Artigos Peregrinos

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AS PEDRAS ROLANDO NO MONTE DO GOZO
Auro Lúcio

It’s only rock and roll, but I like it!
Jagger & Richard


Pode parecer estranho que eu inclua um relato sobre o show dos Stones aqui no meu diário peregrino, mas tudo faz sentido.

A começar da própria sincronicidade dos fatos: estar programado um espetáculo desse jurássico grupo de rock and roll, justamente um dia depois de minha chegada a Santiago, é muito mais que coincidência - se coincidência existisse. Durante a caminhada, presenciei momentos dramáticos, onde companheiros de marcha tiveram que interromper - alguns definitivamente - a viagem pedestre, devido a lesões nos pés e articulações de joelhos, ombros e outras. Auxiliei como pude alguns, outros receberam apoio e auxílio de hospitaleiros e mesmo de serviços médicos, e durante todo o tempo estive me perguntando quando começarei a sofrer as mazelas físicas do Caminho de Santiago? Agora, já encerrada a caminhada, admito que tive mais momentos de prazer e alegria do que episódios de dor, medo ou insegurança pelo meu estado físico. Concluí, com a possibilidade de estar enganado, que o caminho - ao menos dessa vez - tinha para mim uma mensagem que não passou pela flagelação, pelo sofrimento físico, e sim pelas vivências das meditações, dos sonhos, das viagens internas e pela maravilha da convivência com os colegas.

Por isso não me surpreende que a caminhada seja coroada com uma celebração musical, justamente uma das manifestações humanas que mais me tocam o espírito. Aceito com prazer esse oferecimento e vou com tudo a que tenho direito ao desfrute desse espetáculo.

Além disso, ser... digamos, convidado ao show dos Rolling Stones resgata justamente uma época da minha vida - e da qual tive várias reminiscências e releituras durante essa caminhada -, de descobertas e experiências que se refletem até nas menores atitudes que tomo hoje. Foi a época dos vinte anos de idade, dos hippies, da paz e do amor; foi também o momento do endurecimento da ditadura militar no Brasil, da militância pela liberdade política e cultural do Brasil; foram os festivais da Record, os vinhos tomados no Sand Churra enquanto debatíamos entre A Banda e Disparada, as comemorações na rua Buri, 25; roqueiro iniciante, fiz programas nos auditórios da emissoras de TV, curti muito as excursões com a caravana do Barros de Alencar, e - acima de tudo isso - ouvi e adorei muito, mas muito mesmo, os Beatles.

Eu era - e sou - alguém que amava os Beatles e, quase por obrigação, os Rolling Stones. Sempre fui mais atraído pela harmonia e pela criatividade do FabFour do que pela batida seca, monótona e repetitiva dos seus amigos Stones. Isso gerava muita briga nos The Bats, grupo do qual eu fazia parte, lá no bairro do Pari: quase todos preferiam o rock pauleira do Mick Jagger e eu insistia em tirar harmonias vocais de um If I fell ou os acordes complicados de I am the walrus. Como quase sempre fui voto vencido, aprendi a tocar, cantar e gostar de muitas coisas dos Stones, mas sempre com um certo distanciamento afetivo...

Agora, fazendo um piquenique com pão, vinho e queijo, no gramado do monte do Gozo, descubro o quanto é agradável ser presenteado com um cover dos Rolling Stones, feito por eles mesmos, só que trinta anos mais velhos! Uma época de filmes como 2001, Blow-Up, Belle de Jour, Dodeskaden, de seminários de filosofia e encontros secretos nos CAs da USP, Sergio Ricardo jogando o violão no Teatro Paramount (caiu pertinho de mim), tudo isso ressurge de repente, com imagens e som ao vivo, no instante em que o poderoso sistema sonoro do espetáculo detona as primeiras notas de Satisfaction: Mi, Mi, Mi, Fá Sustenido, Sol!...     

Estamos em uns quinze brasileiros, no meio de uma quase multidão que assiste ao espetáculo deste lugar alternativo e aprazível. E eu canto e danço ao lado da platéia, quase todos muito jovens, vendo as imagens dos velhos roqueiros repetindo os mesmos trejeitos de há trinta anos. É claro que, agora, cada rebolada do Mick ou cada riff da guitarra do Keith Richards garantem alguns milhares de dólares a mais em suas contas secretas. Bem, pelo menos não são os meus dólares. Meus minguados recursos estão descendo pela minha garganta na forma de vinho e de sanduíches que nós - no melhor estilo farofeiro de Compostela - exibimos sobre o saco de dormir transformado em toalha de piquenique. E tome canto e dança.

