Artigos Peregrinos

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Coelhos Brasileiros
Auro Lúcio
TRECHO 1

Por que tantos brasileiros estão fazendo o caminho? - pergunta de repente meu interlocutor, interrompendo seu próprio discurso. Essa questão tem surgido em quase todas as conversas com estrangeiros, principalmente espanhóis. De fato, somos muitos brasileiros, parece que já somos a quarta ou quinta nacionalidade em número de peregrinos. Tento explicar o que nã verdade não sei, quando vem a segunda e infalível pergunta:

- Não será por causa de um famoso escritor brasileiro, um tal de... Paulo...?

Esse assunto tem estado, do mesmo modo, presente nos bate papos entre nós, brasileiros. Ao menos entre os que conheci até agora, ninguém disse que foi motivado a fazer o Caminho pelas leituras dos livros de Paulo Coelho, ou pela possível expectativa que seu Diário de um Mago poderia gerar nos que caminhassem pelos locais que ele, supostamente, caminhou há mais de dez anos. Ainda baseado na opinião dos companheiros que tenho encontrado aqui e considerando que seu autor é um dos maiores fenômenos editoriais dos últimos tempos, esse livro foi um grande divulgador do Caminho de Santiago, opinião compartilhada pelas autoridades galegas responsáveis pelo incremento do turismo nessa parte da península; por outro lado, as motivações para uma jornada como essa são tão pessoais - mesmo que nem sempre claramente verbalizadas ou mesmo conscientizadas pelos peregrinos - que ninguém confunde os próprios motivos com a viagem pessoal de Coelho. Não há duas caminhadas iguais a Compostela, como não existem dois grãos de areia semelhantes em todas a Terra.

Expliquei isso ao espanhol de um modo que penso ter sido compreendido e acrescentei que temos muitos outros escritores que, cada vez mais, fornecem relatos de diversos feitios sobre o Caminho de Santiago. Muitos desses escritores - todos ex-peregrinos - são pessoas mais palpáveis e acessíveis a quem tem desejo de fazer o Caminho e muitos deles tem sido, de fato, referência principal de muitos colegas; disse-lhe que existem no Brasil várias Associações de Amigos do Caminho de Santiago, e outras deverão ser criadas, e elas fornecem todas as informações práticas a quem quiser se aventurar nesse roteiro milenar.

O simpático espanhol mostrou-se surpreso com o nível de informações que temos sobre essa caminhada - e eu sou um dos mais ignorantes no assunto - e despediu-se, lamentando que o tempo esteja tão estranho nessa primavera, com frio e chuva acima do normal. Segundo ele, nessa época já deveria ser comum que os peregrinos pudessem dormir ao ar livre, nas praças, em caso de lotação dos albergues. Desejou-me bom caminho e entrou com seu carro em Villatuerta. Novamente equipado, e tendo Estella à frente, sigo resoluto em direção a ela.

TRECHO 2

- Uma foto, vamos fazer a foto!

Formamos um bloco enorme em frente à catedral, mais ou menos umas vinte e poucas pessoas. Somos quase todos brasileiros, acrescidos do sorridente grupo formado por Melanie, Sophie - sim, ela chegou caminhando! - e Jacynthe, nossas amigas do Quebec. Cada um de nós com sua máquina fotográficana mão.

- E quem vai fotografar?

O problema é resolvido pelo oferecimento voluntário de um rapaz português que fizera amizade com um dos brasileiros. Colocamos todas as nossas máquinas, como um monte de medalhas olímpicas, penduradas no peito do infeliz voluntário. E vamos para a pose!

- Viver, e não ter a vergonha de ser feliz!
Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz!...

A plenos pulmões cantamos todos os versos de Gonzaguinha que exprimem o que acredito ser o sentimento de todos nós. O jovem português pega a primeira câmera, aponta e - click! - bate a primeira foto.
- Outra, agora outra! - gritam alguns em meio ao canto geral.

O fotógrafo não se faz de rogado: sem tirar os olhos do visor, manda bala: Click! Click! Click! E vai batendo outra, mais outra, mais outra foto com a mesma máquina.

Acho que foram as fotos mais alegres - e repetidas em cada máquina - da história de Santiago. Cada um de nós já ficou com várias cópias de foto do grupo no seu negativo. Todas as fotos devem estar mostrando um grupo gargalhando, dobrando-se de rir e acenando para que o rapaz trocasse de máquina antes de bater outra fotografia.

Peguei minha máquina (tive sorte, êle bateu apenas duas com meu filme) e sentei-me na escadaria de 33 degraus que liga a porta à Praça do Obradoiro. Enxuguei as lágrimas - de riso, desta vez - e fiquei olhando nosso povo ainda rindo e se abraçando na minha frente. Os turistas olhavam ressabiados, e vieram até mesmo uns policiais ver o que era aquilo tudo, e ficaram a uma respeitosa distância de nós. Havia muitos outros peregrinos mochilados por perto, mas nenhum deles demonstrava a felicidade que nosso grupo estava irradiando. Quase todos os outros estavam andando gravemente, sérios, com sorrisos contidos e com cara de quem terminou a lição de casa e vai entregar para a professora ranzinza.

Esse constraste entre a explosão de nossa felicidade e as manifestações comportadas dos europeus traz-me à mente a pergunta que ouvi muitas vezes durante a caminhada, em todas as línguas que consigo compreender:

- Porque tantos brasileiros fazendo o Caminho de Santiago?

Não sei se conheço a resposta a essa pergunta, nem sei mesmo se ela existe. O que posso dizer é que nossa presença aqui é marcante, considerando-se o a distância que separa o nosso país dos campos espanhóis. Talvez a resposta esteja nessa forma despojada de vivermos os momentos da vida, de abrirmo-nos à alegria quando ela pede passagem e de permitirmos que as lágrimas molhem nosso rosto quando o coração assim o exigir. Pode ser que estejamos aqui para seguir nossa sina lusitana e que nossa alma, que não é pequena, creia que tudo vale a pena e que navegar é preciso; é bem possível que guardemos, em nossas espirais evolutivas, uma nostalgia maior dessas plagas, dessas pedras e da magia dos druidas que um dia chegaram a essas terras trazendo segredos oriundos em atlântidas d'além-Finisterre. Ou pode ser qualquer outra coisa.

Talvez aquela frase do hospitaleiro de Manjarin, os peregrinos serão a ponte entre esse mundo e aquele que vai surgir, aplique-se a nós, brasileiros, como parte de um destino que nos fez cadinho da humanidade, recipiente onde a amálgama alquímica das raças pode estar preparando a eclosão da humanidade-fênix que ressurgirá das cinzas a que se reduzirá a atual sociedade mundial. Sei lá, talvez tudo isso responda à pergunta. Ou não.

O fato é que estou sentado nos degraus da Catedral de Santiago, no dia catorze de junho de mil novecentos e noventa e nove, depois de andar vinte e nove dias a partir de Saint Jean Pied-de-Port. Cheguei. E agora?
 

Enviado por Auro Lúcio Silva - Visite sua homepage
 
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