Diário de Alex - Com "ampolhas" nos pés

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Caminho Português
Alexandre Santos Rato

De Valença a Redondela - No Inferno de um Polígono

14 de Agosto, 9 horas e 10 minutos da manhã, acabei de descer do comboio que me trouxe do Porto até Valença na sua lentidão doce, percorrendo o Minho. A cidade está em festa e procuro um café para tomar o pequeno-almoço. Por entre uma meia de leite e uma sandes de queijo, reparo nos olhares alegres e de inveja... não entendo o porquê até que uma senhora já de uma certa idade se aproxima de mim e pergunta - "o menino vai para Santiago por bem ou por mal?" - ao que eu sem pensar respondi "por bem!". Daquela senhora de idade surgiu um lindo sorriso que me encanta até hoje.

Depois de comprar uma garrafa de água e tomar um café, saí à procura do posto de turismo... Chego à Ponte Internacional e nada! Vou ao antigo posto de turismo no qual sou informado que o actual se situa a cerca de 800 m para trás! Bom, não vou andar para trás! Para mais significa fazer 1,6 km e percebi que já são 11 horas!!! (tinha-me esquecido da diferença horária para Espanha!).

Tiro a primeira foto na ponte e aproveito para despedir-me por telemóvel dos amigos que não havia tido oportunidade... o Varela e o Djalma.

Sinto uma alegria imensa sem explicação... Rezo a S. Tiago para guiar e proteger o meu caminho... Dou-me conta que já estou em Espanha.

Procuro as setas amarelas... Onde estão??? Sigo para o Parador de Turismo e a escassos metros encontro a primeira seta que merece uma foto. Será eterno e inesquecível, esta foi a primeira de muitas setas que espero encontrar ver e pintar!!!

Logo após o Parador perco-me, felizmente por escassos metros... Um azulejo! Sigo o caminho errado... Quase vou tomar banho no rio Minho!

Subo à Catedral de Tui onde coloco o meu primeiro selo na credencial. O zelador do Museu pergunta-me num tom simpático de onde venho e se encontrei algum peregrino, ao que respondi negativamente porque tinha começado a caminhar em Valença. Um adeus, o pedido de um abraço a Santiago e sigo o meu caminho...

Antes de sair de Tui perdi-me de novo por desatenção (o que é bastante fácil quando se caminha só).... O calor aperta... Antes de sair de Tui troquei de roupa, os meus pés estão a latejar. Nos dedos mindinhos já tenho bolhas... Furei-as e tratei-as.

Depois de passar a Igreja da Virxe do Caminho e as obras existentes nessa zona, encontro dois ciclistas portugueses que partiram da Figueira da Foz... Após um óptimo "papo" eles seguiram o seu caminho... E eu o meu, bem mais lento.

Depois da Ponte das Febres encontro-os de novo... Estavam a refrescar-se... Tendo passado de novo algum tempo depois por mim... Os meus pés estão em "brasa".

Descanso um pouco depois da ponte de Orbenlle. Tiro as botas e troco de meias, nos calcanhares... Bolhas!

Chego em Orbenlle e encontro uma sinalização de uma grande rota bem como uma rota da Xunta da Galicia... Nem vou falar! Andei 1,5 km e estava completamente perdido!!! Por sorte apareceu do meio do nada um agricultor de BTT e lá me indicou o caminho... Toca a voltar para trás e uma subida em terra fofa... Até parecia que estava na neve, tive de subir de lado!!!

Passados algumas centenas de metros encontro de novo os meus companheiros ciclistas (desta vez pela última), tinham estado a almoçar!!!

Antes de atravessar o Polígono Industrial de O Porriño fui comprar mais água e aproveitei para tomar um cafezinho...

Tinham-me falado da travessia, da dificuldade do polígono mas não pensei que fosse tão desesperante olhar e ver uma enorme recta com 3 km de extensão e quase sem sombras. Esta não é com toda a certeza a melhor imagem que se tem quando está 30 e muitos graus centígrados!!!

Consegui fazer o Polígono com uma paragem pelo meio, porque tinha os pés "torrados" e bolhas latejando.

Chego a O Porriño meio perdido. Desde o Polígono que não encontrei qualquer seta amarela ou azulejo!!!

Depois de atravessar a ponte metálica sobre o caminho-de-ferro, fui comprar mais uma garrafa de água... já lá vão 3 (4,5 Lt.)...

Atravesso O Porriño entro em diversas igrejas mas ninguém para carimbar a credencial! Uma pena...

Sigo pela N550 quase até Mós, não sem antes comprar outra garrafa de água e uma lata de sumo... O calor é devastador... E as bolhas...

Começo a subir a rua dos cavaleiros onde me atrevi a escrever a primeira lei de Murphy do caminho português... "Depois de uma subida difícil vem outra pior"...

Quase no alto a poucos metros do final da subida (a chegar a Santiago de Antas) as duas bolhas dos calcanhares estoiram... Ao mesmo tempo!!! Não resisti e caí no chão... O desespero... A dor... Depois de descansar um pouco e recompor-me sigo caminho com muito custo...

Chego ao miliario de Infesta e páro em Vilar de Infesta numa pastelaria onde compro um gelado e... Água!

Olho para o relógio estou preocupado pois não sei quantos quilómetros faltam até Redondela ou quanto tempo vou demorar...

Pior que uma subida íngreme só uma descida....muito íngreme!!! E assim é ao aproximarmo-nos de Chão de Pipas... Muito difícil e duro (por causa das minhas queridas bolhas).

Até a Redondela um pulo... Dorido mas um pulo... Chego às 21H00....

No albergue tomo um banho e descubro que me esqueci dos chinelos... Cuidar das bolhas... Lavar a roupa e sair para comer alguma coisa... Tenho de arrastar os pés para caminhar.

Uma noite descansada... Apenas uma curiosidade... A hospitaleira entregou uma chave a cada um dos hóspedes para podermos voltar depois das 22h00m, hora em que o albergue encerra!!!

 

Enviado por Alexandre Santos Rato.
 
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