- Agora eu quero cantar uma música romântica para vocês - diz o cantor da boca grande, entremeando algumas palavras em espanhol ao seu esquisito sotaque britânico - e gostaria que cantassem comigo!

Apagam-se as luzes, um foco no palco e centenas de lanternas são acesas na platéia. Parece tudo ensaiado, e na verdade todos desempenhamos nosso papel no conjunto do show.

- She would never say where she came from...

E vou cantando junto o Ruby Tuesday, uma das músicas dos Stones que eu gostava mais que as outras, um pouco pela melodia mais rica que a maioria das canções que tocavam e em parte pela história da tal Ruby, que ia e voltava, e ninguém sabia bem o que ela era.

- Adeus, Ruby Tuesday, quem poderá dar um nome a você,

quando você muda a cada novo dia,

até que eu sinta sua falta!

O espetáculo nos deu mais de uma hora de música que, apesar da distância do palco, chegou até nós de forma perfeita e com todo o peso que se espera do velho e bom rock and roll. Quase ao final da sessão de cantoria e danças eu me sinto leve, feliz e quase completamente rouco de tanto gritar. Como que especialmente para mim e para os outros peregrinos, Mick Jagger começa a cantar uma música do Bob Dylan que tem uma letra imensa e difícil, mas da qual eu sei direitinho algumas partes. E é cantando esses pedaços do Like a Rolling Stone que vou encerrando minha participação interativa no show dos Stones no Monte do Gozo, quase meia noite do dia 15 de junho:

- Ah, agora você não se sente tão orgulhoso,

agora você já não fala tão alto...

Como você se sente? Como você se sente,

estando aí sozinho,

sem encontrar o rumo de casa,

como um completo desconhecido,

como uma pedra rolante? 

Vamos andando para o nosso quarto no albergue e as perguntas do refrão da música ecoando na minha cabeça; as respostas a esses versos vão surgindo, automaticamente após cada estrofe.

- Sim, felizmente estou menos orgulhoso, mas ainda falta perder muito de ego e pretensão; estou aprendendo a falar mais baixo e a respeitar a fala do outro, pois cada um tem uma história para contar. Nunca poderei perder o rumo de minha casa, porque sou filho e morador deste planeta e meu coração consegue se aconchegar em todos os lugares. Descobri que estar sozinho e estar no meio da multidão é a mesma coisa, e que isso acontece simultaneamente para que a vida que me circunda encontre espaço para existir dentro de mim; vivi dias maravilhosos, entre pessoas para as quais eu era um completo desconhecido, e nem por isso deixei de receber carinho, compreensão e amor de forma plena e incondicional.

- Como uma pedra que rola? Talvez o poeta Zimmerman tenha desenhado essa imagem com alguma conotação negativa, como se a perda da estrutura fosse, para o personagem de sua canção, um castigo ou algo assim. Para mim, nada me dá mais satisfaction, agora, do que ter sido e estar sendo um peregrino, um caminhante, um ser de passagem pelos lugares. A consciência de ser um passante aumenta minha responsabilidade pelos meus atos e pelo que estou deixando atrás de meus passos. Sentir-me como uma pedra rolante, exatamente um dos grandes emblemas do Caminho de Santiago, é algo que pretendo levar comigo deste período sabático, desta vida entre parênteses que estou vivendo nessa primavera ibérica. Expulso do paraíso, Adão recebeu como missão procurar o caminho de volta ao seio de Deus, e para isso deveria caminhar até o fim dos seus dias. Quem sou eu para me negar a cumprir essa ordem divina depois de receber tantas mensagens - evidentes ou cifradas - dizendo aos meus ouvidos que estou aqui de passagem?

Antes de cairmos no merecido e repousante sono, quase à uma da manhã, combinamos que iremos alugar um carro amanhã, para ir até Finisterre. Todos queremos chegar ao extremo do continente europeu, ponto final da rota da peregrinação; Santiago, Finisterre e, depois disso, o Oceano Atlântico. Durmo com a melodia de Ruby Tuesday na cabeça:

- Não há tempo a perder, ouço-a dizer,

Agarre seus sonhos antes que eles se desvaneçam...

Perca seus sonhos e você vai perder seu espírito,

em uma vida sem encantos!...

Enviado por Auro Lúcio Silva - Visite sua homepage
 
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