Artigos Peregrinos

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Breve Análise Geopolítica sobre o Caminho de Santiago
Edison Martins

Para situar e compreender o surgimento do caminho de Santiago, a partir do século IX, como evento de caráter sociológico e elemento de importância geopolítica e econômica, é preciso examinar e ordenar cronologicamente os fatos relevantes e os antecedentes do cenário europeu ocidental desde os séculos VII e VI a.C., ao final da Idade do Bronze e ao início da Idade do Ferro. Foi neste período que, na península itálica, Roma surgiu como república, originada de um agrupamento de aldeias de influência etrusca. Na mesma época, os Celtas, povo originário das regiões dos rios Reno e Danúbio, penetravam na península ibérica. Ao longo de quatro séculos, Roma fortaleceu-se e empreendeu conquistas, transformando-se em império e expandindo-se pela Europa ocidental. No século 2 a.C., incorporou os Celtas sob seu domínio e ocupou a península ibérica, onde a cultura românica foi somar-se à céltica. O deslocamento das legiões romanas até a fronteira ocidental do império implicou a construção de estradas e fortificações nos diferentes eixos de penetração. A ótica militar foi primordial neste contexto e, em função das características da topografia, pontos estratégicos foram escolhidos para a instalação de quartéis ou fortes (o castrum). Muitos deles geraram agrupamentos humanos que se consolidaram, mais tarde, como vilas e cidades.

Na quarta década do século I, após a morte de Jesus de Nazaré no ano de 33, conforme os registros, o cristianismo expandiu-se inicialmente na Palestina, de onde se propagou para outras regiões do império de César. O apóstolo Tiago, um dos doze seguidores mais próximos de Jesus, foi decapitado em 44, em Jerusalém e, segundo a lenda, seus restos foram trasladados por dois discípulos para a península ibérica, onde, como se supõe, foram sepultados na Galícia.

No século III, o domínio romano era completo no perímetro do Mediterrâneo, o que abrangia o norte da África, o Oriente Médio, o noroeste da península arábica, o sudoeste da Ásia, a região balcânica, parte da Europa central e a totalidade da Europa ocidental. Os imperadores, tendo alcançado os limites de conquista que julgavam naturais, voltaram-se, então, para as províncias onde defesa e segurança eram consideradas insuficientes, como, por exemplo, a Lusitânia, a Galícia e a Tarragona, na península ibérica. Lá, ampliaram a rede de fortificações e de estradas e estimularam o surgimento de novas povoações e o crescimento das já existentes por meio de obras de urbanização, como aquedutos, calçamento de vias e construção de edificações públicas, legando ao futuro das nações espanhola e portuguesa, assim, o vasto e belo patrimônio de arquitetura românica que elas detêm.

Ao final do século IV, em 395, com a morte do imperador Teodósio, o império Romano foi dividido em dois: o do ocidente, com capital em Roma, e o do oriente, com capital em Constantinopla. O império do ocidente entrou, então, em fase de acelerada decadência das elites e de derrocada econômica, e foi nesta situação que as primeiras ondas migratórias dos povos ditos "bárbaros" - aqueles que viviam além das fronteiras do "civilizado" império romano - o encontraram.

O período que envolve os séculos V e VI foi de intensa movimentação naquele cenário, marcado, principalmente, pelas invasões bárbaras. O avanço dos hunos asiáticos sobre as porções oriental e central da Europa impeliram tribos germânicas e eslavas, que não estavam sob domínio romano, a ultrapassar as fronteiras do império do ocidente. As tribos do povo franco ocuparam a região compreendida entre os rios Reno e Sena, parte das atuais Alemanha e França. Na península ibérica a ocupação foi feita por suevos, na região da Galícia, por bascos, no norte-nordeste, e por visigodos, no centro-sul e parte do nordeste. Os vândalos e alanos não se fixaram na península, mas cruzaram-na em direção à África, atingida após a ultrapassagem do estreito de Gibraltar. Todavia, também deixaram marcas na cultura ibérica. A região balcânica foi conquistada por eslavos, o que interrompeu os vínculos diretos entre Roma e Constantinopla. Tais migrações, ou invasões, constituíram, de fato, o marco inicial da civilização européia, já que Roma, historicamente, sempre esteve voltada para a estrutura de poder mediterrânea. Foi a partir daí que os centros de influência na Europa se mudaram, paulatinamente, para a região ao norte da cadeia alpina. A esta altura dos acontecimentos, o avanço árabe crescia sobre as províncias romanas do Oriente Médio e do norte da África, e o império perdia a Palestina.

