algumas igrejas que valem uma foto. Reparamos que havia muito mais velhos do que estamos acostumados no Brasil e quando fui perguntar sobre o dia da semana, obtive o seguinte diálogo: "Hoje é domingo?". "No! Es San Lorenzo". "No! Lo dia de la semana!". "Domingo es la otra iglesia, esta es de San Lorenzo". Tirei algumas fotos da tal igreja de São Lourenço e deixei as velhinhas a discutirem para trás. Gente doida, sô!

Jantamos no hotel que ficamos, em frente ao albergue. Só a Vânia não jantou com a gente, porque estava dormindo, de tanta canseira extra proporcionada por seu joelho dolorido. Conosco, o Tico e o Teco (hehe...), também chamados de Hélder e Cláudio, jantaram uma comida bem gostosa, infinitamente melhor que a de Carrión...

O que também valeu para sair do tédio foi descobrirmos que metade do Caminho já havia sido percorrido e Compostela estava mais e mais próxima...

Dona Natividad


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