Artigos Peregrinos Especiais

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Máqui Santér
(autor do livro "Guia do Peregrino no Caminho de Santiago")
 
Muito longe das setas amarelas

Zé Roberto
Aqui está o texto que prometi. Não sei se é bem o que você gostaria de ler, mas escrevi como um sincero desabafo, como uma pública e honesta confissão sobre o tema.
Espero que goste e espero, sobretudo, que meu pequeno depoimento seja útil aos peregrinos.
Deus te abençoe e obrigado pelo convite.

Maqui

Recebi um convite para publicar neste site um texto sobre o Caminho de Santiago. Aceitei por duas razões: o site é excelente e cumpre com sucesso a missão de levar todas as informações possíveis aos interessados no Caminho de Santiago. A segunda razão, é que talvez eu tenha mesmo algo a dizer, já que tive mais de dez anos para pensar sobre a peregrinação.

Percorri meu Caminho em 1990 e publiquei cerca de um ano depois um guia para peregrinos. Nestes dez anos, muita coisa mudou no Caminho, muita coisa mudou no meu caminho e sou hoje um homem diferente daquele que percorreu a trilha. Certamente, sou um homem muito diferente daquele que escreveu o "Guia do Peregrino do Caminho de Santiago".

Lembro-me que há dez anos, enfrentei desafios práticos: colher informações sobre o Caminho, juntar dinheiro, comprar passagens, cuidar do meu corpo ao longo da trilha, orientar-me pelos mapas e confiar nas setas amarelas. Cumprida esta missão, acreditei que o Caminho estaria comigo para sempre como lição viva, como um patrimônio pessoal de direito, como prova incontestável de conquista. Acreditei também que depois de enfrentar estes desafios práticos e os 800 Km de caminhada, receberia em troca um poder que tornaria o resto do meu caminho pela vida uma corrida segura para a vitória, uma caminhada firme para a luz.

As coisas não são bem assim. No meu caminho, pelo menos, elas não foram assim.

Depois de Santiago, passei mais de um ano vagando por aí, percorrendo sem rumo antigas trilhas da Escócia, da Irlanda e de Israel. Demorei quase uma década para entender que há um tempo para peregrinar e um tempo para não peregrinar. Há um tempo para partir e um tempo para permanecer, firme, imóvel, invencível. A regra para decidir estas marés de fluxo e refluxo é relativamente simples: de que forma eu mantenho mais afiada a minha fé? Ficar, pode significar no contexto daquele momento, um desafio maior do que partir. Aceitar os desafios locais e as armadilhas do próprio quintal pode exigir mais coragem do que percorrer trilhas misteriosas, medievais e geograficamente distantes. Ficar pode significar fugir, assim como partir pode significar fugir. É preciso uma honestidade quase cruel para consigo mesmo no processo de estabelecer estas diferenças.

Por quase uma década achei que o Caminho de Santiago havia traído o meu esforço. Nos anos que se seguiram à peregrinação, minha vida tornou-se comum, banal, e agi, muitas vezes, sem o brilho e sem a coragem de peregrino. Tornei-me, em resumo, um reflexo pálido e distante do homem que eu tinha sido nas trilhas da Espanha. Precisei voltar muitos passos e descobrir nas encruzilhadas do meu caminho o erro oculto, o engano, o trecho do meu percurso em que havia perdido o meu espírito de busca. Nesta experiência de revisão, entendi um pouco mais as partidas, as chegadas e os mistérios das marés sagradas que determinam o momento de ser peregrino em seu próprio país, em sua própria casa, na sua própria vizinhança, na sua própria família. Entendi, sobretudo, o desafio de ser peregrino todos os dias, todos os minutos, mesmo quando esta lenta caminhada parece não ter fim, mesmo quando estas armadilhas não são consagradas por séculos de tradição, mesmo quando não há por perto uma única seta amarela indicando o caminho certo.

Tenho acompanhado ao longo destes anos o fluxo crescente de peregrinos brasileiros. Isto me alegra. Mas também tenho acompanhado o número crescente de pessoas que permanecem presas ao Caminho de Santiago, repetindo esta aventura muitas vezes, todos os anos, acreditando, talvez, que o poder da peregrinação é um bem cumulativo. Peregrinam como se a fé fosse uma questão de milhagem. Isto me preocupa. Na minha opinião, a essência da peregrinação está em se lançar no Desconhecido, em cumprir a missão de se entregar de corpo e alma aos desafios e às múltiplas tarefas que a fé impõe (qualquer tipo de fé religiosa, de qualquer tipo de religião). O mundo está cheio de caminhos, cheio de oportunidades para exercitar este tipo de coragem. Repetir ano após ano a mesma aventura parece-me um modo hábil de escapar de novos e surpreendentes desafios.

Sem querer me alongar mais do que já me alonguei e sem querer abusar do generoso convite que recebi, se pudesse resumir a essência do que pude aprender estes anos, eu diria que todo dia é dia de peregrinação, mas há um tempo para partir e um tempo para ficar. Descobrir o momento exato e estabelecer com nobreza esta diferença é que consiste toda a sabedoria da peregrinação, todo o poder prometido pela velha tradição. E na falta de setas amarelas, é preciso que você mesmo marque as setas dos novos caminhos.

Leia a entrevista que Máqui deu à Lízia Azevedo

 
 

Enviado por Máqui Santér
 
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