Diante das sucessivas investidas, a sede do império do ocidente, em 476, caiu em poder de bárbaros, que estabeleceram novo reino em toda a península itálica. Este é o ponto de inflexão histórica que marca o início da Idade Média. O império do oriente, também conhecido como império bizantino, separado dos problemas do mundo bárbaro, ainda sobreviveria um milênio como unidade política. Embora profundamente helenizado e sob a influência das culturas tipicamente orientais, considerava-se o legítimo herdeiro de Roma. Sua queda só ocorreu em 1435, com a invasão turca das hostes de Maomé II, marcando o fim da Idade Média e o começo do Renascimento.
A propósito, por falar em Maomé, o profeta-pai do islamismo nasceu em Meca, em 570, ou seja, quase seis séculos depois de Cristo. Suas primeiras revelações foram recebidas em 610 e a difusão do "islã", que significa submissão à vontade de Deus, propagou-se rápida na Arábia. Após a morte do profeta, em 632, os exércitos muçulmanos passaram a levar o islamismo para as áreas então conquistadas, cobrindo, dessa forma, todo o norte da África.

Enquanto isso, o cristianismo, que durante os primeiros séculos estivera restrito às fronteiras romanas, passou a ser decisivamente afetado pelo declínio do império. As invasões germânicas na Europa ocidental e o rápido avanço do islã no Oriente Médio e na África do Norte constituíram o fator principal para a alteração do status da igreja católica. Os eslavos, na região dos Bálcãs, não eram cristãos. No oeste europeu, parte dos invasores praticava o arianismo; outros, embora já convertidos ao cristianismo, não reconheciam a autoridade papal. Os francos e os anglo-saxãos, no norte, eram pagãos. Ou seja, sem um império unificado e cristianizado, a Igreja desintegrou-se. Na Gália e na Ibéria, particularmente, a maioria das igrejas tornou-se independente e, gradativamente, se corrompeu. Mesmo enfraquecida, a cúpula católica romana ainda manteve disputas com a cúpula de Constantinopla, ao longo de cinco séculos, pela primazia da autoridade. Deste processo, gerou-se o cisma permanente no cristianismo católico: a igreja apostólica romana, sob o poder papal e a igreja ortodoxa, sob o poder do patriarcado do oriente. No ocidente, o estímulo ao renascimento cristão teve origem na igreja celta da Irlanda, que, monástica e missionária, permaneceu durante mais de trezentos anos em toda a Europa, num processo sistemático de conversão das tribos pagãs. Com o papado enfraquecido e distante, os conventos tornaram-se a única representação palpável do reino de Deus na Terra, e a influência das ordens monásticas na cristianização dos povos bárbaros foi preponderante. A autoridade papal, em Roma, só voltou a se fortalecer no final do primeiro milênio. Sua consolidação ocorreu a partir da contra-ofensiva ao islã na península ibérica e do patrocínio, pelo papa, da primeira cruzada, na tentativa de restaurar o cristianismo na Palestina, já no século XI. À propagação da fé pelas ordens monásticas somou-se, então, a das ordens militares cristãs. Na Europa ocidental, principalmente na Ibéria, tiveram destaque a monástica ordem de Cluny e a militar ordem do Templo. A ordem monástica de Cister atuou particularmente na Europa oriental.

Voltando-se ao encadeamento cronológico dos fatos, convém destacar que o cenário europeu no século VII foi marcado pela superioridade do reino dos francos, os mais poderosos sucessores bárbaros de Roma. Sua hegemonia na Europa ocidental durou praticamente quatro séculos, do V ao IX, aí se incluindo, antes da invasão muçulmana, o reino visigodo ibérico, que, por sua vez, já abrangia a Galícia tomada aos suevos. O mais famoso monarca franco, como todos sabem, foi o imperador Carlos Magno, da dinastia carolíngea, coroado no ano 800.

A mistura das culturas romana e germânica de diferentes segmentos, aliada à antecessora cultura céltica, levou ao surgimento de uma civilização européia com características bastante peculiares e altamente mescladas, em processo de absorção que durou do século VII ao XI. Apesar disso, rivalidades étnicas constituiriam óbices permanentes à eventual e completa aglutinação, e legariam aos nossos dias as sangrentas disputas étnicas, políticas e religiosas verificadas em diferentes pontos do cenário considerado.

