Artigos Peregrinos

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A Pedra da Esperança
Fabiano Rezende Passos

Meu grande irmão, o mais velho dos irmãos, na sua adolescência fora acometido de um problema psicológico que o acompanha até a presente data, embora ele já tenha alcançado 30 anos de idade; e, por forças das circunstâncias e do destino fui o seu paciente, aprendi a ser paciente. Por esta razão, dentre outras decidimos eu e meu pai, percorrermos o nosso tão sonhado Caminho de Santiago de Compostela; e a Cruz de Ferro era um dos nossos maiores objetivos. Começamos o caminho em Pamplona, mas esta história se inicia em Astorga, já no final do caminho, no dia 16 de junho de 2007.

Acordamos cedo em Astorga, no albergue municipal, próximo a praça do Palácio de Gaudi, nos arrumamos e descemos suas escadarias  com os alforges até um galpão, no subterrâneo do albergue onde estavam as bicicletas. Colocamos os alforges nas bicicletas, despedimos dos peregrinos, e fomos tomar nosso café da manhã na lanchonete da rodoviária. Após aquele saboroso café com leite, iniciamos o tramo do dia, agora mais próximos da Cruz de Ferro.  A partir de agora a emoção e a ansiedade ocupam lugar em nosso caminho, junto com a nossa fé em São Tiago. Após pedalarmos quase a metade do tramo, ocorreu um problema mecânico na bicicleta do meu pai que nos obrigou a parar para arruma-la. Após diversas tentativas frustradas para concertar surgiu de súbito um peregrino espanhol que vinha de Barcelona;  jovem, e bem disposto nos ajudou a concertar a borrachinha do freio traseiro que estava encostando no aro. Após nos ajudar, se despediu.  Nós seguimos viagem logo em seguida,  sob sol forte, e em uma reta que parecia não ter fim. Chegamos ao Bar Cowboy Meson e paramos para almoçar uma saborosa sopa de lentilhas, até então por nós desconhecida. Mas que sabor! Terminamos nosso almoço, pagamos a conta e com pressa seguimos por uma parte linda do caminho; um campo de flores por vários quilômetros.  O sol desapareceu, e começou chuva e muito frio. E após uma reta que parecia distante de acabar, pegamos uma descida; subimos um morro; e, chegamos em Rabanal Del Camino envoltos em muito frio. Logo na entrada encontramos um albergue, encostamos as bicicletas em frente ao mesmo; retiramos os alforges, exaustos e com frio. Entramos. Carimbamos as credenciais; pagamos o pernoite e fomos demarcar nossas camas com os alforges. Em seguida fomos até a lanchonete ao lado tomar café e descansar. Após  nosso delicioso café, como de hábito o hospitaleiro do albergue nos levou até uma casa distante dali uns 50 metros, que se situava numa área de camping para guardarmos nossas bicicletas, o que fizemos. Logo após fomos a um supermercado fazer compras para o jantar; no caminho nos deparamos com uma igreja medieval, entramos fizemos uma oração e seguimos. Já no albergue fomos descansar até a hora do jantar.   Fizemos nosso jantar que consistia em salada mista, arroz, bife e alguns enlatados, jantamos e logo em seguida fomos em busca do sono reparador. Dormimos cedo devido ao frio e o cansaço; e, para mim parecia que já havia ultrapassado meu limite físico, devido a uma dor na lateral das coxas que começou ao subir o alto do perdão e me acompanhou durante todo o caminho de Santiago. Após uma noite de um bom sono, acordamos dispostos a seguir viagem. Como de rotina, nos preparamos, arrumando nossas coisas nos alforges; e o hospitaleiro nos levou até a casa onde estavam nossas bicicletas. Pegamo-las. Já na saída paramos numa cafeteria para fazer o nosso desayuno consistindo em bocadilho e leche com café quentíssimo, o que nos aqueceu, tendo em vista que aquela manhã estava absolutamente fria e com uma neblina tão intensa e baixa que mal enxergávamos o caminho.

Com pressa, pegamos nossas bicicletas e fomos em direção a trilha, mas tivemos que parar porque apareceu outro defeito no freio da bicicleta do meu pai, só que agora no dianteiro. Paramos, arrumamos e seguimos na trilha ao encontro da tão esperada Cruz de Ferro. Iniciamos a subida de uma montanha que parecia infinita. Nessa subida, surge em meio a neblina uma cruz em homenagem a um peregrino argentino que falecera ali. Meu pai pediu para que eu colocasse uma pedra sobre a cruz; eu com cuidado para não derrubar as outras, coloquei-na, fizemos uma oração e seguimos montanha acima. Logo a seguir nos deparamos com outra cruz, desta vez  em homenagem a um peregrino sueco, falecido naquele local. Esses dois fatos nos impressionaram, porque em curto espaço pairavam na solidão da montanha, duas cruzes erguidas em homenagem a peregrinos que tombaram em plena caminhada. Aquilo de certa forma nos intimidava.

Era subida e mais subida. De repente, surge meio a intensa neblina, a fantasmatagórica e enigmática Foncebadon, com uma cruz cravada no meio da rua principal. Parecia uma cena de filme de terror. Aquelas eram ruínas de uma grande e próspera cidade do passado medieval, mas que o tempo a jogou por terra. Estava muito frio e a neblina continuava mais intensa que lá embaixo. Paramos em uma lanchonete para tomarmos uma xícara de café com leite quente para nos aquecermos.

Ao sairmos passamos no Albergue Monte Irago, carimbamos nossas credenciais e seguimos ladeira acima. Meu pai sempre dizia que já estava perto da Cruz de Ferro, porém, ela não aparecia.  Ofegantes e com o coração acelerado continuamos o percurso. 

Devagar Foncebadon foi ficando para traz, perdida em suas próprias ruínas. Lá do alto, ao entrarmos numa curva a contemplamos pela última vez. Continuamos a pedalar. Às vezes era necessário que empurrássemos as bicicletas, pois a ladeira era verdadeiramente íngrime. O cansaço era enorme. Era quase fadiga. Após pedaladas e mais pedaladas de longe avistamos a ponta da Cruz de Ferro, no topo da montanha. Meu pai saiu em disparada e eu o segui. Chegando, encostamos as bicicletas em uma cerca, e a emoção nos contagiou; a ansiedade chegou ao fim; e a fé alcança seu esplendor. O local estava repleto de peregrinos e turistas de todas as partes.

Naquele momento circulava a notícia de que havia numa casa de pedra que fica próximo à Cruz de Ferro, um peregrino que havia se acidentado com sua bicicleta. Ainda trôpegos, fomos procurar umas pedras para depositá-las aos pés da Cruz de Ferro, em obediência ao ritual peregrino. Eu peguei uma e meu pai algumas e subimos até o ápice do monte de pedra onde está cravada a respectiva cruz. Meu pai depositou as suas, e, eu a minha pedra da esperança e fiz um pedido para meu irmão. Após o ritual peregrino, seguimos viagem, montanha abaixo em direção a Santiago de Compostela, distante dali aproximadamente 227 quilômetros, quando a saudade já era eterna.

Peregrinos: Fabiano Rezende Passos(filho) e Tarcisio Valeriano dos Passos(pai).
Fizemos o Caminho de Santiago de Compostela, de bicicleta, a partir de Pamplona, em 13/06/2007, chegando a Santiago dia 29 do mesmo mês.
 
Obs: A foto da placa de Foncebadon está presente ( Fabiano) e na foto da Cruz de Ferro esta presente Fabiano e meu pai Tarcisio.
 

Enviado por Fabiano Rezende Passos
 
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