Artigos Peregrinos

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Cruz de Ferro
Auro Lúcio
A neblina vai se esvaindo à medida que o tempo passa e posso ver melhor a paisagem: a trilha corta gramados verdes e por todos os lados há tufos de arbustos floridos em amarelo, branco e - novidade! - violeta.

Mesmo subindo sempre, ainda sinto bastante frio, e piso firme o chão de terra respirando fundo, resfolegando e fungando bastante.
- O que eu esperava deste momento?
- Tento organizar meus sentimentos (como se estivesse arrumando uma estante de bibelôs)
- O que é a Cruz de Ferro? Por que os peregrinos teriam criado essa pequena montanha de seixos? Num flash-back momentâneo vi a gaveta da minha escrivaninha, em Águas de Lindóia, onde estava guardada a pedra que tinha planejado trazer para deixar aqui neste local. Nos preparativos para a viagem quis trazer para cá alguma pedrinha que tivesse significado especial para mim, algo que possuísse valor simbólico condizente com a - supunha eu - imponência do momento. Lembrei-me de algumas rochas que ganhei do meu primo Zezito, garimpadas no sítio de São Pedro do Turvo. Desde minha mais tenra infância, fiquei encantado com aquelas pedras existentes aos montes no sítio da tia Maria: rochas que, partidas, mostram em seu interior cristais translúcidos, de coloração violeta ou azulada! São pedras semelhantes àquelas que encontramos em lojas de artigos para turistas, devidamente polidas e com preços em dólares. Mas lá, no sítio, estavam por todos os lugares e eu, aprendiz de Indiana Jones, ficava horas recolhendo e admirando as preciosidades. Pois bem: escolhi uma delas, pequena e com núcleo especialmente brilhante e de cor rósea, lavei carinhosamente e poli como pude as gemas, que reservei em minha gaveta para a viagem. Eu lera em algum lugar que há uma tradição na qual o peregrino leva para a Cruz de Ferro uma pedra do lugar que ele nasceu; pois então eu levaria o cristal rude da minha minúscula São Pedro do Turvo, onde pela primeira vez abri a boca, já ornada com dois dentes, e iniciei uma série até aqui ininterrupta de berreiros e resmungos.

Na entrada de Logroño, quando dona Felisa pediu para nós uma pedra do Brasil, apalpei a pochete e descobri: - A pedra não veio! O Dalmo - sempre precavido - resolveu o problema dando a ela uma pedrinha extra que trazia consigo, e eu continuei o caminho sabendo que meu cristal não tinha embarcado comigo para a Espanha.

Depois de uma hora de ascensão pesada, vejo ao longe e acima a montanha de pedras imortalizada nas fotos de todos os livros sobre a Compostela. Destacando-se no alto de uma elevação, lá está o resultado do acúmulo das preces e desejos de cada peregrino que, nos últimos séculos, tem passado por aqui. Como já era esperado - e eu já tinha alertado meus companheiros para isso -, o ápice do monte não exibia o coroamento que o imortalizou: o poste com a cruz de ferro no alto. Aliás, nem havia ápice, pois um trator (indecendemente estacionado ao lado do monte de pedras) havia escavado o centro do sistema e aberto um buracão bem onde fora serrado o poste original. Subindo nas pedras eu vejo uma base de concreto recém-montada, onde será fixada a nova base da cruz. O núcleo da área de obras está isolado por aquelas fitas plásticas amarelas que aparecem nos filmes americanos todas as vezes que acontece um acidente ou homicídio.
- Oi!... Olho para trás e lá está a Márcia, que deve ter chegado um pouco antes de nós. Sentada e desconsolada, ela olha para o espaço vazio do que seria o esperado monumento. A pequena capela, um pouco acima do desarrumado monte de pedras, também foi "atacada" pelos vândalos: está toda grafitada e suja. Vamos ler as palavras: - León solo! Autonomía para León!!!

Pelo que eu sei ninguém ainda assumiu o, digamos, atentado ao monumento, mas os indícios apontam para um dos vários grupos separatistas que existem aqui na Espanha. Há algum tempo já venho notando dizeres semelhantes a esses, em placas e muros à beira do caminho, onde se percebe um tipo de "orgulho patriótico" pela própria terra.

Será que a luta pela "independência e autonomia" das províncias justifica esses atos de afirmação de posição política, atos que vão desde o ataque a patrimônios culturais (como este que estou presenciando agora), a manobras mais violentas e radicais (seqüestros, explosões em lugares públicos e mortes)?

Nasci e vivo em um país que, embora geograficamente imenso e com diferenças culturais enormes, ainda se reconhece como um todo; da Festa do Círio de Nazaré aos churrascos das querências gaúchas, os brasileiros conseguimos criar uma identidade única no mundo, na qual nossa diversidade étnica e cultural mesclou-se de tal forma que constituímos uma nação ímpar e voltada a uma nova forma de ser.

Essa luta me parece - assumindo claramente que não conheço a realidade das pessoas que a praticam - equivocada em seu mérito. Mesmo que se considere que a Espanha é um conglomerado de pequenas regiões que diferem entre si étnica e culturalmente, e que há séculos a união entre esses povos tem sido obtida - quase sempre - por uso de força política e militar, essas tentativas de criação de países minúsculos caminha em sentido contrário ao fluxo cósmico. Uma coisa, válida e meritória, é manter a luta pela autonomia cultural de seu povo e sua região; é exigir que governos centrais respeitem costumes, línguas e tradições regionais. Outra coisa é canalizar energia para processos que, do ponto de vista deste peregrino, tendem a baixar os pratos da balança para o lado do não.