O importante evento histórico do início do século VIII foi o avanço do islã sobre a península ibérica, a partir do norte da África. A monarquia visigoda que lá se havia formado dois séculos antes fora batida pelos francos e, para refugiar-se, transferiu a capital para Toledo, bem ao centro do território hispânico, abandonando suas possessões além dos montes Pirineus (que marcam a atual fronteira com a França). Os visigodos, que originalmente não representavam uma grande massa demográfica, haviam-se dissolvido na população hispano-romana que já habitava a região, após a conquista da península. No processo de fusão política e social que se seguiu, facilitado, posteriormente, pela unidade religiosa com os vencidos, em decorrência da conversão cristã a que os visigodos se submeteram na passagem do século VI para o VII, pouco foi mudado, na essência, da fisionomia social e lingüística da base românico-ibérica. Exemplo disto foi a perpetuação do direito romano nos códigos jurídicos da nova sociedade formada. Estes fatos têm relevância no desencadear dos acontecimentos, pois propiciaram, mesmo que de maneira ainda incipiente, o desenvolvimento de uma nacionalidade hispânica. Diante da invasão moura na região sul, em 711, as remanescentes cortes visigodas passaram, então, a recuar para o norte e o nordeste do território, onde se constituíram os pequenos reinos das Astúrias e da Navarra. Por volta do ano 730, uma linha de defesa natural, que ia da calha do rio Douro aos montes cantábricos, e destes à cadeia pirenaica, foi estabelecida como fronteira entre cristãos e muçulmanos. Tratava-se de configuração muito próxima do que viria a ser, posteriormente, a principal rota de movimentação para Compostela, conhecida como "caminho de Santiago". Assim, os minúsculos reinos no extremo norte mais se valeram da proteção daquele acidentado relevo do que de suas reais capacidades para combater o inimigo. O restante das terras ibéricas ficara sob o domínio muçulmano, organizado, inicialmente, como o califado dos Omíadas.

Foi a partir do século IX que se consolidaram, no norte da península, as monarquias que iriam desempenhar papel fundamental na reconquista cristã hispânica. No centro da resistência asturiana, surgiu o reino de Leão e Castela, e no nordeste, além do da Navarra, o de Aragão. Posteriormente, no século XI, Castela separar-se-ia do reino leonês. A suposta descoberta do túmulo do apóstolo Tiago na região da Galícia, então parte do reino asturiano de Leão, ocorreu em 813, praticamente um século após o início da invasão muçulmana. Nessa época, Carlos Magno já imperava em praticamente todo o restante da Europa ocidental, cristianizada na quase totalidade pelo processo de conversões promovido pelas ordens monásticas que atuavam no continente.

A lenda diz que a tumba de Tiago era romana e muito antiga, o que obviamente deveria estar correto, pois, como vimos, Roma havia ocupado a região mais de duzentos anos antes do possível sepultamento apostólico na Galícia. Nada mais natural, portanto, do que uma tumba romana para um sepultamento no ano 44. Não existe qualquer comprovação de que os restos encontrados foram de Tiago, já que eram precárias ou inexistentes eventuais medidas de rigor científico para tal identificação. Resta a história de que o anúncio se deu por revelação divina, provavelmente apoiada pelo bispo Teodomiro, da diocese galega de Iria Flavia, vila portuária de origem romana. Nascia, dessa forma, um mito religioso de extrema conveniência política para o conturbado cenário da época. A presença do corpo de um apóstolo de Cristo promovia a região em importância, uma vez que se acreditava que as relíquias de homens santificados eram dotadas de grandes poderes. A Galícia ficava, assim, no mesmo grau de relevância religiosa que cidades como Éfeso, Antióquia, Jerusalém ou Roma possuíam.

