Artigos Peregrinos

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Homenagem ao Peregrino
Lobo
O que retiro desta nação linear? Desta pátria dos sentidos que é o Caminho? Antevejo o regresso ao lar, aos desígnios imaginados por sedimentos outrora deuses.

Pequenos nichos resguardados pela criação tempo.

Aqui sou a maçã que retorna aos ramos, sou a árvore que retorna ao solo, sou o solo que retorna ao meteoro, sou aqui a descoberta.
Aqui, em Lizarra, no Erro ou no Perdão, sou, no fundo dos contornos, um ponto discordante.

Um infímo indutor.

Ei! Alma! Temos tempo para andar, para condensar todas as virtudes e beijarmos o Sol.

Lá ao longe, para além da pétrea serena muralha, o que pressinto, o que avisto? O Cebreiro e a sua aura, o fantasma benfazejo que te massaja os pés e o coração. São estas as ladeiras onde deslizam os derradeiros cervos, os que em ruído sombra se convertem. Qual o teu sonho cervo? Qual o teu sonho peregrino?

O da fúria incontida, do contacto animal.

O sonho comum a qualquer outro ser antes mundo, porque, quando colocas a tua mão e as sementes germinam, sorris e cantas a canção dos sonhos. Da aprovação. Este é o ponto de partida, génese e guarida, esta é a fábula dos vales outrora gelo, dos gelos outrora céu, ou de como os céus rasgaram a terra. O peregrino é toda esta fronteira e ao mesmo tempo, toda a distância que o separa dela.

Ele é, sabendo, o fulgor do regresso, ele é, sem dúvida, o seu próprio assombro. Revelado num grito gerado nas suas entranhas, num ponto que, alimentado, transpões a carne e dilacerante, toma as montanhas que o rodeiam.

Aqui, onde o pão retorna ao sacrário, onde, caminhando na noite ele se une à abóbada celeste e ama a imensidão, o mar de astros entre Cirauqui (o ninho das víboras) e Lorca.

Deita-se no solo temperado de vida e escuta o marulhar da Criação, um marulhar que, de inicialmente inaudível, cresce e se revela sinfonia, executada livremente pelas criaturas que se reúnem para legitimar a beleza.

Como se torna simples e admirável o homem…quando a ti chega o odor da sua lareira, do seu vinho ofertado com um único fim, o da comunhão.

É do peregrino por direito, o vislumbrar da magnificência do mundo, porque ele, com os pés tocando o solo e usando uma coroa de estrelas, intui. E, intuindo, descobre-se, não um espectador, mas um operário deste templo único. Um templo de reencontros, que faz da inconstância a sua regra. O peregrino é o reencontro com o primordial, o peregrino é onde era o homem antes do temor, porque aqui, na tempestade, ele é o sorriso que denuncia o calor. Ele é a varanda sobre a enxurrada.

Dos vitrais de Léon ao catre de Manjarín o que há em comum? Nada e todas as gentes. Da destreza dos construtores à hospitalidade de uma aldeia deserta, queda-se a cumplicidade, a viagem de reconstrução humana, a viagem da regeneração. Um cadinho preparado com os subúrbios da alma. Um pouco de montanha, um pouco de lobo, um pouco de rio, um pouco de estrelas, dor e euforia, assim, aos poucos, temos magia. Que irradia.
 
Enviado por Lobo
 
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