Diário de Eduardo Valente

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Prá começar...
Eduardo Valente
Igreja-Fortaleza de Portomarin
Pelayo estava cansado. A vida de pastor era dura, mesmo sendo seu povo forte, a dura geografia da região, as feras do campo e as interpéries do tempo sempre pediam seu quinhão em ovelhas na Galícia, no noroeste da atual Espanha.

Naquele dia pelo menos não chovia, e a noite que acabara de cair indicava o retorno rápido à segurança do lar. Pelayo levou suas ovelhas ao aprisco, contou-as e só então se deu conta que uma chuva impressionante de estrelas que caíam para o lado do monte Libradón. Corria o ano de 813, sob o governo de Alfonso II, o Casto.

Sem pestanejar correu para lá e ao chegar no Campo de Estrelas (Compostela), percebeu que algo extraordinário ocorria ali. A história chega ao ouvido de Teodomiro, bispo da diocese de Iria Flávia, que ordena desmatar o monte.

Durante o corte das árvores, alguém encontra uma arca de mármore, que Teodomiro, por revelação divina, anuncia conter os restos do apóstolo Tiago Maior, filho de Zebedeu. Daquele momento em diante, a história da Europa tomava novo rumo.

Disse Goethe certa vez: "A Europa se fez peregrinando-se a Compostela". E foi assim mesmo! Com a reconquista, era necessário mais que uma motivação cultural e financeira, uma pitada de religião para que as terras antes mouras agora se tornassem novamente cristãs. E assim as cidades de León, Logroño foram repovoadas, e cidades como Estella surgiram.

Em Santiago de Compostela surgiu uma grande basílica, para acolher os peregrinos que vinham de todos os cantos da Europa. Vinham a pé e mais tarde a cavalo e bem mais tarde de bicicleta, os tais peregrinos... Vinham portando uma indumentária que tornava-os inconfundíveis, gozando de privilégios restritos aos peregrinos, e transformando aquele antigo monte Libredón num ícone cristão para a idade média.

As lendas sobre o Caminho surgiram, desde galinhas assadas que cacarejavam até o próprio santo pelejando junto aos cruzados, o povo do Caminho apropriou-se dele para então mesclar-se ao seu próprio jeito de ser.

Podia partir de qualquer lugar, desde que o destino final fosse Santiago de Compostela. Surgiram rotas mais famosas, como a Jacobea, a Aragonesa, o Caminho Português, enfim, por onde passassem mais peregrinos... A mais famosa é a Jacobea, que começa na cidadezinha de Saint Jean Pied de Port, na França e foi descrita no Códice Calixtino, com suas etapas e distâncias.

Em tempos mais recentes, o Caminho havia sido abandonado, provavelmente por falta de motivação e também porque a sociedade modernizada impedia o uso de tanto tempo para motivos religiosos. Assim, nos séculos XVIII e XIX e início do século XX, quase ninguém se comprometia a fazer o Caminho, mas em fins do século XX, da década de oitenta em diante, o Caminho ressurgiu!

Hoje, a cada ano, mais e mais pessoas do mundo todo atrevem-se a percorrer os oitocentos quilômetros da sua rota mais famosa, por motivos dos mais diversos possíveis, na esperança de que o tempo peregrinando no Caminho ensine alguma coisa para cada um.

Numa sociedade como a nossa, onde o tempo é realmente dinheiro e dispor de um tempo grande (mais de um mês para peregrinos a pé, quinze a vinte dias para peregrinos de bicicleta), pode ao mesmo tempo ser considerado luxo por alguns, uma necessidade urgente de auto conhecimento por outros, ou ainda uma maneira especial de se escutar uma bela estória, contada por quem a vive.

Só quem faz o Caminho consegue entender o que é o Caminho. É uma dentre as tantas máximas que encontramos durante a peregrinação, e reflete bem o que é tentar explicar o seu significado.

Aqui no Brasil, muitas cidades surgiram à beira de rios. No norte da Espanha, o rio de gente, lendas e milagres com foz em Compostela gerou cidades e povos. Gerou a Europa.

Santa Maria de Eunate

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