Na verdade, pouco importa se o mito foi artificialmente construído ou não. Sua repercussão e as conseqüências geopolíticas geradas foram elementos que contribuíram para alterar decisivamente os rumos da história na península ibérica. Na área do sepulcro, foi erigida uma singela basílica a mando do rei Alfonso II, "o casto", e pequenas, mas crescentes, levas de fiéis começaram a se deslocar de diferentes aldeias para visitar a tumba. Em espaçados pontos das rotas trilhadas começaram a surgir monastérios, e fez-se necessário construir abrigos, albergues, estalagens e hospitais para apoiar esses peregrinos, o que também estimulou o desenvolvimento da economia regional. Embora sem competentes registros a respeito do tema, é lícito supor que, para atender as necessidades, o então poderoso império cristão de Carlos Magno, e o próprio papado em Roma, tenham canalizado recursos materiais de toda ordem para os monarcas do norte ibérico, uma vez que a todos era conveniente reunir condições para a retomada dos territórios ocupados pelo islã. O incremento da população cristã em áreas sob domínio muçulmano facilitaria, sem dúvida, a futura reconquista. Convém lembrar que, na Idade Média, não existiam exércitos regulares, como as anteriores e bem organizadas legiões romanas. Em geral, a nobreza dominava pequenos feudos e possuía guarnições militares modestas, já que a manutenção de efetivos consideráveis implicava custo muito elevado. A organização de tropas em maior número dependia da mobilização, pelos senhores feudais, da população das vilas e aldeias sob seu domínio: nem sempre era fácil convencê-los a combater e, provavelmente, morrer por alguma causa, que, em geral, pouco afetava o povo comum. O mito de Santiago, assim como viriam a ser, posteriormente, o de Joana D'Arc, na França, ou o de Dom Sebastião, em Portugal, foi de suma importância nesse contexto, pois dotou a cristandade ibérica de mais uma figura capaz de unificar ou, pelo menos, de facilitar a coordenação da luta dos diferentes reinos contra o inimigo comum, e funcionou, adicionalmente, como fator de aglutinação para que os homens do povo se integrassem às tropas formadas.

A batalha de Clavijo, em 844, nos arredores da atual cidade de Logroño, capital da comunidade espanhola de La Rioja, foi o primeiro exemplo deste efeito sobrenatural sobre os combatentes. Quando o rei asturiano Ramiro I enfrentou, em clara desvantagem numérica, as hostes muçulmanas de Abderraman II, vários cavaleiros e soldados afirmaram que Santiago estava entre eles, montado em um corcel branco, abatendo mouros com sua espada. Verdade ou não, o fato é que a derrota tida como certa não se configurou, e os cristãos venceram, tornando incontestável, para os padrões da época, a certeza da proteção do santo à causa cristã e fazendo surgir a lenda de "Santiago, o Matamouros". O mito de Tiago, até então restrito ao território ibérico, rapidamente se espalhou pela Europa. O culto a suas relíquias ultrapassou definitivamente a fronteira dos Pirineus e todo o ocidente voltou-se à responsabilidade de assegurar e defender o trânsito até a Galícia, o que, obviamente, reforçou a posição dos reinos do norte da península.

Para destruir a conscientização popular de resistência ao domínio muçulmano, a basílica inicial foi incendiada por tropas mouras. Visavam, com isso, a anular o simbolismo ali representado pela veneração ao sepulcro do apóstolo. O rei Alfonso III, que sucedera seu pai, mandou construir nova e mais imponente igreja, em estilo românico, consagrada em 899. Em 997, a nova basílica foi também destruída, sendo, em seguida, refeita pelo bispado local. A definitiva catedral em honra a Santiago somente seria erguida entre 1075 e 1128, na fase de maior esplendor do estilo românico compostelano, de forte influência francesa. À época da finalização da catedral, isto é, o começo do século XII, a arquitetura gótica (desenvolvida na cultura dos povos godos, com provável concepção em critérios eminentemente espirituais) entrava em seu apogeu - durante o período de 1150 a 1220, foram erguidas as mais famosas catedrais francesas, entre elas as de Chartres, Rouen, Reims e Paris. As outras duas famosas catedrais do norte espanhol, as de Burgos e de León, foram obras erguidas posteriormente, já no século XIII. Bem depois, no século XVIII, trabalhos de recuperação e modificação deram à fachada e às torres da catedral de Santiago de Compostela a configuração de estilo barroco que atualmente apresenta.

É interessante notar que o valioso patrimônio de monumentos históricos medievais, evidentemente não só na península ibérica, mas em toda a Europa, foi desenvolvido com base na arquitetura e na arte decorativa de cunho religioso. E não poderia ser diferente, já que a atividade dos conventos e monastérios, à época, não significava apenas ação clerical, já que envolvia intensa atividade temporal. A presença de monges transformava em lugares habitados as zonas devastadas pela guerra, e eram eles que desenvolviam as técnicas de agricultura repassadas aos campesinos. Conventos e mosteiros exerciam, também, o papel de escolas, bibliotecas e centros culturais, onde se formavam artesãos, mestres e construtores sob forte influência religiosa. No caso da Ibéria, em virtude da demorada ocupação muçulmana na maior parte do território, o patrimônio de base cristã é mais vasto e mais exuberante exatamente no trecho norte, não ocupado pelo islã, onde são escassos os edifícios de concepção mourisca.