Quanto à luta pelos direitos da pessoa, acesso igualitário ao trabalho e aos bens e produtos da sociedade, a mim parece que isso é tarefa para cidadãos de qualquer país - independente do nome que possa figurar na carta política da região. Em qualquer língua ou cultura, o acúmulo da riqueza nas mãos de uma minoria sempre foi - e será - agressão maior à porção humana daquilo que somos neste planeta.

Se tenho algumas dúvidas sobre a legitimidade do mérito dessas batalhas pela autonomia, posso afirmar que estou sendo atingido diretamente pelo método empregado desta vez:
- Cadê minha Cruz de Ferro! Bem na minha vez!...

O que eu esperava encontrar aqui? Qual a representação deste local, na minha expectativa de caminhante? Se fosse deixar aqui a pedra coletada em São Pedro do Turvo, isso já estaria frustrado: esqueci a dita cuja no Brasil. Uma pedra do lugar onde nasci... Olhando para o monte de pedras, todo desarrumado, vejo aquele mesmo gato da Alice, sorridente, que olha para mim e diz:
- Então pega uma!
Pegar onde? É claro, aqui! Em qualquer lugar! Aparecem duas imagens muito nítidas em minha mente, refletindo situações opostas: de um lado, uma série de atitudes violentas para que sejam reforçados limites geopolíticos entre países: o bombardeio em Kosovo, movimentos separatistas radicais, massacres étnicos e nações poderosas submetendo economicamente as mais fracas, escravizando seus povos; do outro lado, o primeiro astronauta russo olhando pela primeira vez a Terra, a partir do espaço e, iluminado pela luz de esferas superiores, vê o nosso planeta como um todo e diz:
- A Terra é azul!
Não viu países, povos, mares ou continentes; não descreveu diferenças entre brancos, pretos, amarelos; nem mesmo percebeu a existência de blocos de capitalistas e comunistas - que, na época, representavam o mais importante confronto político do mundo. Só viu uma coisa:
- A Terra é azul!
E é dessa Terra que eu recolho uma pedra, na base do monte que está à minha frente. Retenho o mineral, quase esférico e um pouco menor que a minha mão, durante alguns segundos e, agradecendo a tudo que estava ocorrendo, aos companheiros de caminhada e até aos ativistas do León solo! Deposito carinhosamente a pedra no mesmo local de onde a tinha levantado. Pronto! O débito para com o Monte de Pedras está cumprido.
- E a Cruz de Ferro? Qual é o papel dela aqui?
Esse é o ponto mais elevado do Caminho de Santiago, segundo o relato do guia; para ser mais preciso, consta que a antena de telecomunicações, localizada logo ali à frente, é apenas um pouco mais alta que esse lugar.

Olhando o perfil de todo o trajeto, de Saint Jean a Santiago, é nesta montanha que a Via Láctea - o caminho dos peregrinos refletido no céu, ou vice-versa - está mais próxima da Terra. Neste lugar, há centenas de anos, a Cruz de Ferro vem sendo o pára-raios que absorve a energia das estrelas e a conecta com o planeta. Através do metal no qual foi moldada, a cruz integra o Caminho das Pedras ao Caminho das Estrelas. O debaixo une-se ao de cima, pois ambos são manifestação da Coisa Única, como diz a Tábua de Esmeralda onde Hermes Trimegisto gravou - em linguagem obviamente hermética - os passos e a descrição dos processos mágicos que explicam o Universo.

A simbologia da cruz (o vertical em direção ao alto e o horizontal ao nível da terra) apresenta-se como o veículo físico - moldado em ferro - para esse casamento alquímico. As etapas físicas pelas quais passamos até agora (o barro, a água, o vento, o frio e outros) são agora amalgamadas pela energia ígnea das esferas mais altas, que a nós vem trazida pela antena desenhada no símbolo da Paixão do Cristo.

Hoje, excepcionalmente, alguém retirou a cruz. O monte de pedras, ali edificado pelos peregrinos e que atua como elemento terra na absorção da energia dos astros, está descomposto. Somos nós, corpo físico de caminhantes que, do alto desta montanha, elevamos os braços para os céus, e oferecemos a via de descida para que a ligação entre as esferas terrenas e celestes seja mantida.

A Márcia me chama de volta à realidade:
- Faça uma foto minha aqui no lugar da Cruz de Ferro!
Desce até o local onde estava a base da cruz e abre os braços. Em cruz. Click!

Amanhã ou depois haverá uma nova Cruz de Ferro e certamente as pedras voltarão a formar um cone (ou pirâmide?) ao redor do novo mastro e o símbolo maior do cristianismo estará novamente no ápice do Caminho de Santiago. Outros peregrinos depositarão, com suas pedras, seus pedidos, ofertas e expectativas relativas a esta viagem, além de sonhos pessoais tão ou mais complicados do que esse que estou vivendo agora.

A Cruz de Ferro dos peregrinos não foi e nem poderia ser seqüestrada daqui, pois não se pode tomar o símbolo -pelo objeto que o representa; a verdadeira cruz, a antena que liga o humano ao divino, está plantada em cada ser humano, imediatamente antes do ponto onde, no corpo da alma de uma pessoa se produz a palavra Eu. E o divino - ainda que simbolizado pela estrelas acima de nós - está verdadeiramente no interior de cada um.
 
Enviado por Auro Lúcio Silva - Visite sua homepage
 
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