Artigos Peregrinos

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Hospitaleiros e hospitalidade 2
Carmen Lemos
Como muitos já sabem, iniciei meu Caminho em Santo Domingo de la Calzada. No meu primeiro dia de caminhada iria fazer a etapa Santo Domingo - Belorado. Era inexperiente. Era o meu primeiro dia de caminhada. Não sabia bem o que enfrentaria. Comecei a andar pela carreteira e fui me distraindo com os caminhoneiros que sempre buzinavam e acenavam para mim, melhor dizendo, para os peregrinos. Eu não via ninguém à frente ou atrás. Imaginava-me sozinha, e assim fui caminhando. Encontrei alguns peregrinos em Grañon e em Redencilla del Camino. Do mais, caminhei só. Não compreendera ainda como funcionava a "Instituição Peregrinação".

Eu tinha saído muito tarde, caminhei devagar e quando cheguei em Belorado, depois de 7 h de caminhada, o albergue estava lotado. Só aí vi que vários dos peregrinos que eu havia visto no caminho, já estavam acomodados. Não sei quando me passaram ou como me atrasei tanto. A hospitaleira, D. Estela, era muito brava. Cheguei, timidamente, meio sem jeito, não sabia como fazer, não estava acostumada a ser peregrina. Fui informada, secamente, que não havia lugar, se eu quisesse, teria de dormir no chão da prefeitura. Perguntei-lhe se na cidade havia algum Hostal. Ela respondeu secamente, que a Associação não responderia pelos hostais e que não recomendava nada, e que se eu quisesse que ficasse ali.

Eu não tinha nada a perder. Não estava muito cansada, embora o primeiro dia de caminhada sempre tem sua repercussão no organismo. Dize-lhe, então, que ficaria mesmo assim. Aguardei na fila minha vez de tomar o banho que, agora, estava frio.

Logo após eu tomar o banho, me informei aonde poderia lavar minhas roupas. Quando estava estendendo, vi 2 peregrinos que eu havia encontrado no Caminho - uma brasileira e um espanhol cinqüentão, que caminhavam juntos. Ela tinha bolhas e ela cuidava dela, quando os vi pela primeira vez. Ajudei o senhor torcer as suas roupas e disse a brasileira: "Não há lugares, mas soube que se vc tiver com problemas de saúde - como o seu - pode solicitar à hospitaleira para acomoda-la" .

Dito e feito. Embora o albergue estivesse lotado e eu não tivesse conseguido vaga, minha amiga fora acomodada numa cama, a única pessoa que estava já deitada.

Lá pelas tantas, D. Estela - a brava - veio me perguntar se eu estava querendo descansar. Afirmei que sim. Este albergue é muito pequeno, ela não havia aberto os quartos e todos estavam numa sala pequena sentados nos bancos e cadeiras. Aí, ela me conduziu ao quintal. Era um quintal de chão batido, lugar trancado a chave, aonde os peregrinos estendiam suas roupas. Havia um cantinho cimentado. Bem, eu não tinha nada a perder. Estendi meu colchonete de espuma no chão e fiz uma bela seção de alongamento e relaxamento, sob sol das 15h, em pleno verão europeu. Pensam que eu me incomodei, não, nesse dia eu estava muito feliz, porque iniciara a realização do grande sonho.

Quando foi 17h, D. Estela chamou todos os peregrinos. Sentenciou: "os que vão para a prefeitura, peguem suas bagagens".

Recolhi meu colchonete, peguei minha mochila e me dirigi para a porta. Fui barrada. Ela novamente sentenciou: "vc fica" .

Obedeci. Qual não foi minha surpresa. D. Estela me cedeu uma cama, no quarto da terceira idade. Não sabia se ficava contente ou chocada. É brincadeira. Na verdade, até hoje não sei porque eu fiquei com a cama, pois muitos que chegara antes de mim foram conduzidos ao chão. Eu costumo dizer que é a vantagem de ter mais idade, mas, não sei ao certo.

Só sei que, mesmo D. Estela tendo sido ríspida, brava, categórica comigo, tb sentia que ela era doce, respeitosa, e acolhedora. Essa opinião não decorre do fato dela ter me cedido uma cama.Veja bem, eu disse: ela me cedeu uma cama. Talvez eu tenha percebido que ela tinha critérios claros para administrar o albergue. Me pareceu que a senha era: Não temos vagas, e a contra-senha: sem problemas, eu fico aqui assim mesmo.

Creio que muito do que vivemos no Caminho diz respeito a nossas expectativas e ao modo como nossa personalidade reage a elas. Será que se eu tivesse exigido meus direitos eu teria sido acomodada? Será que se eu tivesse brigado porque ela acomodou a brasileira que chegou depois e era mais jovem eu teria recebido uma cama? Será que se eu tivesse me queixado da água fria, teria recebido um lugarzinho para meu alongamento (era a única metragem quadrada sem peregrinos amontoados).

Bem, fica aqui mais um história do caminho para refletirmos...
 
Enviado por Carmen Lemos
 
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