Ao alvorecer do século X, a peregrinação à cidade de Compostela já era um fato consolidado e as variadas rotas se encheram de gente de distintas camadas sociais. A rede de calçadas romanas construída centenas de anos antes canalizou as levas de peregrinos, sobretudo a Via Aquitania. Cidades francas como Bordeaux, Vezelay, Le Puy, Paris e Arles, assim como as hispânicas Roncesvalles e Astorga, passaram a fazer parte do roteiro para o túmulo de Santiago, pela interligação de itinerários que propiciavam. Gradativamente, a sucessão destes e de outros acontecimentos passou a favorecer a luta pela reconquista, embora a inflexão para a definitiva retomada de território só viesse a ter início na virada do século XI. Apesar da aparente unidade cristã constituída no norte da península ibérica, os monarcas, por variados motivos, também tinham litígios entre si, o que enfraquecia sua posição antagônica aos muçulmanos. Apenas como exemplo, em 1067 foi travada a célebre guerra fratricida no Valdegón, em território navarro, entre os três Sanchos: Sancho II, de Castela, Sancho IV, de Navarra, e Sancho Ramírez, de Aragão.
Mesmo assim, reveses sofridos pelo islã propiciaram o avanço da linha de contato cristã-muçulmana um pouco para o sul, o que foi aproveitado pelos reis de Navarra e de Leão para também deslocar para o sul a rota principal que levava à Compostela, a partir da fronteira franco-hispânica. Com isso, abriram novo trajeto que partia de Roncesvalles, nos montes Pirineus, margeava o curso do rio Arga e iria passar, sucessivamente, pelas povoações de Estella, Logroño e, mais adiante, León, dando configuração praticamente idêntica à do atual trajeto conhecido por "caminho francês", a mais trilhada rota - sinônimo de caminho de Santiago. A finalidade, com essa estratégia, era facilitar o repovoamento de base cristã na faixa de terreno reconquistada.

É fundamental mencionar que a ocupação muçulmana da península já durava, então, mais de três séculos, o que propiciou as naturais interpenetrações culturais entre árabes e cristãos no território dominado. Apesar das nítidas e marcadas diferenças entre os dois grupos, como língua, religião e tradições, ocorreram casamentos, geradores da crescente interligação de costumes, particularmente nos trajes, nos modos e nos hábitos do dia-a-dia. Até mesmo na ornamentação de mosteiros e igrejas cristãs na área ocupada, era visível a ação da arte oriental. Mesmo constituindo coeso, denso e conservador enclave nas terras hispânicas, a comunidade moçárabe (grupo social muçulmano formado pelas gerações nascidas na península) tornava-se enfraquecida com o adensamento cristão. Embora houvesse a separação política e geográfica entre os cristãos subjugados do centro-sul e os cristãos inconformados do norte, mantinha-se entre eles a consciência do passado comum hispano-godo e a unidade da crença. A estratégia geopolítica foi, dessa forma, sedimentada com fundamentação religiosa, tendo a rota para Compostela exercido o papel de ferramenta alavancadora da reconquista.

Enquanto isso, na faixa mais ocidental da península, entre as calhas dos rios Minho e Douro, delineava-se a construção de nova nacionalidade, com a existência de um condado bastante autônomo, na então chamada "terra portucalense". A considerável distância em que se achava da corte leonesa tornou admissível a progressiva independência na ação dos respectivos condes. Aquela porção de território entre os domínios muçulmanos e cristãos era escassamente povoada de início e, ao final do século IX, passou a receber, com mais intensidade, o afluxo de galegos, de asturianos e de leoneses provenientes do norte, e de moçárabes vindos do sul do Douro. O repovoamento, com marcante alteração da composição étnica, contribuiu para diferenciar as duas partes da Galícia, que ainda se mantinham semelhantes ao tempo dos romanos. Assim, protegida ao norte do Minho, configurou-se a Galícia hispânica, unicamente voltada para o culto de Santiago, que exercia a atração de recursos provenientes do restante da Europa ocidental. Por conseguinte, a principal rota que levava até lá - o caminho de Santiago - facilitou enormemente o desenvolvimento da faixa de território que englobava toda sua extensão. As povoações cresceram, vilas tornaram-se cidades, e fortalezas e efetivos militares fundamentais para a campanha de reconquista foram ali aquartelados. Ao sul do rio, desenvolveu-se o condado portucalense, que lutaria contra os mouros para a reconquista plena da faixa sudoeste da península, afirmando sua vontade de não voltar a ser absorvido por Castela. A independência foi iniciada por volta de 1095, quando o rei Alfonso VI destacou o condado da monarquia leonesa e o entregou ao conde D. Henrique, de Borgonha. Prosseguiu com a vitória na batalha de São Mamede, em 1128, fato que marca a constituição da nação portuguesa. Foi finalmente selada em 1139/40, quando o príncipe D. Afonso Henriques se intitulou rei, concluindo o processo. Historiadores afirmam que Portugal nasceu e cresceu diante do ardente desejo de não ser Castela e, também, como resultado da ambição de D. Henrique, apoiado pela ordem de Cluny e pela monarquia de Borgonha.

Em meados do século XII, a península ibérica estava redesenhada politicamente, tendo Portugal a oeste, os reinos hispânicos de Leão e Castela (novamente unidos), de Navarra e de Aragão em toda a faixa do norte, desde o mar cantábrico e os montes Pirineus até uma linha que, de leste a oeste, praticamente dividia ao meio a península e, abaixo, os domínios muçulmanos reduzidos ao emirado dos Almorávidas.

O século XIII foi nitidamente o do franco progresso do avanço cristão sobre os territórios ocupados, tanto no lado hispânico quanto no português. Aos muçulmanos restou limitada faixa de terra litorânea no sul, que ia de Gibraltar até pouco além de Almería, na região da atual Andaluzia. Era o reino de Granada, que ainda se manteria sob poder islâmico por mais dois séculos, até quase ao final do século XV. A campanha da reconquista hispânica foi árdua, lenta e desgastante. A queda do reino de Granada foi o ápice histórico deste longo processo e coincidiu com a união definitiva das duas monarquias cristãs sobreviventes, Castela e Aragão, por meio do casamento de Isabel e Fernando, os reis católicos. Foi a partir daí que se abriu espaço para novo ciclo da história, o das grandes navegações, que impulsionou as conquistas ultramarinas de espanhóis e portugueses.
Como conclusão, ressalta-se que as ambições pessoais e familiares dos monarcas cristãos na península jamais suplantaram a intenção primordial da expulsão dos invasores muçulmanos. A par das lutas e disputas entre os reinos, muitas delas por litígios sucessórios no domínio de diversas cidades ou porções de terra, por resultado de partilhas de heranças conflituosas ou decorrência de casamentos que ligavam diferentes dinastias, ainda assim conseguiram manter a união de base religiosa contra o inimigo comum. Pode-se afirmar que a retomada plena dos territórios aos muçulmanos teve seu principal fator motivador no ideal de estabelecer a supremacia da fé cristã. E é neste contexto que o caminho de Santiago, englobando seu trajeto principal e as rotas subsidiárias, pode ser visto como fator gerador de desenvolvimento e segurança para o esforço da reconquista. Como um dos mais importantes fenômenos sociológicos da humanidade, embora originalmente pautado na religiosidade da fé cristã, foi sabiamente utilizado como elemento geopolítico, para facilitar a mudança dos rumos da história.

*O autor e sua mulher percorreram o caminho, a pé, entre setembro e outubro de 1999, e retornaram em outubro de 2000, para refazer algumas etapas. Em dezembro de 2000, publicaram o livro No Caminho de Santiago (Editora Thesaurus de Brasília, 232 p.).

Fontes consultadas:
Atlas Geográfico Mundial. Folha de São Paulo, 1994.
Atlas da História do Mundo. Folha de São Paulo, 1995.
Atlas da História Universal, The Times. O Globo, 1995.
Atlas Histórico Escolar. Ministério da Educação e Cultura, 1983.
SILVA NETO, Serafim da. História da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro,
Livros de Portugal, 1970.
MARTINS, Edison e Denise. No Caminho de Santiago. Brasília, Thesaurus
Editora, 2001.
BRITO, Sergio José de, BRITO FILHO, Sergio José de e GOUVÊA, Ana Maria de
Brito, O Caminho de Santiago de Compostela - Rota do Novo Milênio.
Curitiba, Unificado Gráfica e Editora, 2000.

Enviado por Edison Martins
 
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